Geoff Robins / AFP
Geoff Robins / AFP

'Comboio da Liberdade': indústria automobilística sente efeitos de bloqueios entre Canadá e EUA

Fechamento de pontes entre os dois países - principalmente a Ambassador Bridge, que liga Windsor, Ontário, e Detroit - impede fluxo de peças que precisam chegar a fábricas para serem montadas

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 16h49

Rob Wildeboer pode ter que decidir ainda nesta quinta-feira, 10, se o protesto dos caminhoneiros canadenses que está bloqueando uma ponte importante entre os Estados Unidos e o Canadá exigirá que ele dê licença a alguns de seus vários milhares de trabalhadores da fábrica.

Wildeboer, de 62 anos, é presidente da Martinrea International, que produz componentes para todas as montadoras globais. Ele disse na quarta-feira, 9, que os protestos estão a poucas horas de interromper algumas de suas linhas de produção. Os blocos de motor, transmissões, subchassis e linhas de freio da empresa podem ser encontrados em picapes da Ford, General Motors e Jeep.

Os bloqueios realizados por seguidores do "Comboio da Liberdade" que protestam contra as restrições para combater a covid-19 no país está apertando os parafusos da indústria automobilística na América do Norte, forçando montadoras internacionais a fechar fábricas ou reduzir a produção em ambos os lados da fronteira.

O ponto mais crítico até o momento é o bloqueio da Ambassador Bridge, que conecta Windsor, em Ontário, a Detroit. Fechada a quatro dias pelos manifestantes, a ponte é a passagem de fronteira mais movimentada entre EUA e Canadá, transportando 25% de todo o comércio entre os dois países. 

Apenas os caminhões envolvidos na operação de Wildeboer fazem 38 viagens pela ponte transportando produtos semiacabados entre as fábricas da empresa nos dois países. As remessas são apenas parte dos cerca de US$ 300 milhões (R$ 1.56 bilhão) em comércio diário que transita pelo local.

Além da Ambassador Bridge, outros bloqueios em vias que ligam o Canadá aos EUA também impedem o tráfego regular. Nesta quinta-feira, a Polícia de Manitoba informou que manifestantes estacionaram veículos e equipamentos agrícolas para trancar a estrada que conecta a província ao Estado americano da Dakota do Norte.

Para a indústria automobilística, as fronteiras entre os Estados Unidos, Canadá e México foram efetivamente apagadas há quase 30 anos por um acordo comercial norte-americano. A indústria se desenvolveu desde então em um balé industrial fortemente coreografado que depende de peças que chegam às fábricas a tempo de serem usadas.

"Fazemos uma parte [do veículo] na segunda-feira de manhã, que provavelmente está em um veículo na quarta-feira", disse Wildeboer.

O bloqueio parcial da Ponte Ambassador, agora em seu quarto dia, ameaça inviabilizar a transferência normal de uma fábrica para outra. Se o impasse durar o mesmo que o "Comboio da Liberdade" original, que congestionou as ruas de Ottawa por 11 dias, provavelmente ocorreriam demissões em fábricas em ambos os países.

A Ford já disse que parou de fabricar novos motores de caminhão em uma instalação em Windsor e reduziu a produção de sedãs Edge em sua fábrica de Oakville, nos arredores de Toronto. A Stellantis, antiga Fiat Chrysler, disse que todas as suas fábricas norte-americanas estavam funcionando na quinta-feira, mas a escassez por causa do bloqueio a forçou a reduzir os turnos em várias fábricas.

Do lado dos EUA, a GM cancelou um turno de trabalho na quarta-feira e o primeiro turno da quinta-feira em sua fábrica de SUVs nos arredores de Lansing, Michigan. A Toyota disse que não poderá fabricar nada em três fábricas canadenses pelo resto da semana por causa da escassez de peças. A Honda disse que sua fábrica de montagem em Alliston, Ontário, ao norte de Toronto, teve que suspender a produção em uma linha de montagem na quarta-feira, mas voltou a operar na quinta-feira.

Na ponte Ambassador, uma pista sobre o rio Detroit permaneceu aberta na quarta-feira, permitindo que o tráfego limitado chegasse aos Estados Unidos. Caminhões com destino ao Canadá estão sendo redirecionados para a Blue Water Bridge em Sarnia, Ontário, a cerca de 100 quilômetros de distância. Dado ao número de veículos e os atrasos resultantes em Sarnia, a rota mais longa está adicionando três horas à jornada habitual dos caminhões.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse que funcionários do governo estão trabalhando com seus colegas canadenses e executivos da indústria para aliviar os danos às empresas automobilísticas, às exportações agrícolas dos EUA e ao fluxo de trabalhadores entre os Estados Unidos e o Canadá. "Estamos muito focados nisso. O presidente está muito focado nisso", disse Psaki.

Inspiração para outro grupos antivacina ao redor do mundo, o "Comboio da Liberdade" já é observado por outros países, que tentam impedir que os efeitos dos protestos canadenses se repitam.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA disse em um boletim às agências policiais locais e estaduais que recebeu relatos de que os caminhoneiros estão planejando "potencialmente bloquear estradas nas principais cidades metropolitanas" em um protesto contra os mandatos de vacinas e outras questões, enquanto autoridades em Paris e na Bélgica proibiram bloqueios de estradas para evitar interrupções.

A Associação de Caminhoneiros de Ontário emitiu um comunicado desaprovando os protestos e insistindo que "a maioria dos manifestantes não tem conexão com a indústria de caminhões". Da mesma forma, reportagens da imprensa canadense sobre o bloqueio na Ambassador Bridge disseram que os caminhões são superados em número por picapes e sedãs, sugerindo que muitos manifestantes vêm de outros segmentos da sociedade./ W.POST, AP e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.