REUTERS/Marcelo del Pozo
REUTERS/Marcelo del Pozo

Começa julgamento por corrupção de Cristina de Bourbon, irmã do rei Felipe VI da Espanha

Infanta Cristina é acusada de ser cúmplice de seu marido, Iñaki Urdangarin, no desvio de € 6 milhões; ela pode ser condenada a até 8 anos de prisão e ele a 19 anos e meio de reclusão

O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2016 | 10h23

MADRI - O julgamento de Cristina de Bourbon, irmã do rei Felipe VI e filha de Juan Carlos I, acusada em um dos maiores escândalos de corrupção da Espanha, começou na manhã desta segunda-feira, 11, em Palma de Maiorca. Numa sala com o retrato de seu irmão mais novo, Felipe VI, chefe de Estado desde a abdicação de seu pai em junho de 2014, a infanta presenciou junto a outros 17 acusados a abertura do "julgamento do ano", com a leitura das acusações.

Cristina chegou uma hora antes acompanhada de seu marido, Iñaki Urdangarin, principal acusado no caso. Os dois, com o rosto muito sério, entraram sem falar com as dezenas de jornalistas de todo o mundo que os esperavam na entrada do tribunal.

"Este é mais um caso de corrupção dos muitos que estamos vendo" nos últimos anos, disse Francisco Solana, um desempregado de 45 anos que protestava em frente à corte com uma bandeira republicana sobre os ombros. "Em outros lugares da Europa, acredito que a infanta Cristina já estaria na prisão", declarou, ilustrando a indignação de milhões de espanhóis.

A princesa Cristina enfrenta um pedido de oito anos de prisão, mas pode acabar escapando do julgamento se seus advogados conseguirem convencer os juízes do caso. A filha de Juan Carlos I é acusada de fraude fiscal relacionada ao desvio de € 6 milhões de dinheiro público por Urdangarin e um ex-sócio.

Ela sempre se defendeu, dizendo desconhecer os esquemas de corrupção e confiar plenamente em seu marido, de quem rejeitou se divorciar, apesar da pressão de uma Casa Real determinada a limitar os danos à monarquia.

O ex-sócio, Diego Torres, um dos principais acusados no mega processo por corrupção, afirmou no domingo que a Casa Real sabia dos negócios de Iñaki Urdangarin. "A Casa Real estava informada, sabia, o supervisionava e ocasionalmente até colaborava", afirmou Torres, em entrevista divulgada no domingo à noite pelo canal de televisão La Sexta.

Durante o processo, Urdangarin se esforçou para desvincular a princesa Cristina, o rei Juan Carlos e a Casa Real de todos os seus negócios.

Torres garante, porém, que pessoas vinculadas ao antigo monarca atuavam nas atividades do Instituto Nóos, entidade sem fins lucrativos que aparece no centro deste caso, e o indicaram, assim como Urdangarin, como gestores.

"Tenho 300 e-mails relacionados à Casa Real. Alguns são do rei, efetivamente, outros são de outras pessoas", disse, dando a entender que poderia divulgar informações comprometedoras durante o julgamento.

Brigado com Urdangarin por causa do escândalo, Torres assegurou que não fala com o ex-sócio há oito anos, apenas com o seu advogado. "Pediu-me que assumisse a maior parcela de responsabilidade em troca de dinheiro e de um cargo de trabalho", contou.

Acusando os dois por prevaricação, desvio de dinheiro, fraude, delito fiscal, falsificação e lavagem de dinheiro, entre outros crimes, a promotoria pede 19 anos e meio de prisão para Urdangarin e de 16 anos e meio de detenção para Torres.

A popularidade da família real espanhola tem se recuperado desde que o ex-rei Juan Carlos abdicou em 2014 em favor de seu filho Felipe, de 47 anos, e de sua esposa, uma ex-jornalista de TV. O novo rei encabeça com frequência as listas de figuras públicas mais populares do país.

Felipe foi proclamado rei em uma cerimônia discreta em 2014, e desde então tem trabalhado para modernizar a monarquia, reduzindo a quantidade de membros formais da família real e retirando funções de suas duas irmãs. Em junho, ele retirou o título de duquesa de Palma que pertencia a Cristina. / AFP, EFE, AP e REUTERS

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