Combates entre insurgentes e forças de Assad em Damasco se intensificam

Pelo segundo dia consecutivo, a capital síria foi palco de intensos combates entre insurgentes e forças do regime de Bashar Assad. No bairro de Midan, majoritariamente sunita, tanques tomaram posições estratégicas sob disparos de granadas propelidas por foguetes e outras armas pesadas. Do centro de Damasco, onde vive a elite do regime, era possível avistar pela primeira vez colunas de fumaça negra e escutar disparos quase ininterruptos.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h07

Em 16 meses de conflito, a capital síria passou quase imune aos combates que atingiram o restante do país. Damasco registrara apenas casos pontuais de violência, restritos aos bairros de periferia. Desde domingo, porém, o Exército Sírio Livre (ESL) conseguiu se infiltrar na capital e, em resposta, forças do regime Assad deslocaram colunas de blindados às regiões com presença de insurgentes.

Imagens postadas no YouTube por grupos opositores mostravam um duro combate de rua entre o que pareciam ser soldados regulares e forças rebeldes. Em uma das cenas, as tropas protegem-se atrás de sacos de areia contra intensos disparos.

"Antes, as forças de segurança eram enviadas (a Damasco) para suprimir protestos. Agora, temos soldados do Exército em combate", afirmou Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório Sírio de Direitos Humanos, grupo de oposição. "Nunca o confronto foi tão intenso."

Além de Midan, outros bairros da região sul da capital, como Tadhamon, Jobar e Kfar Sousa, também estavam "sob cerco" de forças de Assad, segundo uma testemunha citada pela rede BBC. "Há pouca gente nas ruas, algo totalmente diferente da normalidade. O sentimento entre as pessoas (de Damasco) é que chegou a nossa vez. Essa é a luta final, levando ao centro de controle do regime."

Não foram divulgadas cifras de mortos ou feridos nos combates dos últimos dois dias. Mas, segundo um insurgente ouvido pela agência France Presse, "há muitos mortos e feridos". Ele completou: "Precisamos de doação de sangue".

Um porta-voz do ESL garantiu que as forças de Assad perderam o controle sobre os bairros de Midan e Tadhamon e estão agora tentando reconquistá-los com uma ampla ofensiva. "O Exército está nos atacando de fora e os confrontos na periferia desses bairros continuam", afirmou Ahmed al-Khatib.

Em uma das imagens publicadas na internet pelos opositores, aparece um veículo utilitário em chamas - que, segundo os insurgentes, levava integrantes da milícia shabiha (fantasma, em árabe), leal a Assad. A autenticidade das imagens não pode ser confirmada porque o governo sírio impõe duras restrições ao trabalho de repórteres no país. O principal jornal do regime Assad, Al-Watan, noticiou que "grupos terroristas" estavam tentando lançar "a grande batalha" pela capital. A manchete do diário: "Vocês nunca terão Damasco".

Silêncio na ONU. Embora a situação na Síria esteja cada vez mais próxima de um estado de guerra civil, o Conselho de Segurança das Nações Unidas continua bloqueado pela oposição entre europeus e americanos, de um lado, e russos e chineses, de outro. Ontem, a Rússia voltou a indicar que vetará qualquer resolução elaborada sob o chamado "Capítulo 7" da Carta da ONU - que contempla o eventual uso da força.

Elaborado pela diplomacia britânica, um rascunho com um ultimato para Assad retirar armamento pesado de cidades vem circulando nos corredores das Nações Unidas. Mas Moscou deixou claro que não aceitará o texto, posição que também deve ser adotada por Pequim.

O chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou ontem que a pressão de potências ocidentais sobre Moscou tem "elementos de chantagem". Pouco antes de receber o enviado da ONU para a crise síria, Kofi Annan, o ministro do Kremlin disse a jornalistas que um endurecimento do Conselho de Segurança com Assad "não é a chave" para uma solução pacífica para a crise.

Na sexta-feira expira o mandato da missão de observadores da ONU na Síria e cresce a pressão sobre as potências para que cheguem a uma posição comum.

A principal agência de ajuda humanitária das Nações Unidas reclamou ontem que o governo Assad não está concedendo vistos a parte de seus funcionários. A ONU estima que cerca de 1,5 milhão de sírios passaram a depender diretamente de ajuda externa após 16 meses de confronto. Ao todo, pelo menos 15 mil pessoas teriam morrido em razão da violência. / REUTERS e AFP

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