Claude Paris/AP
Claude Paris/AP

Combatendo de perto e de longe

É possível que o EI esteja lançando ataques no exterior por ter sido debilitado em seu território; mas não será fácil vencê-lo

The Economist

22 de novembro de 2015 | 03h00

"Resistir e expandir": o sonoro lema do Estado Islâmico (EI) não faz menção à sanha destrutiva do grupo, mas, tirando isso, sintetiza bastante bem suas ambições. Se nos últimos tempos o EI parece mais ocupado em resistir, sua história mostra que o grupo nunca perdeu de vista o objetivo de se expandir de todas as formas possíveis: conquistando território, criando ramificações por toda parte, inspirando novos recrutas e espalhando o medo. Como controla recursos escassos e não tem aliados propriamente ditos, o grupo precisa ser um alvo sempre em movimento. 

Não está claro em que medida as recentes incursões fora do território que o EI tomou da Síria e do Iraque sinalizam uma mudança de curso. Faz algum tempo que seus diversos afiliados - cerca de 36 grupos espalhados pelo mundo já declararam lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi, o misterioso califa do EI - vêm realizando atentados terroristas. Segundo levantamento recente do New York Times, é possível que, com suas ações no Iêmen, na Tunísia, em Ancara e em Beirute, essas ramificações do EI tenham provocado a morte de mil civis de janeiro até agora - não foram computadas as vítimas dos massacres executados pelo Boko Haram na Nigéria. 

O grupo também tem incentivado aspirantes a terroristas que compartilham de sua ideologia a empreender ações individuais, por conta própria. Mas o número de mortes nas últimas semanas parece colocar as coisas num novo patamar.

Pode ter sido por coincidência que planos envolvendo o assassinato de centenas de pessoas em Paris, a explosão de um avião sobre o Sinai e mortes indiscriminadas nas ruas de Beirute tenham sido executados em tão curto intervalo de tempo. Nada impede que essas ações estivessem sendo planejadas há meses e tentativas similares podem ter sido frustradas antes. Mas também é possível que elas façam parte de uma reação calculada aos desafios que o EI atualmente enfrenta para manter seu território.

Baixas. Fontes do Pentágono dizem que os ataques aéreos da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos mataram 20 mil homens do EI em 14 meses. Parece uma avaliação excessivamente otimista da operação iniciada em agosto de 2014. Mas é verdade que entre os mortos havia vários comandantes. Acredita-se que os combates intensos travados em Kobani, enclave curdo no norte da Síria que as tropas do EI sitiaram em setembro de 2014, para serem por fim repelidas sob pesados ataques aéreos, três meses depois, tenham custado 2 mil homens ao grupo. 

Um dissidente do EI disse ao jornalista americano Michael Weiss que as perdas correspondem ao dobro disso, no mínimo, e controles mais rígidos na fronteira da Turquia fizeram com que o EI passasse a ter dificuldade para repor os combatentes mortos. O dissidente disse também que foi em resposta a essa nova situação que o grupo passou a organizar atentados contra o inimigo “distante”. Ações únicas e dramáticas têm imenso efeito multiplicador em termos de propaganda.

Perdas tão grandes quanto as que o EI sofreu em Kobani são um revés, sem dúvida; mas, infelizmente, não chegam a constituir um golpe fatal. As estimativas sobre o tamanho das tropas sob comando do EI vão de 30 mil (segundo a CIA) a 100 mil homens (segundo com o iraquiano Hisham al-Hashimi, um especialista em segurança). Hashimi calcula que aproximadamente 20% desses combatentes sejam estrangeiros - porcentual similar ao mencionado em documentos da ONU.

É preciso levar em conta, também, o fato de que as forças do EI dão mostras de ser militarmente muito mais eficientes do que as tropas que os enfrentam. Em abril, para derrotar um contingente de mil combatentes do EI e retomar a cidade iraquiana de Tikrit, foi preciso mobilizar 30 mil homens, entre soldados do Exército iraquiano e milicianos xiitas. Ao capturar Ramadi, também no Iraque, o EI tinha um combatente para cada dez soldados das tropas que defendiam a cidade.

Táticas. Parte da vantagem das tropas do EI é consequência, sem dúvida, da disposição para recorrer a táticas camicases, mas as forças do grupo também são criativas, bem treinadas e comandadas com mais competência do que muitos de seus adversários. Em abril, o EI usou um drone para registrar a tomada de uma refinaria de petróleo. Depois, o vídeo foi postado na internet.

Um ex-boina verde americano, citado pela agência de notícias McClatchy, disse que os combatentes do grupo demonstram “confiança e compostura tática: movimentam-se corretamente, guardam intervalos, têm disciplina na hora de efetuar disparos”.

Combater bem não é suficiente. Apesar do bom desempenho de seus combatentes, o EI vem perdendo terreno, em grande parte porque seus adversários dispõem de poderio aéreo. Forças curdas capturaram Sinjar, no Iraque, junto com uma área contígua, em território sírio. E há outras regiões do Iraque em que as tropas do EI também estão sendo obrigadas a recuar. 

