Mark Mitchell/Pool via AP
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Combatendo a variante Delta, Nova Zelândia abandona suas ambições de 'covid zero'

País está mudando o curso de sete semanas de um bloqueio que não conseguiu acabar com o surto e testou a paciência de muitos cidadãos

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 16h46

AUCKLAND - Por um ano e meio, a Nova Zelândia perseguiu uma estratégia de "covid zero", fechando suas fronteiras e aplicando rapidamente bloqueios para manter o coronavírus sob controle, uma política que manteve mesmo quando outros países da Ásia-Pacífico fizeram a transição para coexistir com a ameaça viral. Nesta segunda-feira, 4, a Nova Zelândia desistiu do plano.

A primeira-ministra Jacinda Ardern reconheceu o fim da estratégia de eliminação após sete semanas de um bloqueio que não conseguiu impedir um surto da variante Delta, anunciando que as restrições seriam gradualmente suspensas em Auckland, a maior cidade do país.

“Estamos fazendo a transição de nossa estratégia atual para uma nova maneira de fazer as coisas”, disse Ardern a repórteres. “Com a Delta, o retorno ao zero é incrivelmente difícil e nossas restrições por si só não são suficientes para alcançar isso rapidamente. Na verdade, para esse surto, está claro que longos períodos de fortes restrições não nos levaram a zero casos.”

“O que chamamos de cauda longa”, acrescentou ela, “parece mais um tentáculo que foi incrivelmente difícil de controlar”.

No geral, a abordagem da Nova Zelândia ao vírus tem sido um sucesso espetacular, proporcionando uma das taxas mais baixas de casos e mortes do mundo e permitindo que sua população viva sem restrições durante a maior parte da pandemia.

Mas o clima em Auckland piorou à medida que o bloqueio mais recente se estendeu, com milhares de pessoas quebrando uma ordem de permanência em casa no sábado para protestar contra as restrições no maior protesto do país durante a pandemia.

O programa de vacinação do país também tem sido uma fonte de consternação. A campanha começou para valer apenas no mês passado, e menos da metade das pessoas com mais de 12 anos foi totalmente vacinada, deixando a Nova Zelândia bem atrás da maioria dos países desenvolvidos.

Ardern começou a reconhecer o descontentamento público há duas semanas, quando anunciou, depois de mais de um mês de uma ordem de permanência em casa altamente restritiva, que algumas regras seriam relaxadas em Auckland, mesmo que grande parte da ordem de bloqueio permanecesse em vigor. Cerca de 200 mil pessoas puderam retornar ao trabalho, e restaurantes e cafés puderam reabrir para pedidos de entrega.

Na época, Ardern disse que o país ainda estava tentando eliminar o vírus. Mas para os epidemiologistas, que acreditavam que ainda era possível derrotar a Delta e que estavam incentivando a Nova Zelândia a seguir a estratégia de covid zero, era uma aposta.

Agora, dizem, está claro que a flexibilização das restrições acabou com qualquer chance de exterminar o vírus novamente. A Nova Zelândia ainda está relatando dezenas de novos casos por dia, quase todos em Auckland, depois que o último surto começou em meados de agosto.

“A modelagem dizia basicamente que ir para o Nível 3 seria um grande risco”, disse David Welch, pesquisador da covid-19 do Centro de Evolução Computacional da Universidade de Auckland, referindo-se ao afastamento do Nível 4, o alerta de mais alto nível.

“Acontece que a eliminação não vai funcionar no Nível 3”, disse ele. “Isso não é tão surpreendente, porque a Delta é muito transmissível. A questão agora é: o Nível 3 será suficiente para contê-la com menos de 20, 30, 40, 50 casos por dia por um tempo?”

Uma abordagem mais permissiva, disse Welch, poderia permitir que o número de casos aumentasse muito mais, deixando o surto sair de controle.

Para evitar essa disseminação do vírus, epidemiologistas disseram que as pessoas em Auckland provavelmente ainda enfrentariam até dois meses de confinamento. Isso os deixará em um limbo muito parecido com os vivenciados em cidades australianas como Sydney e Melbourne, onde os líderes também anunciaram que estavam abandonando uma abordagem 'zero covid', mas deixaram fortes restrições em vigor.

Cingapura também mudou para o que chama de viver com o vírus, usando métricas como hospitalizações e mortes em vez de números de casos para orientar sua reabertura, agora que vacinou grande parte de sua população. A mudança de estratégia por Cingapura e outros países da região deixou a China como talvez o último grande país a buscar uma abordagem 'zero covid'.

Na segunda-feira, Ardern ofereceu um mapa de três estágios para levantar o bloqueio, em um esforço para "tornar a vida cotidiana um pouco mais fácil".

A partir de terça-feira, os residentes de Auckland, pela primeira vez desde agosto, terão permissão para se encontrar com membros de outras famílias ao ar livre. As crianças mais novas retornarão às salas de aula e haverá uma abordagem mais permissiva aos exercícios ao ar livre nos parques, reservas naturais e praias da cidade.

Para se afastar completamente dos bloqueios, a Nova Zelândia terá de obter uma ampla vacinação, disse Ardern. Cerca de 79% das pessoas com mais de 12 anos receberam pelo menos uma dose e 48% receberam duas doses, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Imunização total da população - objetivo declarado da Nova Zelândia - pode levar meses enquanto o país luta para persuadir os últimos 20% a receber a primeira dose de uma vacina.

As comunidades de maior risco do país também são as menos vacinadas. Embora mais de 95% das pessoas de ascendência asiática e 80% dos brancos tenham recebido pelo menos uma dose, o número cai para cerca de 73% para os habitantes das ilhas do Pacífico e menos de 57% para os Maori.

Minimizar o surto de Auckland foi complicado por um aumento de casos entre pessoas vulneráveis, incluindo aquelas que vivem em moradias temporárias ou áreas de risco, disse Michael Baker, epidemiologista da Universidade de Otago.

“Devíamos ter reconhecido a transmissão enraizada em grupos marginalizados e carentes - foi isso que basicamente sustentou o surto”, disse ele. “Essa transmissão é relativamente impenetrável ao sistema de nível de alerta e às restrições, porque se trata de pessoas em situação precária.”

Alguns dos casos mais recentes de Auckland foram detectados acidentalmente em enfermarias de hospitais ou depois que pessoas foram levadas à custódia da polícia, sugerindo transmissão generalizada entre pessoas que não estão sendo testadas.

Em uma postagem no Twitter, o escritor e comentarista político Maori Morgan Godfery expressou preocupação sobre o que o abandono da estratégia de eliminação pode significar para aqueles em comunidades carentes.

“A primeira-ministra diz que agora devemos viver com o vírus”, escreveu ele. “Mas o 'nós' significa essas mesmas linhas de desigualdade. O vírus agora vai se infiltrar em gangues, na comunidade habitacional transitória e em pessoas não-brancas não vacinadas. Em 2020, Jacinda pediu sacrifício compartilhado. Em 2021, é um sacrifício especial.”

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