Comitê Monetário do FMI apoia políticas dos ricos, mas pede reformas

Ministros tentam conciliar em comunicado posições dos países avançados e dos países afetados pela expansão monetária

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE, ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL, WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h02

Os países mais avançados devem continuar emitindo dinheiro enquanto a inflação ficar contida e o crescimento econômico for fraco, mas será preciso vigiar de perto os efeitos dessa política em outras economias, recomendou o Comitê Monetário e Financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), o principal foro político da instituição.

Essa recomendação é um esforço para conciliar, pelo menos formalmente, duas posições antagônicas. Os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa têm emitido grande volume de moeda para estimular o crédito e a criação de empregos e para dar sustentação, nos mercados, aos papéis emitidos pelos governos com maior insegurança fiscal. Do lado oposto estão o Brasil e outros emergentes, para onde tem migrado uma parte do dinheiro criado no mundo rico.

Esse é o fenômeno descrito pela presidente Dilma Rousseff como "tsunami monetário". Seu efeito mais danoso, segundo as autoridades brasileiras, é a valorização de várias moedas. Isso encarece os produtos desses países no mercado internacional e diminui o poder de competição das indústrias dos países receptores do dinheiro.

O Comitê é um órgão político e seus comunicados devem acomodar as opiniões divergentes. O ministro Guido Mantega voltou a reclamar, na reunião de ontem, da política monetária dos países avançados e a defender o direito dos países afetados de adotar as medidas consideradas necessárias para administrar o fluxo de capitais. Diante da instabilidade dos fluxos, a adoção dessas medidas é sensata, disse numa entrevista coletiva o presidente do Comitê, o ministro das Finanças de Cingapura, Tharman Shanmugaratnam.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), Supachai Panitchpakdi, defendeu num discurso a adoção de um regime de flutuação cambial administrada, para limitar a instabilidade dos mercados, mas sem dar detalhes sobre o estudo realizado pelos técnicos sob seu comando.

Economistas e dirigentes do FMI têm mostrado pouca preocupação com os problemas cambiais apontados pelo governo brasileiro. Continuam apoiando as políticas monetárias frouxas nos Estados Unidos e na Europa e recomendando aos países afetados a adoção de medidas "macroprudenciais" - como as adotadas no Brasil - para moderar o ingresso de capitais. A subvalorização da moeda chinesa tem sido discutida com muito mais frequência e interesse nos foros do mundo rico. Por isso, o recente anúncio de aumento da faixa de flutuação do yuan, de 0,5% para 1% em relação ao dólar, foi recebido com aplausos em Washington e em outras capitais do mundo desenvolvido.

O comunicado do comitê ressalta os sinais de melhora econômica nos EUA e na Europa e menciona logo na terceira linha o acordo entre os governos da zona do euro para reforçar seu esquema financeiro de combate à crise. Esse acordo foi uma condição política indispensável para o FMI pedir mais dinheiro aos países membros, incluídos os emergentes, para um socorro mais eficiente aos países atingidos pela crise. O dinheiro do FMI será emprestado tanto aos europeus quanto aos demais sob as mesmas condições tradicionalmente vinculadas aos programas de ajuda, segundo o comunicado e segundo ressaltou o presidente do comitê.

Reformas. O ministro Tharman Shanmugaratnam acentuou também a necessidade de retomada do crescimento econômico nos países em crise do primeiro mundo. Não bastará, segundo ele, o esforço para ajustar as contas públicas. Será preciso promover reformas estruturais para aumentar o potencial de crescimento das economias. Sem isso, o próprio ajuste das contas públicas será insustentável. Será preciso retomar o caminho dessa expansão segura nos próximos três anos, disse o ministro, sob pena de se comprometer a recuperação.

A recomendação de reformas, dirigida especialmente aos europeus, é a mesma transmitida durante décadas aos países latino-americanos. Mudanças nas áreas trabalhista e previdenciária têm sido citadas.

Além da crise global, dos programas de assistência e das reformas, o FMI deverá dedicar-se a uma agenda de colaboração com os países da Primavera Árabe.

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