Com o auxílio de aeronaves russas e de milícias apoiadas pelo Irã, as forças do governo sírio recentemente romperam o cerco que havia muito tempo o EI fazia a uma base aérea nas proximidades de Alepo. Depois da morte de 224 russos no atentado contra o avião da Metrojet, no dia 31, é possível que a Rússia tenha passado a concentrar seus ataques no EI, poupando os outros inimigos do regime de Bashar Assad.

Apesar disso, o EI resiste. A bem da verdade, seu território continua sendo uma das áreas mais seguras da Síria: autoridades turcas envolvidas na organização da ajuda humanitária dizem que entre setembro e outubro 70 mil civis, provenientes da província de Homs, buscaram refúgio no EI.

Os bombardeios que as forças da coalizão internacional lançam contra o califado são muito menos indiscriminados do que os executados pelas forças aéreas russas e sírias em outras regiões. Além disso, os alimentos são mais baratos e o EI impõe a obediência a um arremedo de Justiça. Há também uma economia em funcionamento, graças, em larga medida, a 20 mil ou 30 mil barris de petróleo que, calcula-se, são extraídos de campos petrolíferos capturados no Leste da Síria e no Norte do Iraque.

A dependência em relação às receitas do petróleo - que somam cerca de US$ 50 milhões por mês, segundo reportagem investigativa conduzida pelo Financial Times - é só um dos aspectos que fazem o EI parecer mais uma ditadura árabe ao velho estilo do que uma nova Utopia Islâmica. Seus líderes dão esmolas aos pobres em troca de obediência absoluta. Estimulam um culto personalista em torno da figura de Baghdadi. Produzem pomposas peças de propaganda sobre pontes reformadas e escolas recentemente inauguradas. Como todas as bem-sucedidas autocracias da região, o EI criou vários órgãos de segurança, estimulando a desconfiança mútua, a fim de se precaver contra golpes.

Reação. Depois dos atentados de Paris, tudo aponta para a implementação de ações militares destinadas a privar o EI de sua base territorial. Os recursos do grupo, mesmo que mobilizados ao máximo, não seriam suficientes para constituir senão uma força nanica perto do poder de fogo de seus adversários.

Em entrevista à BBC, o chefe de segurança do Curdistão iraquiano disse que, havendo a disposição necessária, a coisa pode ser resolvida em questão de meses, ou mesmo semanas. A França já intensificou seus ataques aéreos e a Rússia, agora empregando bombardeiros de maior porte, diz que dobrará o número de missões diárias.

Os caças americanos estão atacando novos alvos na infraestrutura petrolífera do grupo. Ações recentes, precedidas de alertas à população civil, destruíram centenas de caminhões-tanque.

Sob tamanha pressão, a área controlada pelo EI deve encolher. Mas a tomada de cidades grandes, como Raqqa e Mossul, exigirá uma mobilização de tropas muito maior. E, como mostram Sinjar e Kobani, o custo será alto: as duas cidades ficaram em ruínas. Além disso, por maior que seja o desafio diplomático e militar de mobilizar, motivar, coordenar e colocar em ação forças suficientes, a questão não se resume a isso. Há também o aspecto humanitário. Uma campanha militar desse tipo provavelmente resultará na fuga de um número ainda maior de refugiados, aos quais não restará, depois, muito para o que voltar.

As potências ocidentais e a Rússia não se mostram inclinadas a enviar tropas para a região. Sua disposição para, num momento seguinte, controlar um território arrasado e provavelmente hostil é ainda menor. As forças iraquianas estão sobrecarregadas e não inspiram confiança em muitos dos sunitas que elas libertariam. Muitos preferem viver sob o domínio do EI do que se submeter ao comando de milícias xiitas.

Além de sobrecarregadas e exauridas, as forças sírias devem lealdade a um regime responsável por crimes de guerra. Atores regionais importantes, como iranianos, turcos, curdos e sauditas cultivam uma série de objetivos conflitantes. E a eliminação do EI não é prioridade para nenhum deles. No entanto, certos avanços não dependem da presença de soldados nas ruas de Raqqa. Ações policiais mais eficientes podem ajudar - e já vêm produzindo resultados na Turquia, onde, nas últimas semanas, foram desbaratadas diversas células terroristas.

Melhorar o planejamento e a coordenação entre as forças que combatem o EI também seria proveitoso. É preciso construir confiança, lamentavelmente ausente no momento.

Ideias. Derrotar militarmente o pretenso califado acabaria com a aura de invencibilidade que é responsável por boa parte do poder de atração do grupo. Mas, enquanto existir o pântano pestilento em que ele aflorou, outros grupos - e o que é pior, sua própria ideologia - resistirão. Uma lista parcial dos ingredientes que alimentam esse atoleiro inclui o exagerado senso de vitimização prevalecente entre os sunitas, a doutrinação promovida por wahabistas xenófobos, a anomia e o anseio de heroísmo que lamentavelmente proliferam entre alguns grupos urbanos de jovens muçulmanos na Europa e em outras paragens e o ódio gerado por regimes brutais e opressores como o da Síria.

Essas águas pútridas inundam a faixa de países convulsionados ou cujo sistema político entrou em colapso que se estende da Argélia ao Paquistão. Sol quente e artilharia pesada não serão suficientes para fazer secar o lodaçal./TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Tudo o que sabemos sobre:
Visão Global

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.