REUTERS/Joshua Roberts
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Comitê do Senado critica gigantes da internet por influência russa em eleição

É o começo de um esforço de guerra cibernético que envolve a habilidade de uma potência estrangeira de se envolver numa eleição e semear conflito e discórdia no país, diz senadora

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2017 | 17h53

WASHINGTON - Senadores democratas e republicanos criticaram nesta quarta-feira, 1, as principais empresas de internet americanas por fracassar em identificar, repelir e investigar a influência russa nas redes sociais do país durante a campanha presidencial do ano passado. O Comitê de Inteligência do Senado ameaçou Facebook, Google e Twitter com novas leis que regulamentem a venda de anúncios políticos. Representantes das empresas se disseram disposts a colaborar. 

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“Acho que vocês não entenderam. Estamos falando de mudanças cataclísmicas”, disse a senadora democrata Dianne Feinstein. “É o começo de um esforço de guerra cibernético que envolve a habilidade de uma potência estrangeira de se envolver numa eleição e semear conflito e discórdia no país.”

A senadora responsabilizou diretamente as três empresas por criar as plataformas digitais que foram utilizadas, segundo ela, para influenciar a eleição. 

Ainda que em escala menor, os republicanos também criticaram o papel das empresas. “Não é sobre quem ganhou ou perder a eleição, mas sobre segurança nacional”, disse o senador Richard Burn. “É sobre responsabilidade  corporativa e a manipulação deliberada do povo americano por agentes de uma potência hostil.”

O senador ressaltou que a atuação russa na eleição influenciou a reunião de americanos em comícios promovidos em páginas mantidas pelo Kremlin. “Imaginem se isso fosse usado para fomentar um conflito”, questionou. 

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A audiência ocorre em meio à revelação de que o impacto da campanha de desinformação russa durante a eleição foi maior do que se pensava. Mais de 126 milhões de usuários do Facebook viram conteúdo produzido por agentes do Kremlin. Outros 20 milhões o fizeram no Instagram, que pertence à mesma empresa. 

O Twitter descobriu mais de 2,7 mil contas contrladas pelos russos, com 36 mil robôs enviando 1,4 milhão de mensagens políticas durante a eleição. O Google teve mais de mil vídeos no YouTube produzido por Moscou com o intuito de chegar a eleitores americanos. 

As três empresas se disseram chocadas com o que descobriram, mas ressaltaram que esse conteúdo representa uma pequena parte do conteúdo que flui por meio de suas plataformas. Google, Facebook e Twitter também se comprometeram em cooperar com o comitê, aprender mais detalhes sobre o que aconteceu e, em tese, aprovar novas regulamentações. 

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O Problema Foi Pior que o Relatado 

Facebook, Twitter e Google demoraram em admitir sua importância na iniciativa russa de exercer influência. Logo após as eleições, o principal executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, colocou em ridículo a ideia de que notícias falsas no site pudessem ter influenciado a opinião pública antes das eleições. 

Vários meses se passaram até que as empresas lançassem suas próprias investigações. No final de setembro, o senador Mark Warner, da Virgínia, o principal democrata do Comitê de Inteligência do Senado, disse que as informações fornecidas pelo Twitter e pelo Facebook pareciam subestimar consideravelmente seus problemas. 

“O uso abusivo de nossa plataforma por sofisticados agentes estrangeiros patrocinados pelo estado, na tentativa de manipular eleições é um novo desafio para nós - e um que estamos decididos a enfrentar”, disse o conselheiro geral interino de Twitter, Sean Edgett, em testemunho escrito. 

 Legisladores Querem Maior Regulamentação em Tecnologia 

Os ventos políticos mudaram para o Vale do Silício, com um número cada vez maior de legisladores soando alarmes nos últimos meses, sobre o poder que Facebook, Google e Twitter têm sobre a opinião pública. 

Alguns senadores e deputados estão agora propondo encurtar suas rédeas, regulamentando anúncios políticos nas plataformas digitais. Depois que o Facebook revelou em setembro que havia identificado mais de US$ 100 mil em anúncios pagos pela Internet Research Agency, os políticos propuseram legislação exigindo que os sites se submetam ao mesmo tipo de regras impostas às transmissões de televisão. 

Durante a audiência de terça-feira, a senadora Amy Klobuchar, democrata de Minnesota, deverá fazer forte pressão por um projeto de lei exigindo que sites como o Facebook e o YouTube divulguem as fontes de financiamento para publicidade política. Ela recentemente apresentou a legislação com o senador John McCain, republicano do Arizona e Mark Warner. 

Antes da audiência, o Facebook e o Twitter anunciaram que divulgariam voluntariamente as fontes de financiamento por trás da propaganda política. O Twitter foi ainda mais longe ao proibir os anúncios de dois sites de notícias apoiados pelo Kremlin, além de comprometer em divulgar a fonte de financiamento de todos os anúncios. 

Mas os legisladores dizem que a auto-regulamentação não vai eliminar o problema. "Se as suas políticas estão em conformidade com o nosso projeto de lei, eles devem apoiá-la e talvez possam usar essa política como modelo quando aprovarmos nossa lei”, disse Klobuchar em entrevista recente. 

O Problema não são Apenas os Anúncios 

A propaganda política é apenas parte do problema. Os agentes russos também espalham conteúdo não pago por intermédio da criação de páginas no Facebook, dedicadas a questões polêmicas, como raça. No Twitter, a Internet Research Agency, ligada ao Kremlin, usava ferramentas de mensagens automáticas conhecidas como bots, que podiam rapidamente disseminar tweets através de múltiplas contas. 

Os legisladores vão pressionar as empresas sobre o que eles fizeram para combater a desinformação em “postagens orgânicas” e bots. 

O recente anúncio do Twitter para divulgar fontes de financiamento de anúncios não é suficiente, disse Adam Schiff, da Califórnia, o principal democrata no Comitê de Inteligência da Câmara. 

"A transparência apenas em publicidade, não é uma solução para a distribuição de bots que ampliam conteúdo falso ou enganador ou para os esforços bem-sucedidos de “trolls” (mensagens anônimas) online para promover mensagens que incentivem as divisões”, disse recentemente Schiff. 

Outro problema são os anúncios orientados para questões que não são definidas como propaganda política pois não fazem a promoção direta de um candidato. Esses anúncios incluem um grupo ambiental que publicou anúncio contra a regulamentação ambiental ou grupos anti-imigração que exigem maior rigor em políticas fronteiriças. 

 

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