Começa inquérito judicial sobre morte de David Kelly

Com o início hoje do inquérito judicial sobre a morte do ex-inspetor de armas britânico David Kelly, o futuro do primeiro ministro Tony Blair e a reputação da emissora BBC estarão em jogo. David Kelly tornou-se o centro de uma crise política no país, ao ser identificado como a fonte de uma reportagem da BBC que afirmava que o governo havia exagerado num relatório sobre a capacidade das armas de destruição em massa do Iraque para convencer a opinião pública britânica a apoiar a ofensiva militar contra o regime de Saddam Hussein. Um intenso debate entre o governo e a BBC resultou na exposição pública do ex-inspetor, que no mês passado foi encontrado morto. Tudo leva a crer que ele teria cometido suicídio. O inquérito judicial, pedido pelo próprio primeiro-ministro, irá tentar investigar o que motivou a morte de Kelly. Segundo familiares e amigos do ex-inspetor, ele não conseguiu suportar a pressão da mídia e do governo.A primeira pessoa a ser ouvida por Lord Hutton, que preside o inquérito judicial, será um amigo e colega de Kelly, Terence Taylor. Outras testemunhas que serão ouvidas nesta semana são funcionários do Ministério da Defesa, do governo e profissionais da BBC, entre eles o repórter da polêmica reportagem, Andrew Gilligan.Para Tony Blair, o resultado desse inquérito judicial poderá determinar seu futuro político, inclusive a sua aspiração de buscar um terceiro mandato como primeiro-ministro através de novas eleições parlamentares. A oposição de boa parte da opinião pública à guerra no Iraque e a morte do doutor Kelly tiveram o efeito de derrubar o apoio popular ao primeiro-ministro trabalhista. O The Guardian, jornal que mais se alinha com os trabalhistas, disse em manchete hoje que o teste da confiança em Blair começa com o inquérito judicial. Segundo o diário, ministros do governo reconhecem que as chances de Blair recuperar a confiança do eleitorado britânico ocorrerão nos próximos dois meses e o julgamento será um instrumento fundamental para isso. O jornal observou que há um desânimo dentro do governo, com muitos ministros reconhecendo que a BBC ganhou a guerra de propaganda antes mesmo de o julgamento ser iniciado. Outro agravante para o primeiro-ministro foi o fato de seu porta-voz, Tom Kelly, ter sido obrigado a pedir desculpas públicas na semana passada, por ter qualificado o ex-inspetor de armas, quando ele ainda estava vivo, como um personagem de história fictícia. A oposição quer que o próprio primeiro-ministro peça desculpas em público.

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