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Começa o Merkel 4

Quarto governo da chanceler alemã começa com atraso, sem esconder divergências, coalizão é composta por conservadores e socialistas

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 05h00

Merkel 3 acabou. Começa o Merkel 4, com muito atraso. Quando Angela Merkel estava por cima, era brincadeira de criança montar uma equipe para governar por quatro anos. Mas os tempos são outros e a viagem promete ser agitada. Muitos se perguntam se esse time, meio devagar, vai conseguir chegar ao fim do mandato.

É o resultado do desempenho medíocre de Merkel nas últimas eleições. Finalmente, após meses de conversações, o SPD (socialistas) concordou em formar um governo com a CDU (conservadores), sem esconder divergências tão fortes que a chanceler se verá constantemente ameaçada de ser descartada.

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Esse enfraquecimento de Merkel pôde ser sentido na composição do novo governo. Um exemplo: para o Ministério da Saúde, ela nomeou Jens Spahan, que é da CDU, mas detesta a chanceler. Spahan não gosta da tolerância de Merkel com os imigrantes. Homossexual, ele associa a homofobia ao Islã. E por que Merkel o nomeou? Porque outrora, quando tinha um inimigo, ela o levava para o governo e o engolia.

Não surpreende, portanto, que “Merkel 4” não tenha a simpatia incondicional dos alemães. “Merkel chefia uma coalizão de derrotados”, disse o cientista político Marcel Dirsus, da Universidade de Kiel. Fazendo um balanço dos 12 anos de Merkel, ele conclui: “Foram um misto de tédio profundo e de apostas audaciosas nascidas de impulsos como o abandono da energia nuclear e a admissão de refugiados. Ela pode ser uma excelente administradora, mas não é uma visionária.” O novo ministro das Finanças, Olaf Scholz (SPD), avaliou que “a grande coalizão não começa como um casamento nascido do amor”.

Mas há na Europa um dirigente que está muito satisfeito com o novo governo de Merkel: o presidente francês, Emmanuel Macron. Fazia seis meses que ele ardia de impaciência. Havia decidido ser o novo homem forte da União Europeia. Mas, como tal, precisava de um “vice” também sólido – como a líder da Alemanha, país mais poderoso da Europa. 

Para tocar os projetos ciclópicos que tem para a UE, Macron vai precisar de um “braço direito”. Merkel talvez seja um braço meio trêmulo, mas o tempo urge e Macron não pode esperar. A UE se deteriora em mãos de governos que pendem para todos os lados, principalmente para o populismo, a anti-Europa e o ódio ao estrangeiro.

Macron talvez seja o último grande europeu e a última chance da UE. Por isso, não pode esperar. A UE está tão doente que o caminho de Macron será acidentado. Assim, sem ter mais ninguém em quem se agarrar, fará parceria com Merkel, mesmo estando ela enfraquecida. Nada mais natural que ela faça sua primeira visita pós-reeleição a Paris – antes da reunião do Conselho Europeu, nos dias 22 e 23, em Bruxelas.

É preciso dizer que Macron começou suas grandes manobras europeias antes da formação da coalizão alemã. São projetos que ele já havia exposto à França durante a campanha eleitoral, um ano atrás. Como ficam hoje? Criar um Parlamento para a zona do euro? É uma ideia divertida! Entronizar um superministro para toda a Europa? Ulalá! E o projeto macroniano de um orçamento comum para a zona do euro?

Ocorre que as capitais europeias têm problemas mais urgentes para resolver. No momento, elas se descabelam para descobrir como compensar os € 14 bilhões que perderão com a saída dos britânicos da UE. Em suma, Macron não apresenta grande coisa. Mesmo a chanceler Merkel está cautelosa. “É preciso entender que vivemos um momento histórico”, disse ela. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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