Comissão pede recontagem parcial de votos no Afeganistão

Organismo apoiado pela ONU diz que existem provas 'claras e convicentes' de fraude na votação presidencial

08 de setembro de 2009 | 08h54

A comissão com apoio das Nações Unidas investigando a eleição presidencial afegã afirmou nesta terça-feira, 8, que foram encontradas "claras e convincentes provas de fraude" nos resultados da disputa. O órgão exigiu uma recontagem das seções eleitorais onde há problemas.

 

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A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu que as autoridades eleitorais no Afeganistão adotassem medidas firmes para impedir fraude na apuração dos votos do pleito presidencial realizado em 20 de agosto. O representante especial da ONU no país, Kai Eide, enviou uma carta às autoridades nesta terça-feira, afirmando que a contagem final precisa excluir resultados de todas as urnas onde ocorreram irregularidades.

 

O atual presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, superou os 50% dos votos, na mais recente parcial das eleições do país, informaram funcionários nesta terça-feira. Com isso, Karzai pode evitar a realização de um segundo turno. O atual líder aparece com 54% dos votos válidos, com quase 92% dos votos apurados. Caso haja segundo turno, ele deve enfrentar o segundo colocado, o ex-ministro de Relações Exteriores Abdullah Abdullah.

 

Acusações generalizadas de acréscimo ilegal de votos e registros suspeitos ameaçam a legitimidade da eleição de 20 de agosto, enquanto o país aguarda os resultados finais. Mais de 720 acusações de fraude foram apresentadas na Comissão de Reclamações Eleitorais.

 

O anúncio foi feito após a divulgação dos resultados de quase três quartos das seções eleitorais. O presidente Hamid Karzai está perto dos 50% de votos mais um, necessários para vencer em primeiro turno. Caso não consiga alcançar a marca, deve haver segundo turno contra o ex-ministro de Relações Exteriores Abdullah Abdullah.

 

O fato de a comissão ordenar recontagem parcial amplia as incertezas em torno da disputa. Uma eleição crível é vista como fundamental para os esforços apoiados pelo Ocidente, a fim de estabilizar o Afeganistão e obter apoio público na luta contra a insurgência do Taleban.

 

A comissão não informou quantas seções deveriam realizar recontagens. Até agora, já foram identificados resultados questionáveis nas províncias de Ghazni, Paktika e Kandahar. Locais com 100% de comparecimento, ou com um candidato recebendo mais de 95% dos votos, precisarão ser auditados e recontados, informou a comissão em comunicado. Seções com menos de 100 urnas estarão isentas desse processo.

 

A comissão é formada por três estrangeiros e dois afegãos e tem a autoridade para ordenar a recontagem de qualquer urna, caso haja fortes indícios de irregularidades. Os membros internacionais são apontados pela ONU e os afegãos, pela Suprema Corte e pela Comissão Independente de Direitos Humanos Afegã. Uma entidade separada é a comissão eleitoral afegã, que organiza o processo como um todo. Essa já descartou os votos de 447 seções, ou aproximadamente 200 mil cédulas, por fraudes.

 

Denúncias

 

Partidários do líder afegão, Hamid Karzai, prepararam centenas de zonas eleitorais falsas nas quais ninguém votou, mas tiveram centenas de votos registrados em favor da reeleição do presidente, de acordo com alguns dos principais funcionários do governo e do Ocidente encarregados de observar as eleições do dia 20. As zonas falsas, cujo número chegava a 800, existiam apenas no papel, disse um diplomata ocidental no Afeganistão, sob a condição de não ter o nome publicado. Funcionários locais relataram que centenas - em alguns casos, milhares - de votos para Karzai na eleição do mês passado são provenientes dessas zonas. O padrão foi confirmado por outro funcionário ocidental designado para o Afeganistão.

 

"Acreditamos que cerca de 15% das zonas eleitorais não abriram no dia das eleições", disse o diplomata ocidental. "Mas ainda assim foram registrados nelas milhares de votos para Karzai". Além de criar zona eleitorais falsas, os partidários de Karzai também assumiram o controle de outras 800 secções eleitorais legítimas, usando-as para registrar de forma fraudulenta dezenas de milhares de votos adicionais para o presidente, disseram os funcionários do governo.

 

Como resultado, segundo eles, em algumas províncias a quantidade dos votos para Karzai supera em 10 vezes o número de pessoas que foram às urnas. "É difícil de determinar é a magnitude da fraude", disse o diplomata ocidental.

 

O número cada vez maior de relatos de fraude representa um grave problema para o governo de Barack Obama, que destacou para o Afeganistão um contingente de 68 mil soldados para reverter os avanços dos insurgentes do Taleban. Funcionários americanos esperavam que a eleição ajudasse a afastar os afegãos do Taleban ao oferecer a eles uma maior participação no governo. Em vez disso, Obama enfrenta agora a perspectiva de ser obrigado a defender pelos próximos cinco anos um governo afegão considerado ilegítimo. "Trata-se de um caso de fraude maciça", disse o diplomata.

 

De acordo com funcionários do governo, a maior incidência de fraudes em favor de Karzai deu-se nas áreas de maioria pashtun no leste e no sul do país, nas quais os funcionários dizem que a presença dos eleitores em 20 de agosto foi excepcionalmente baixa. Entre tais regiões inclui-se a província natal de Karzai, Kandahar, onde os resultados preliminares indicam que mais de 350 mil votos foram depositados nas urnas e aguardam contagem. Mas funcionários ocidentais estimam que apenas cerca de 25 mil pessoas tenham de fato votado na região.

 

(Com The New York Times)

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