Comida e petróleo

São questões que só os historiadores podem responder e, provavelmente, daqui a muitos anos. Que papel teve o choque no preço dos alimentos nas revoltas em série que varrem o mundo árabe? E qual a repercussão da alta histórica no preço da comida no resto do mundo?

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

Tudo começou com o camelô Mohamed Bouazizi, que não aguentava mais ver seu carrinho de frutas confiscado por fiscais tunisianos. Ele tomou um banho de solvente e imolou-se em praça pública na cidade de Sidi Bouzid, a 150 quilômetros de Túnis.

Bouazizi incendiou uma revolta que levou milhões às ruas, derrubou o ditador tunisiano, Zine El Abidine Ben Ali, e se alastrou pelo norte da África. Nem ele nem os manifestantes passavam fome. De fato, a dieta média tunisiana é de 4 mil calorias diárias. Mas a comida como pano de fundo é um caso a se pensar.

Autoritarismo, arbitrariedade, corrupção e um regime esclerosado impulsionaram a revolução. Essas agruras, porém, já existem há décadas no Oriente Médio. A novidade, ou a gota d"água, foi a disparada dos preços dos alimentos.

Desde meados do ano passado, a inflação dos principais itens da dieta humana explodiu. De julho de 2010 para cá, o preço do trigo, do arroz e do milho dobrou. O índice de alimentos da ONU, que monitora os mercados dos 55 produtos mais comercializados, nunca esteve tão febril.

Já vimos essa fita. Em 2008, o surto recorde de preços do pão, do arroz e de outros alimentos abalou governos de Porto Príncipe a Manila. Os países produtores reagiram, retendo estoques e proibindo as exportações e agravando a escassez nos países pobres. Agora, tudo piorou. Calcula-se que a nova onda de inflação de alimentos já empurrou mais de 50 milhões para baixo da linha de pobreza.

Será a comida o novo petróleo? Mais um bem essencial, com produção limitada e demanda intensa, repentinamente torna-se escasso. Seu preço dispara, pauperizando povos e provocando tumultos e rebeliões.

Desde que se plantaram as primeiras sementes, há 10 mil anos, o mundo lida com faltas crônicas e severas de comida. Estiagens, inundações, geadas e incêndios fazem estragos, que são agravados por picos de população. O choque de alimentos de hoje, porém, é de outra ordem, sensivelmente pior.

Com a população global atingindo 9,5 bilhões em 2050, a pressão aumenta e o problema não é apenas o número absoluto de bocas para alimentar. Cresce também a prosperidade mundial, engordando as classes médias emergentes, especialmente na China, Índia e América Latina. Querem comer mais e melhor.

De 2000 a 2009, o consumo de carne deve subir 49% na China, 79% na Índia e até 22% no Brasil, segundo o Instituto International para Pesquisas em Políticas Alimentares. O boi come grãos, o que demanda mais terra - pelo menos 90 milhões de hectares a mais até 2050, segundo estimativas. A conta para os cereais não é muito diferente.

Como não existe um "pré-sal" de terras virgens escondidas pelo planeta, a única forma de alimentar todos é produzir mais com menos. Isto já ocorreu antes. A revolução verde, dos anos 50 e 60, lançou novos métodos de plantio, adubagem e melhoramentos genéticos. A América Latina abraçou a causa, ajudando a elevar em 150% a oferta de comida mundial na última metade do século passado.

A boa notícia é que a tecnologia para turbinar ainda mais as hortas e fazendas já existe. A má notícia é que essa nova revolução verde depende de inovações polêmicas, com destaque para a inserção de genes de um organismo para outro, que ainda desperta desconfiança, pânico e mau humor pelo mundo. Segundo os críticos, os transgênicos poderiam deflagrar pragas bíblicas ou até doenças incontroláveis, medos injustificados até hoje.

O entrave maior é na Europa, mas chega também a países pobres, justamente aqueles que têm mais a ganhar com o aumento de produtividade. São países literalmente famintos pela ciência, segundo o pesquisador Robert Paarlberg, da Universidade de Harvard. Em um mundo que passa cada vez mais fome, a tecnofobia talvez seja um luxo insustentável. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, novas potências agrícolas, já fizeram sua opção. E não podem ficar sozinhos na mesa.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK" E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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