Gianluca Chininea/AFP
Gianluca Chininea/AFP

Itália inicia julgamento de 350 mafiosos, o maior em 30 anos

Nas audiências da ‘Ndrangheta, especializada no tráfico de drogas, serão ouvidos 400 advogados e 900 testemunhas

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 07h00

O maior julgamento da máfia italiana em mais de 30 anos começou ontem na região sul da Calábria. Estarão no banco dos réus 350 integrantes da temida ‘Ndrangheta, quadrilha especializada no tráfico de cocaína. O julgamento ocorrerá em um luxuoso tribunal de mais de 3 mil m² em uma das regiões mais pobres da Itália. O prédio foi especialmente preparado para as audiências, que terão entre os réus figuras-chave da organização criminosa. 

“Hoje é um dia muito importante, porque vamos processar a ‘Ndrangheta, uma máfia que deixou de ser um grupo de pessoas que sequestravam para se tornar uma holding do crime”, explicou o juiz do caso, Nicola Gratteri. 

Na sala de audiências, serão ouvidas 900 testemunhas e 400 advogados. Pelo menos 58 testemunhas de acusação concordaram em quebrar a chamada “omertà” – o código de honra dos mafiosos – para revelar os segredos do poderoso clã Mancuso e seus associados.

Uma lista variada de delitos que remontam à década de 90 será julgada, incluindo assassinatos, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro e abuso de poder. Empresários também estão na lista dos que serão julgados por crimes de colarinho branco. 

Segundo Gratteri, que começou suas investigações 4 anos atrás, o julgamento “é a pedra angular na construção de um muro contra as máfias na Itália”. Gratteri, de 62 anos, disse se inspirar nos dois lendários magistrados antimáfia, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, assassinados por ordem da máfia e famosos por presidir o primeiro grande julgamento contra mafiosos da Sicília, na década de 80.

Nesse julgamento, que deverá durar mais de dois anos, os principais intermediários do tráfico de cocaína entre a Europa e a América Latina vão se sentar no banco dos réus. A ‘Ndrangheta, que ficou rica e se expandiu graças ao comércio de entorpecentes, se infiltrou no mundo corporativo, fundando empresas de fachada e usando laranjas para lavar seus lucros ilegais na economia legal.

De acordo com estimativas das autoridades antimáfia, a ‘Ndrangheta na Calábria é composta por cerca de 150 famílias ou clãs, que têm 6 mil membros e afiliados, sem contar seus parceiros e aliados pelo mundo.

O crime organizado movimenta mais de € 50 bilhões (cerca de R$ 322 bilhões) por ano, segundo Gratteri, que a considera a facção mais rica do mundo. No julgamento, serão reveladas conexões dos mafiosos com política, maçonaria, empresários, advogados, funcionários públicos e policiais corruptos, tendo como alvo a família Mancuso, o sanguinário clã da província de Vibo Valentia.

“Os aparatos do Estado estavam literalmente à disposição do clã”, disse Gratteri após a onda de prisões ordenadas em dezembro de 2019 na Itália e na Europa e que levou ao julgamento.

Para o criminólogo Federico Varese, da Universidade de Oxford, a ‘Ndrangheta está envolvida em todas as atividades legais e ilegais. “Se você quer abrir uma loja, se quer construir algo, tem de passar por eles. Porque eles são a autoridade”, disse o promotor antimáfia, autor de vários livros sobre o assunto juntamente com o escritor Antonio Nicaso.

Cadáveres na estrada

Para Nicola Gratteri, promotor do julgamento mais importante contra a máfia calabresa, a guerra contra a organização criminosa é um assunto pessoal desde sua infância.

"Conheço a máfia desde minha infância, porque pegava carona para ir à escola e muitas vezes via cadáveres na estrada",  disse à Agência France-Presse poucas horas antes da abertura do processo histórico.

"Então disse a mim mesmo: quando for mais velho, farei algo para que isso não volte a acontecer", contou o magistrado, que vive ameaçado e sob escolta há três décadas. 

O promotor cresceu em Calábria, a região pobre do sul da península e berço da organização que se ramificou em todo o mundo,  superando a Cosa Nostra siciliana, para tornar-se uma das estruturas criminosas mais poderosas do velho continente.

"Conheço bem a 'Ndrangheta, de dentro, porque quando era menino, ia para a escola com os filhos dos chefes da máfia", lembra Gratteri. 

"Os meninos com quem brincava na época se tornaram mafiosos e depois narcotraficantes. Por isso, conheço a filosofia criminosa, a forma de pensar dos membros da 'Ndrangheta, e isso me ajuda no meu trabalho", disse.

Autor de diversos livros sobre o assunto, entre eles Irmãos de Sangue (2006) e A Rede dos Invisíveis (2019), Gratteri viajou inúmeras vezes para a América Latina, especialmente para escrever Ouro Branco (2015), sobre o tráfico de cocaína. / AFP

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