Evan Vucci/AP
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Comentários de Trump sobre QAnon agrada defensores: 'Maior discurso que eu já vi'

A recusa do presidente em repudiar a teoria da conspiração animou os membros da comunidade de extrema direita, que considerou as falas como um endosso ao movimento.

Craig Timberg, The Washington Post

16 de outubro de 2020 | 16h02

A recusa do presidente Trump em repudiar a teoria da conspiração infundada QAnon no evento transmitido pela televisão nacionalmente na noite de quinta-feira 15 animou os membros da comunidade de extrema direita, que considerou seus comentários como um endosso ao movimento.

“Este foi o maior discurso para o QAnon que eu já vi”, disse um membro anônimo da comunidade, no site de mídia social 4chan, após a aparição de Trump no evento do horário nobre da NBC.

Mas a resposta de Trump a uma pergunta da moderadora da NBC, Savannah Guthrie, ofereceu uma chance de validação da figura central da cosmologia QAnon, que retrata o presidente como um salvador travando uma guerra secreta contra uma conspiração de pedófilos satânicos, supostamente incluindo democratas proeminentes e celebridades de Hollywood.

Quando Guthrie pediu ao presidente que rejeitasse a teoria da conspiração como “completamente falsa”, Trump respondeu: “Não sei nada sobre isso. Eu sei que eles são totalmente contra a pedofilia. Eles lutam muito, mas eu não sei nada sobre isso.” Um apoiador do QAnon em 8kun, site similar ao 4chan, aprovou: “Achei que ele tinha a resposta perfeita.”

Outros usuários de 8kun disseram sobre a resposta de Trump: "magistralmente feita por POTUS" - usando a sigla para Presidente dos Estados Unidos.

Os comentários de Trump - e a reação causada por eles - ecoaram seu apelo aos Proud Boys, outro grupo de extrema direita, para "recuar e aguardar" no debate presidencial do mês passado.

A linha, da qual Trump mais tarde procurou se distanciar, gerou celebrações nas redes sociais de apoiadores do grupo de homens que frequentemente se envolve em violência nas ruas.

QAnon, nascido em outubro de 2017, cresceu drasticamente nos últimos meses, impulsionado por conspirações relacionadas a vacinas e a pandemia de coronavírus, bem como chamando a atenção para a reeleição de Trump. 

A eleição tem se tornado cada vez mais o ponto focal do movimento, que viu sua popularidade disparar no aplicativo de mensagens criptografadas Telegram e no Facebook, de acordo com uma pesquisa do SITE Intelligence Group, que monitora o extremismo.

“Está além das palavras o quanto Donald Trump elevou a ameaça doméstica que é a QAnon”, disse Rita Katz, diretora executiva do SITE. “Nunca estive mais preocupada com a democracia nos EUA do que agora, e é perturbador o quanto desse medo vem do próprio presidente.”

Embora o Facebook tenha anunciado restrições ao QAnon em agosto, a pesquisa do SITE documentou um forte crescimento tanto no número de grupos dedicados à teoria da conspiração no Facebook quanto no número de membros desses grupos.

O Facebook endureceu suas restrições em 6 de outubro, impondo uma proibição quase total que deve tornar muito mais difícil para o QAnon se organizar e recrutar no site.

A resposta de QAnon aos comentários de Trump também pode ser encontrada no Instagram, a subsidiária de compartilhamento de fotos do Facebook, após o evento da NBC. 

Um meme amplamente divulgado, acompanhado por hashtags afiliadas à teoria da conspiração, mostrou uma imagem de Guthrie alterada para parecer demoníaca, com olhos vermelhos, com a frase "bruxa satânica praticante".

A Coalition for a Safer Web, um grupo sem fins lucrativos que defende tecnologias e políticas para remover conteúdo extremista da mídia social, descobriu que e outras postagens de mídia social da QAnon celebrando os comentários de Trump. "Eles adoram”, disse o presidente da coalizão, o ex-embaixador dos EUA no Marrocos Marc Ginsberg. “Está ricocheteando em todo o lugar.”

Grande parte da celebração dos comentários de Trump pela QAnon foi nos canais do Telegram com sede na Alemanha, um dos vários países onde a teoria da conspiração, nascida nos Estados Unidos, tem cada vez mais se enraizado.

 

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