Começo acelerado na Argentina

Por ora, os argentinos parecem acreditar nas palavras de Macri, mas se a crise econômica se prolongar, a lua de mel vai acabar mais cedo

The Economist

03 Janeiro 2016 | 03h00

Empossado presidente da Argentina em 10 de dezembro, Mauricio Macri não perdeu tempo em reverter as políticas populistas de sua antecessora. No quarto dia de governo, aboliu as tarifas de exportação que incidiam sobre produtos como trigo, carne e milho, além de reduzir a taxação sobre a soja, principal item nas vendas externas do país. 

Dois dias depois, o novo ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, revogou as medidas de controle cambial, permitindo que o peso passasse a flutuar livremente. Em seguida, uma equipe do novo governo se reuniu com o mediador indicado pela Justiça dos EUA, que busca uma solução negociada para o litígio com os chamados “fundos abutres” (investidores estrangeiros que não aceitaram os termos da reestruturação da dívida argentina), numa tentativa de reabrir as portas do mercado internacional de crédito para o país.

Essa série de ações é um primeiro passo no sentido da normalização de uma economia em que abundam as distorções resultantes das políticas intervencionistas implementadas pela ex-presidente Cristina Kirchner e por seu antecessor e marido, Néstor Kirchner, morto em 2010. Tais ações têm um custo imediato, que Macri tentará jogar no colo dos Kirchner. Outras iniciativas adotadas pelo novo presidente em suas primeiras semanas de governo têm causado mais controvérsias.

As reformas econômicas parecem estar dando resultado. Agricultores que haviam estocado suas colheitas, na esperança de que os impostos de exportação fossem eliminados, voltaram a vender grãos para o exterior, reabastecendo as reservas internacionais, dilapidadas na defesa de um peso artificialmente valorizado. 

Com a liberalização do câmbio, a moeda argentina sofreu queda superior a 30%, até a cotação do dólar se estabilizar em torno de 13 pesos — mais um estímulo aos exportadores. No começo de janeiro, serão iniciadas negociações “substanciosas” com os detentores de títulos argentinos, coisa que pode resultar no retorno do país ao mercado de crédito ainda em 2016.

Ocorre que a desvalorização cambial impactou a taxa de inflação, que já passava dos 25% quando Macri assumiu. A fim de conter a alta dos preços, o Banco Central argentino aumentou em oito pontos porcentuais os juros dos depósitos de curto prazo, que agora chegam a 38%. O governo espera convencer empresários e sindicalistas a manter um controle rígido sobre preços e salários.

 

Não será fácil: os sindicatos argentinos são fragmentados e não têm muito interesse em cooperar com Macri. E a ideia de manter os preços baixos tampouco deve encontrar receptividade entre os empresários. O banco Barclays projeta contração de 1,1% do PIB argentino em 2016. No entanto, o aumento nos investimentos estrangeiros deve fazer a economia crescer 3,5% em 2017.

Capital político. Por outro lado, ao tentar pôr gente nova em instituições dominadas por kirchneristas, Macri enfrentou resistências, tanto de adversários, como de aliados. Em 14 de dezembro, com o Senado em recesso, o novo presidente indicou por decreto, em caráter temporário, dois novos juízes para a Corte Suprema de Justiça da Argentina. Em seguida, exonerou Martín Sabbatella, chefe da agência reguladora dos meios de comunicação do país (que, uma semana depois, foi extinta por decreto).

Em ambos os casos, os motivos eram justificáveis. Macri quer que a Justiça do país seja composta por juristas independentes. E Sabbatella havia tido sérios conflitos com o Grupo Clarín, maior conglomerado de mídia do país. Sua saída, na opinião de Macri, deve fortalecer a liberdade de imprensa. Os críticos, porém, dizem que o presidente abusou de sua autoridade. No caso das indicações para a Corte Suprema, pelo menos, Macri voltou atrás e resolveu aguardar a aprovação do Senado.

Em visita à região norte da Argentina, onde inundações deixaram 20 mil desabrigados, Macri responsabilizou sua antecessora, acusando-a de não investir em programas contra enchentes. Por ora, é provável que os argentinos acreditem nas palavras de seu novo presidente. Mas, se a crise econômica se prolongar, a lua de mel vai acabar mais cedo. 

TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM  

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