Markus Schreiber / AP
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Comer ostras no Ocidente, ir aos EUA e ver Bruce Springsteen: sonhos de Merkel na Alemanha dividida

No início da noite de 9 de novembro de 1989, ninguém acreditava que o Muro de Berlim realmente iria cair; a hoje chanceler prometeu à mãe que se isso acontecesse, levaria ela para provar a iguaria em Kempinski

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 08h43

BERLIM - Na noite da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, Angela Merkel, a atual chanceler da Alemanha, estava em uma sauna em Berlim Oriental e sonhava em comer ostras no Ocidente.

Chefe de governo há 14 anos, ela desfrutava, na ocasião, de uma das atividades prediletas dos alemães no inverno. "Nas quintas-feiras, sempre ia à sauna com uma amiga", contou há alguns anos.

Na época, Merkel - que nasceu em Hamburgo, mas cresceu na Alemanha Oriental - era física na Academia de Ciências de Berlim Oriental. Com 35 anos e divorciada de seu primeiro marido, Ulrich Merkel, ela morava em um apartamento de dois quartos no bairro de Prenzlauer Berg.

Antes de comparecer à sauna naquela noite, ela ligou para a mãe, que morava a 80 km de Berlim. Merkel havia acabado de ouvir que os alemães do leste estavam livres para viajar. 

Ostras em Kempinski

O Muro de Berlim estava começando a cair, mas nas primeiras horas, ainda muito confusas, ninguém acreditava que isso iria mesmo acontecer. "Realmente não compreendi o que estava acontecendo", admitiu a líder conservadora.

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Uma brincadeira começou a circular entre a família. Se o Muro caísse um dia, Merkel levaria a mãe para comer ostras no Kempinski, um hotel luxuoso de Berlim Ocidental. 

Por telefone, ela advertiu a mãe: "Mamãe, tenha cuidado, hoje está acontecendo alguma coisa". Depois de desligar, seguiu para a sauna.

E enquanto Merkel aproveitava o banho a vapor, a história acontecia. O primeiro ponto de passagem entre a parte leste e oeste do país, próximo ao apartamento da futura chanceler, foi aberto. 

As pessoas abriam garrafas de bebida para celebrar o fim de um mundo que estava dividido desde o final da 2.ª Guerra.

‘De repente estávamos do lado ocidental’

Ao voltar para casa, Merkel observou as pessoas caminhando em direção ao ponto de passagem. "Nunca vou esquecer. Deviam ser 22h30, 23h00, talvez um pouco mais tarde", disse ela. "Estava sozinha, mas segui a multidão (...) e de repente estávamos do lado ocidental de Berlim.” 

A então anônima Angela Merkel bebeu sua primeira lata de cerveja da Alemanha Ocidental em um apartamento no qual não conhecia os moradores. Mas naquela noite histórica, ela pensava no despertador que tocaria cedo no dia seguinte e retornou para casa, para não chegar atrasada no trabalho.

Pouco depois, Merkel abandonou para sempre a física e iniciou a carreira política. Em 1990 foi eleita deputada pela União Democrata Cristã (CDU), então liderada pelo chanceler da Reunificação, Helmut Kohl. Em janeiro de 1991, assumiu o primeiro cargo ministerial.

Mas ela não conseguiu cumprir o sonho. "Nunca fui comer ostras no Kempinski com minha mãe", disse.

Sonho de Merkel: ir aos EUA e ver Bruce Springsteen

Merkel revelou recentemente que seu sonho como cidadã da Alemanha Oriental era visitar as Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos, e ver o cantor Bruce Springsteen.

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Se o Muro não tivesse caído há 30 anos e a RDA comemorasse seu 70.º aniversário, “o que seria da senhora?”, perguntou a revista Der Spiegel à chanceler. 

“Você e eu não teríamos nos encontrado, é claro”, respondeu Merkel, que cresceu na região de Brandemburgo, na antiga RDA. “Afinal, eu ainda poderia ter realizado meu sonho: na RDA, as mulheres se aposentavam aos 60 anos”, contou ela, que tem 65 anos. 

“Então, há cinco anos, eu pegaria meu passaporte e viajaria para os EUA”, disse Merkel. “Na RDA, os aposentados eram livres para viajar, pois aqueles que não eram mais úteis como trabalhadores socialistas podiam sair do país.”

Sonho realizado

Os EUA a atraía? “É claro que eu teria visitado a República Federal da Alemanha. Mas queria fazer minha primeira longa viagem aos EUA por causa de seu tamanho, diversidade e cultura”, explicou Merkel, que teve a oportunidade fazer várias viagens a esse país após a queda do Muro, inclusive com seu marido, um cientista de renome, que trabalhou por um ano em San Diego, na Califórnia.

“Ver as Montanhas Rochosas, andar de carro e ouvir Bruce Springsteen, era o meu sonho”, afirmou a chanceler.

O cantor e compositor americano era admirado pela juventude da Alemanha Oriental e foi um dos poucos ocidentais a realizar um show em Berlim Oriental, em 1988. / AFP

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