AP Photo/Jalaluddin Sekandar
AP Photo/Jalaluddin Sekandar

Combatentes defendem última área não controlada pelo Taleban, sem chances de êxito

No momento os combatentes têm somente dois ativos: um vale estreito com uma história de afugentar invasores e o legado de um célebre comandante mujahedin

Carlotta Gall e Adam Nossiter, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 10h00

Os primeiros sinais de resistência armada contra o Taleban vieram de um estreito vale que tem uma história de afugentar invasores.

Dias depois de o Taleban chegar à Cabul e derrubar o governo numa ofensiva relâmpago, um grupo de antigos combatentes mujahedin e comandos afegãos se reuniram, iniciando uma guerra de resistência na última área do Afeganistão que não está sob controle do Taleban.

Quem os lidera é Ahmad Massoud, 32 anos, filho do célebre comandante mujahedin Ahmad Shah Massoud, seguindo os passos do pai 20 anos após sua morte e retomando sua luta tenaz contra o Taleban.

Mas a luta desse grupo tem poucas chances de sucesso. Por mais estratégico que seja o seu reduto, esse grupo de resistência está desconectado e cercado pelo Taleban, seus suprimentos em breve começarão a diminuir e não possuem nenhum apoio externo visível.

No momento ele tem somente dois ativos: o Vale de Panjshir, a cerca de 110 quilômetros de Cabul, que tem uma história de afugentar os invasores, e o lendário nome Massoud.

Porta-vozes de Ahmad Massoud insistem que o movimento já atraiu milhares de soldados para o vale, incluindo remanescentes das forças de operações especiais do Exército afegão e alguns experientes guerrilheiros da época do seu pai, como também ativistas e outros que rejeitam o Emirado Islâmico do Taleban.

Os porta-vozes, alguns dos quais estavam com ele no Vale Panjshir e alguns que estavam fora do país angariando apoio, acrescentaram que Massoud possui estoques de armas e material, incluindo helicópteros americanos, mas necessita mais.

“Estamos esperando alguma oportunidade, algum apoio”, afirmou Hamid Saifi, antigo coronel do Exército Nacional Afegão e agora um dos que comandam a resistência de Massoud, falando pelo telefone no domingo. “Talvez alguns países se disponham a entrar nessa grande luta. Até agora, todos os países com os quais falamos estão calados. América, Europa, China, Rússia, todos estão em silêncio”.

Ahmad Shah Massoud, o pai, construiu sua enorme reputação por sua resistência contra as repetidas ofensivas soviéticas nos anos 1980, usando sua astúcia e as altas montanhas da cordilheira de Hindu Kush para sobreviver. Ele armou emboscadas devastadoras contra comboios de suprimentos russos e ganhou o respeito de vários generais soviéticos entre seus oponentes.

Ele também encabeçou o ataque dos mujahedin contra Cabul que derrubou o governo comunista em 1992 e foi nomeado ministro da Defesa. Mas nunca desfrutou de um forte apoio de Washington ou do vizinho Paquistão, sujou suas mãos de sangue no devastador conflito civil em Cabul e se retirou para seu reduto no vale de Panjshir quando o Taleban chegou ao poder e se apoderou da capital em 1996.

Lutou contra o regime Taleban durante cinco anos, formando uma oposição unida contra um movimento que considerava totalitário e alheio às tradições afegãs com seu fundamentalismo dogmático, mesmo perdendo terreno.

E também alertou o Ocidente sobre a ameaça de terrorismo da Al-Qaeda. Sob sua liderança, o vale de Panjshir se tornou uma espécie de posto avançado para a inteligência ocidental, um enclave livre mantido pela minoria étnica Tajik, num país dominado pelo regime pashtun do Taleban e que foi sempre uma pedra no seu caminho.

Seu filho claramente pretende assumir o mesmo papel do pai, assassinado pela Al-Qaeda dois dias antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, como uma espécie de presente para o regime Taleban que abrigou o grupo terrorista.

Mas existem diferenças importantes entre aquela época e hoje. Seu pai tinha rotas de suprimento através da fronteira do Tajiquistão, permitindo que a resistência se abastecesse durante um longo período.

E desde então o Taleban aprendeu bem suas lições dos conflitos militares passados e fechou as fronteiras do Afeganistão, isolou o Vale de Panjshir antes de avançar para Cabul.

O jovem Massoud também tem pouca experiência militar, apesar de ter estudado no Royal Military College em Sandhurst na Inglaterra, e no King’s College, em Londres, formado em estudos de guerra, tendo retornado ao Afeganistão em 2016. Este fim de semana ele emitiu uma nota desafiadora.

“Enfrentamos a União Soviética e seremos capazes de confrontar o Taleban” afirmou ele para o canal de TV Al-Arabiya, de Dubai, no domingo. Seu pai resistiu a nove ofensivas soviéticas e ele insiste que está à altura do seu legado.

Ele partiu às pressas para o vale de Panjshir em 15 de agosto num helicóptero militar depois de o Taleban romper as defesas do governo na região oeste de Cabul e o presidente Ashraf Ghani fugir do país.

O vice-presidente Amrullah Saleh também fugiu para o vale na mesma ocasião, prometendo lutar ao lado do grupo contra o Taleban. Ele foi atacado duas vezes na estrada, mas conseguiu chegar ao vale, disse Mohammad Zahir Aghbar, que atua como embaixador do Afeganistão no Tajiquistão, em uma entrevista na semana passada.

É possível que Massoud e seus seguidores assumam uma posição dura para exercer influência em qualquer negociação sobre um novo governo.

“Preferimos a paz”, disse o chefe de gabinete de Massoud, numa mensagem via telefone. “Queremos negociar para conseguirmos a paz, mas não apenas a paz. Queremos um governo inclusivo que represente todos os diferentes grupos étnicos do país e garanta os direitos humanos, das mulheres e uma justiça social no Afeganistão”.

Mas o conflito já vem ocorrendo. Os apoiadores de Massoud anunciaram que suas forças atacaram um comboio do Taleban em Andarab, lado norte do túnel de Salang, causando muitas vítimas, derrubaram uma ponte e bloquearam uma estrada importante que liga a capital ao norte.

Autoridades do alto escalão do governo deposto se mostram hesitantes quanto às chances de sucesso do movimento. “Não acredito que a resistência vai durar muito tempo sem ajuda internacional”, disse uma delas. “Acho que o Taleban os esmagará nos próximos meses”, disse ele, falando anonimamente por causa da sensibilidade da questão.

Matin Bek, que foi membro da equipe de negociação do governo com o Taleban, sugeriu que alguns oponentes aguardam para ver como o Taleban vai governar, mas que a resistência pode inspirar uma união da oposição. “Se combaterem o Taleban, isso pode ser uma esperança para a nação inteira”, afirmou.

Mas no momento "não sabemos qual será o destino dessa resistência", disse Bek. “Eles resistirão, ou estarão dispostos a negociar? Não sei quem os está apoiando”.

O membro mais proeminente do governo a se refugiar no Vale de Panjshir é Saleh, que dirigiu o National Directorate of Security e foi um parceiro de Massoud pai. Na semana passada ele se proclamou o legítimo presidente do Afeganistão, rejeitando a tomada de poder do Taleban.

“O Taleban não mostrou nenhuma disposição para iniciar uma negociação substancial. Eles querem obediência, rendição, subordinação. Nossa oferta é muito simples. As pessoas têm de ter voz em qualquer decisão que irá determinar as características do Estado”. / Tradução de Terezinha Martino

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