Comissão eleitoral declara Ghani vencedor das eleições no Afeganistão

Os dois candidatos à presidência do Afeganistão fecharam ontem um acordo de partilha de poder que coloca fim a meses de indefinição em relação ao comando do país e abre caminho para a assinatura do pacto de segurança que permitirá a permanência de tropas estrangeiras em território afegão depois de 31 de dezembro, quando a guerra iniciada há 13 anos será oficialmente encerrada.

CLAUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h02

Cinco horas depois do anúncio, a comissão eleitoral declarou que Ashrafi Ghani venceu o segundo turno da disputa presidencial, realizado no dia 14 de junho, mas não informou quantos votos cada candidato obteve. O segundo colocado, Abdullah Abdullah, diz que houve fraude generalizada e impôs a não divulgação do resultado como condição para aceitar o acordo de partilha de poder.

Milhões de afegãos arriscaram suas vidas para votar nos dois turnos da eleição sob ameaça de violência do Taleban, que boicotou o pleito e prometia inviabilizá-lo. Houve atentados e alguns eleitores tiveram seus dedos amputados pelos militantes para impedir dupla votação - a tinta usada para reproduzir impressões digitais demora cerca três dias para desaparecer, o que permitiu a identificação dos que desafiaram o grupo extremista.

O pacto entre os dois candidatos começou a ser costurado em agosto, depois de uma visita a Cabul do secretário de Estado americano, John Kerry, que pressionou Ghani e Abdullah a superarem o impasse eleitoral com a formação de um governo de unidade nacional. Ontem, o presidente Barack Obama telefonou para os dois candidatos para cumprimentá-los pela primeira transição "democrática e pacífica" de poder da história do Afeganistão.

Com formação em antropologia, Ghani trabalhou por mais de um década no Banco Mundial e foi ministro das Finanças do Afeganistão de 2002 a 2004. Pelo acordo anunciado ontem, ele assumirá a presidência de seu país. Chanceler afegão entre 2001 e 2005, Abdullah ocupará um novo cargo executivo, com funções semelhantes a de um primeiro-ministro.

A não divulgação dos resultados da eleição foi criticada por entidades de defesa da democracia, que consideram a decisão um gesto de desprezo ao exercício do voto. "Muitas pessoas arriscaram suas vidas para votar, algumas perderam suas vidas e esse é um precedente muito ruim. Convencer as pessoas a votar de novo será extremamente difícil", declarou Nader Nadery, que comanda a Fundação para Eleições Livres e Justas no Afeganistão.

Abdullah já havia sido derrotado na eleição presidencial de 2009, vencida pelo atual presidente, Hamid Karzai, que governa o Afeganistão desde dezembro de 2001. Como agora, a votação anterior foi marcada por suspeitas de irregularidades.

O pacto fechado ontem afasta a ameaça de fragmentação política do Afeganistão, que colocaria em risco a estabilidade do país depois de 13 anos de guerra. Para os EUA, a mais importante consequência será a assinatura do acordo de segurança que dá imunidade aos soldados estrangeiros e permite a permanência de tropas internacionais no país.

A impossibilidade de obtenção de um acordo semelhante no Iraque levou à saída de todos os militares estrangeiros em 2011. Para muitos analistas, isso contribuiu para o aprofundamento do confronto sectário entre sunitas e xiitas e para o aumento da fragilidade das forças de segurança, o que abriu caminho para o avanço do Estado Islâmico.

A coalizão da Otan ainda tem cerca de 30 mil soldados no Afeganistão. O número será reduzido a menos da metade, em dezembro, quando as forças de segurança afegãs assumirão total responsabilidade pelas operações de combate. Os EUA gostariam de ter obtido o acordo de segurança no ano passado, mas Karzai se recusou a assiná-lo e anunciou que deixaria a decisão para seu sucessor. Tanto Ghani quanto Abdullah disseram durante a campanha que firmariam o documento.

A diminuição do contingente militar deu fôlego ao Taleban, que conquistou terreno nos últimos meses e realizou uma série de atentados em Cabul. O mais recente, na semana passada, matou três soldados estrangeiros, dois dos quais americanos.

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