Começam a esfriar relações entre EUA e Europa

Foi-se o encanto da "lua de mel" que embalava o relacionamento entre Estados Unidos e Europa desde os atentados de 11 de setembro. Em discurso proferido em 29 de janeiro, Bush investiu contra o "eixo do mal", desagradando a muitos. Ontem, foi o ministro das Relações Exteriores da Espanha, Josep Piqué, quem procurou um certo afastamento em nome da União Européia. Agora, é o ministro francês das Relações Exteriores, Hubert Védrine, quem "coloca as garras de fora". Védrine, porém, nada tem de exaltado; de ideólogo, menos ainda. São raros seus acessos de cólera. Poucas vezes na vida franziu o cenho. Hoje, contudo, recorre com freqüência a frases secas.Ele explica a uma estação de rádio (France-Inter) que, ao contrário do que se pensa comumente, a tragédia de 11 de setembro, longe de ter curado os EUA de seu modo "simplista" de ver a vida, acabou fortalecendo ainda mais sua visão ingênua das coisas. Os EUA, assinalou Védrine, praticam um "unilateralismo utilitário". Entenda-se por "unilateralismo" a tomada de decisões sem consulta a outros, baseada exclusivamente em interesses próprios. "Utilitário", por sua vez, é uma clara referência à recusa dos EUA em se comprometer com qualquer acordo internacional ou negociação multilateral que possa afetar sua autonomia de decisão, sua soberania e liberdade de ação.E Védrine prossegue: "Estamos hoje ameaçados por um novo simplismo que reduz todos os problemas do mundo exclusivamente à luta contra o terrorismo. Não é algo que se possa ser levado a sério."Bush e Colin Powell devem estar com as orelhas ardendo. O chefe do Departamento de Estado americano retorquiu. Que argumento usou? Sem citar Védrine, ele culpa os "círculos intelectuais" que "desaprovam o unilateralismo americano".Círculos intelectuais? Esperava-se mais de um homem inteligente como Powell. Essa estratégia de "desonrar" os adversários agrupando-os sob um mesmo manto, por assim dizer, "infame", de "intelectuais", está um tanto ultrapassado e kitsch para 2002. Ninguém acredita que tamanha bobagem tenha saído da boca de um homem notável como Colin Powell.É compreensível que Powell se sinta irado, já que Védrine empregou diversos termos que lembram muito as expressões com que De Gaulle descrevia os americanos numa época em que França e EUA não se entendiam.Indagado a respeito do orçamento da Defesa americana, Védrine respondeu: "Ninguém pode impedir os americanos de aumentarem de modo fabuloso o orçamento da Defesa. Os republicanos o fizeram por diversas vezes. Há interesses muito grandes envolvidos. Inúmeras empresas, investidores e centros de pesquisas se interessam por esse impulso tão keynesiano, mas pode-se também dizer que se trata de uma forma de lutar contra a recessão."É preciso reconhecer que Védrine mirou bem quando resolveu atirar. Ao atribuir o crescimento das despesas militares americanas à aplicação das fórmulas de Keynes, o ministro francês invocou um economista cujas teorias são execradas pelos defensores do liberalismo, cujo apoio é tão importante para os republicanos.Bush encerrou o debate: "Muitos se cansarão de nossos esforços para combater a tirania. Não será o meu caso, nem o do meu governo, e tampouco o do nosso país."

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