Começam articulações para governo provisório afegão

A expectativa da chegada esta semana a Cabul do líder da Aliança do Norte, Burhanuddin Rabbani, reconhecido pelas Nações Unidas como o presidente do Afeganistão durante o regime do Taleban, não reduziu a ansiedade que o vácuo de poder na capital provoca na administração americana. A preocupação aumentou, hoje, diante dos sinais de que as diferentes facções da Aliança do Norte que entraram em Cabul na terça-feira, depois de seus comandantes terem se comprometido a não ocupar a capital, estavam se reagrupando em diferentes pontos da cidade de acordo com sua etnia. Essas divisões precipitaram a guerra civil que matou mais de 50.000 habitantes de Cabul depois da retirada das tropas de ocupação soviética, em 1992, e abriu o caminho para a chegada do Taleban ao poder, em 1996. Funcionários americanos disseram que quanto mais durar o vazio de poder em Cabul, maiores são as chances de um dos grupos da Aliança tentar impor-se e reiniciar o ciclo da violência. A continuação de cenas de saques e de roubos três dias depois de o Taleban ter abandonado a cidade enfureceu um dos comandantes militares da Aliança do Norte em Cabul, general Mohammas Fahim, que é desde terça-feira o poder de fato na capital afegã. Segundo repórteres que estão na capital, um dos problemas de Fahim é que, passada a euforia da tomada da cidade, a Aliança do Norte não parece saber qual será seu próximo passo. Sob ordens do secretário de Estado, Colin Powell, para "acelerar" os esforços para a formação de uma administração provisória no Afeganistão, o enviado especial dos Estados Unidos ao Afeganistão, embaixador James Dobbins, iniciou hoje em Islamabad reuniões com líderes dos diferentes grupos da oposição ao Taleban para discutir a montagem de um governo multiétnico capaz de assumir a administração das cidades sob controle dos soldados da Aliança do Norte. Eles pertencem às minorias tajique usbeque e hezara, predominantes no norte, a parte menos habitada do Afeganistão. Os hezaras, que se concentram junto à fronteira com o Irã, são muçulmanos xiitas, como a maioria dos iranianos. Os pashtuns são a maioria no Afeganistão e no Taleban. Esta semana, Dobbins reuniu-se com o ex-rei do Afeganistão, Mohammed Zahir Shah, em Roma. O ex-monarca, que foi deposto nos anos 90 num golpe insuflado por Moscou, é considerado por Washington como um líder potencial de um governo de transição. Ontem, o enviado especial americano teve várias conversas com representantes do governo do Paquistão. Hoje, os EUA anunciaram uma doação de US$ 600 milhões ao Paquistão - uma parte do pagamento pelo apoio que o país deu à guerra do presidente George W. Bush contra o terrorismo. As negociações sobre o governo provisório podem ganhar maior velocidade a partir de sábado, com a chegada a Cabul do vice-embaixador da ONU para o Afeganistão, o espanhol Francesc Vendrell. A missão de Vendrell é iniciar a montagem de uma administração baseada no mandato que o Conselho de Segurança aprovou ontem. Este prevê um governo multiétnico por dois anos, que operaria sob a proteção de um número não determinado de capacetes azuis, e o retorno dos grupos armados da Aliança do Norte às suas respectivas regiões. Turquia, Bangladesh, Jordânia, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Inglaterra e França já se prontificaram a participar da força internacional. A Indonésia, maior nação muçulmana do mundo, anunciou hoje que também está disposta a contribuir com soldados. Num outro desdobramento significativo, os chanceleres do Irã, Abdolvahed Mousavi-Lari, e do Paquistão, Moinuddin Haider, manifestaram seu apoio ao plano da ONU e anunciaram que seus governos esquecerão as diferenças do passado e trabalharão pela estabilidade do Afeganistão. Até três meses atrás, o Paquistão apoiava o Taleban e o Irã, a Aliança do Norte. Na noite de terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Aliança do Norte, Abdullah Abdullah, adiantou-se aos esforços americanos. Já em Cabul, fez, durante uma entrevista coletiva no melhor hotel da cidade, um vago convite a todos os grupos étnicos do Afeganistão a enviar representantes a Cabul para dar início às conversações sobre um esquema de partilha do poder. Um assessor de Abdullah, Haji Qahar, disse que a administração provisória prepararia eleições dentro de três ou quatro meses. Até lá, Cabul viveria sob um "estado policial", afirmou o assessor. Declarações como essa aumentaram a ansiedade em Washington sobre o futuro imediato do Afeganistão. "Francamente, mesmo se eu tivesse um acordo com a Aliança do Norte, eu não estaria plenamente seguro de que as pessoas com quem negociei seriam capazes de controlar todo mundo", disse um diplomata americano ao The Washington Post. Leia o especial

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