EFE/Alejandro Ernesto
EFE/Alejandro Ernesto

Começo do funeral de Fidel mistura fãs de ditador e caravanas estatais

Muldidão forma fila na Praça da Revolução para se despedir do líder que governou Cuba por 49 anos; ao lado de apoiadores espontâneos do regime, aparecem comitivas de funcionários condicionados a obedecer luto oficial

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2016 | 05h00

Centenas de milhares de cubanos passaram nesta segunda-feira pela Praça da Revolução, em Havana, para prestar sua última homenagem a Fidel Castro, o líder que moldou a identidade de Cuba por cinco décadas e morreu na noite de sexta-feira aos 90 anos. Não havia choro ou comoção na multidão que aguardou durante horas a oportunidade de passar diante de uma foto de 1959, na qual o comandante aparece com uniforme verde oliva, boné e uma mochila nas costas, logo depois da vitória contra Fulgencio Batista.

Abaixo da foto, havia coroas de flores e medalhas e objetos pessoais de Fidel. Muitos cubanos foram ao local de maneira espontânea e por iniciativa própria, mas grande parte deles chegou em caravanas organizadas pelas inúmeras estatais, organizações ligadas ao Estado e universidades, que também são oficiais. O clima era um misto de encontros de amigos, celebração de Fidel e despedida.

Era comum o uso de superlativos para definir o revolucionário. “O mais universal de todos os cubanos e o chefe de Estado mais querido em todo o mundo”, disse Leonel Limanta, de 62 anos, maestro do grupo de salsa Azucar Negro. Limanta foi à praça com 14 integrantes de sua banda. Nos arredores da praça, havia um local designado para o encontro de músicos que passariam diante da foto de Fidel. O corpo do líder cubano foi cremado no fim de semana e as cinzas serão levadas amanhã para Santiago de Cuba, a cidade onde ele declarou a vitória da Revolução em 1.º de janeiro de 1959. O trajeto será inverso ao que Fidel percorreu na época em direção a Havana.

Em vários locais da capital e em outras cidades do país, Comitês de Defesa da Revolução e empresas estatais criaram livros de condolências a serem assinados pela população. Ao fazer isso, eles se comprometiam simbolicamente com os princípios revolucionários de Fidel. Apesar do luto oficial de nove dias, ontem não foi feriado em Havana.

Lumey Sutie Souza, de 36 anos, foi à praça com outros funcionários da Emprestur, estatal ligada ao Ministério do Turismo. Como vários dos empregados públicos, ela foi levada ao local em um ônibus fornecido pela companhia.

Funcionária do Ministério da Cultura, a cantora Leonor Zayas Rodriguez, de 58 anos, foi ao funeral de maneira independente, acompanhada do colega Adrian Reyes, de 73. Negra, Rodriguez disse que Fidel foi fundamental para a geração de seus pais. “Meus pais foram alfabetizados graças a ele, que também promoveu a independência das mulheres, o que mudou a vida da minha mãe.” Para Reyes, os cubanos devem olhar Fidel como um líder que continuará vivo, não como um ser humano que morreu.

A Universidade de Havana organizou uma caravana com dezenas de ônibus para levar seus estudantes para a Praça da Revolução. Milhares deles caminharam em uma passeata em direção ao local gritando palavras de ordem como “o povo sente, Fidel está presente”. À frente, dezenas de estudantes carregavam uma enorme bandeira de Cuba.

“Nós viemos homenagear nosso comandante e o triunfo da Revolução”, disse a estudante de Letras Gisselle Recunrrell, de 19 anos. “Nós perdemos um pai”, afirmou Daniel Llanes, de 20 anos, estudante de Matemática.

Muitos dos universitários tinham o nome de Fidel pintado no rosto e levavam na roupa símbolos da revolução cubana, entre os quais imagens de 'Che' Guevara. O clima entre eles era um misto de protesto político, celebração e cumprimento de um ritual organizado. As referências que faziam a Fidel ecoavam o discurso oficial que apresenta o líder cubano como o arquiteto da Cuba revolucionária e o responsável por levar saúde e educação gratuitas ao país.

“Fidel mudou a dinâmica da população cubana”, disse o estudante de biologia Jhonni Quintana, de 20 anos, que usava óculos escuros e levava o nome de Fidel na testa. A seu lado, a colega Rosa Ibañez, de 19 anos, exagerou o impacto do líder: “Graças a ele estamos estudando e não temos nenhuma preocupação”.

Mas Quintana e Ibañez hesitaram quando a reportagem perguntou o que pretendiam fazer depois que concluírem a universidade. No fim, a resposta também teve um caráter oficial: “Gostaria de trabalhar em um dos institutos de pesquisa do país”. A perspectiva de ser funcionário público está longe de ser promissora em Cuba, onde o salário médio pago pelo Estado é de US$ 20.

A faxineira Elba Fernández Noris, de 54 anos, foi sozinha prestar homenagem ao líder revolucionário. “Sou fidelista. Tudo o que tenho devo ao comandante”, afirmou. Noris mencionou o exemplo de seu marido para justificar sua gratidão: “Ele faz hemodiálise três vezes por semana e não pagamos nada por isso”.

 

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