Comitê Nobel premia dissidente chinês Liu Xiaobo e irrita governo de Pequim

Laureado, preso pela primeira vez por participação nos protestos da Praça da Paz Celestial, de 1989, cumpre pena de 11 anos desde 2008 por subversão; líderes da China afirmam que opositor é 'criminoso' e dizem que decisão ameaça laços com a Noruega

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Cumprindo pena de 11 anos de prisão sob a acusação de "subversão", o dissidente chinês Liu Xiaobo ganhou ontem o Prêmio Nobel da Paz, decisão que enfureceu o governo de Pequim e foi vista por ativistas de direitos humanos como um sinal da necessidade de reformas democráticas na China.

Pequim condenou a entrega do prêmio e censurou a informação na internet, celulares e meios de comunicação do país. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, afirmou que Liu é um "criminoso" e a premiação é uma "profanação" dos princípios do Nobel. "Liu Xiaobo é um criminoso que ofendeu a legislação da China e foi condenado pelo Judiciário chinês", declarou Ma. O porta-voz disse ainda que a decisão vai prejudicar as relações entre China e Noruega, cujo Parlamento elege os integrantes do Comitê Nobel Norueguês, responsável pelo processo de concessão do Prêmio Nobel da Paz, o único que não é anunciado na Suécia.

Não é a primeira vez que a entrega do título contraria a posição da China, que também condenou com ênfase a entrega do Nobel da Paz de 1989 ao dalai-lama, classificado de "separatista" pelas autoridades de Pequim.

A premiação de Liu ocorreu em um ano no qual o número de candidatos ao Nobel da Paz era recorde: 199 indivíduos e 38 instituições. O Comitê afirmou que Liu foi escolhido para "por sua longa e não-violenta luta em favor dos direitos humanos".

"O novo status da China acarreta crescentes responsabilidades", disse o presidente do comitê, Thorbjorn Jagland. "A China viola uma série de acordos internacionais dos quais é signatária, bem como suas próprias regras relativas a direitos políticos", acrescentou, lembrando que o Artigo 35 da Constituição do país prevê a liberdade de expressão, imprensa, associação, reunião e protesto, nenhuma das quais é respeitada na prática.

Defensor de mudanças políticas desde que participou dos protestos na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989, Liu passou 7 dos últimos 21 anos na prisão ou em campos de reeducação pelo trabalho.

Sua mais recente prisão teve início no dia 8 de dezembro de 2008, dois dias antes da divulgação da Carta 08, um manifesto assinado por 303 intelectuais, advogados e ativistas em defesa de reformas políticas. Liu foi um dos idealizadores e signatários do documento, que ganhou a adesão de milhares de pessoas após circular na internet.

O advogado e ativista Teng Biao disse ao Estado que a premiação de Liu será importante para o avanço de reformas políticas na China, já que deverá encorajar outras pessoas a defender a democracia e o estado de direito. "O Nobel da Paz também deverá aumentar o interesse internacional em relação à situação dos direitos humanos na China", afirmou Teng, que em 2008 assinou com o ativista Hu Jia a carta aberta "A China Real e as Olimpíadas", que apontava uma série de violações de liberdades civis na véspera dos Jogos de Pequim. Em 2009, Hu Jia foi condenado a 3 anos e meio. Mas Teng acredita que no curto prazo a premiação poderá levar ao aumento da repressão contra ativistas e ao acirramento da censura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.