Comissão pede retirada americana do Iraque em 2008

A política da administração de George W. Bush para o Iraque "não está funcionando", e a possibilidade da disseminação do caos pode derrubar o governo iraquiano e iniciar uma guerra regional, concluiu uma comissão de alto nível que analisou maneiras de solucionar a crise no país árabe. Entre os caminhos apontados pelo relatório, entregue nesta quarta-feira ao presidente americano, há propostas para a ampliação dos esforços diplomáticos para estabilizar o país e a retirada das tropas até o início de 2008. Trata-se do mais extensivo relatório independente a analisar a questão desde o início da guerra, que já dura quase quatro anos e que custou a vida de mais de 2.800 soldados americanos e de milhares de iraquianos. Escrito pelo Grupo de Estudos do Iraque - uma comissão bipartidária liderada pelo ex-secretário de Estado republicano James A. Baker III e pelo ex-deputado democrata Lee Hamilton -, o relatório (que pode ser lido na íntegra ao lado) desenha um cenário obscuro de uma nação que Bush prometeu transformar em exemplo de liberdade e democracia para o Oriente Médio. O relatório afirma que a situação no país é "grave e perigosa", e diz que a capacidade dos Estados Unidos em "influenciar eventos dentro do Iraque está diminuindo". O comitê adverte ainda que, se a situação no Iraque continuar a se deteriorar, "há um risco de o país escorregar para o caos, o que poderia provocar o colapso do governo iraquiano e uma catástrofe humanitária. Países vizinhos poderiam intervir. A posição global dos EUA poderia ser diminuída. Os americanos poderiam ficar ainda mais polarizados", diz o texto. Ao receber o relatório na manhã desta quarta-feira, o presidente Bush disse que levará as propostas "muito a sério" e agirá "em tempo oportuno". A Casa Branca já deixou claro, no entanto, que o presidente não é obrigado a seguir os conselhos do grupo, e afirmou que a administração trabalha na sua própria revisão da estratégia."Esse relatório faz uma avaliação dura da situação no Iraque", disse Bush depois de se reunir por cerca de uma hora com os integrantes do grupo. "Eu disse aos integrantes que o relatório, chamado ´O Caminho a Seguir´, será levado muito a sério por esta administração."RecomendaçõesEmbora apresente uma lista de 79 recomendações, a comissão admite que a estabilidade no Iraque dificilmente será atingida em breve. "Não há uma fórmula mágica para solucionar os problemas do Iraque", afirma o relatório. "Ninguém pode garantir que qualquer tipo de ação no Iraque neste momento irá barrar a guerra sectária, a crescente violência e ampliação do caos", apontaram Baker e Hamilton em uma carta entregue junto com o relatório. "Se as atuais tendências continuarem, as potencias conseqüências serão severas. Ainda assim, o grupo esforçou-se em apontar alguns caminhos para diminuir os riscos de expansão da guerra para um conflito regional. Em linhas gerais, o relatório pede que os Estados Unidos esforcem-se em construir um amplo consenso internacional em torno da necessidade de ajudar a nação, e pede que a administração pressione o governo iraquiano para que este alcance progressos internos. E, caso o governo não colabore para garantir segurança ao país, recomenda que os Estados Unidos diminuam "sua ajuda política, militar e econômica" ao país. Por fim, pede que o Exército se trabalhe em reduzir sua presença no Iraque até o início de 2008. Mais de três anos e meio depois da invasão de março de 2003 que derrubou Saddam Hussein, cerca de 140 mil soldados norte-americanos permanecem no Iraque, combatendo a insurgência e tentando impedir o conflito sectária entre xiitas e sunitas.Esforços regionaisO relatório também pediu que os Estados Unidos negociem com o Irã e com a Síria, países acusados por autoridades norte-americanas de fomentar a insurgência no Iraque, para tentar estabilizar o país. A Casa Branca já resistiu no passado à realização desse tipo de contato. "Tendo em vista a capacidade do Irã e da Síria de influenciar os eventos dentro do Iraque, e seu interesse em evitar o caos no Iraque, os EUA deveriam engajá-los construtivamente", diz o documento.O relatório pede ainda um novo compromisso do governo Bush com uma "paz árabe-israelense abrangente", argumentando que os Estados Unidos não têm como atingir seus objetivos no Oriente Médio sem tratar do conflito.Com uma ofensiva diplomática em andamento, prossegue o relatório, as Forças Armadas dos EUA deveriam dar início a um rápido esforço para treinar as tropas iraquianas, fazendo com que as forças americanas assumam gradativamente um papel de apoio no país.Sem cronogramaO texto não estabeleceu um cronograma para a transição, mas diz que, até o primeiro trimestre de 2008, dependendo das condições, as tropas de combate que não sejam necessárias podem estar fora do Iraque."Os Estados Unidos não devem se comprometer indefinidamente a manter grandes números de soldados norte-americanos no Iraque", conclui o texto.O conflito no Iraque, que é cada vez mais impopular nos EUA, já dura mais que o envolvimento norte-americano na Segunda Guerra Mundial.Texto ampliado às 16h38

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