Comitiva árabe faz a alegria de balneário espanhol

Os moradores de Marbela respiram aliviados: o príncipe (ou Midas) chegou. O príncipe é o velho rei Fahd da Arábia Saudita, muito doente que, antes de ir ao luxuoso balneária espanhol na Costa do Sol, passou três meses em Genebra. O príncipe não está sozinho. A família real saudita tem o hábito de viajar em bandos, em grandes bandos. Quando aterrissou na Espanha, no dia 14 de agosto, em seus três Boeings, Fahd estava acompanhado por uma comitiva de 400 pessoas. Foi preciso alugar 50 limusines, ônibus e caminhões para transportar as 2.000 malas da corte. Mas esses números estão ainda aquém da verdade: avalia-se em 3.000 o número de pessoas que foram à Espanha com o rei Fahd. As despesas diárias da Corte são da ordem de ? 5 milhões. Todos os dias, são entregues ? 1.500 em flores. Uma agência da telecom providenciou 500 celulares. Todas as noites, no cassino, os príncipes atravessam o salão para se refugiar em salas privadas onde o jogo é mais pesado: a aposta mínima na roleta é de ? 2.000. Usam-se fichas raríssimas de ? 25.000. Esse fausto absurdo (ou revoltante) não é novidade: a família real saudita sempre gostou de luxo. Mas, neste ano, a prodigalidade de Fahd em Marbela tem um sentido político. É que a Arábia Saudita, aliada íntima de Washington, começa a irritar ou a preocupar os americanos. Isso começou com os atentados de 11 de setembro quando, se descobriu que 15 dos 19 terroristas eram sauditas. Com isso, dissipou-se a cortina de fumaça. Washington perguntou-se se os Estados Unidos tinham razões para ser tão amigos de Riad. Começou a refletir. Percebeu que há vários anos vinha sustentando uma monarquia detestável. A Arábia financia a rodo os partidos islamistas radicais do Magrebe, da Indonésia, de Gaza. Ela aplica um Islã brutal, terrível para as mulheres, com total desprezo das liberdades. Riad é uma cidade muito mais obtusa do que Teerã ou Bagdá. Mas, os olhos dos americanos permaneciam fechados: em uma primeira fase, até 1990, Washington queria manter a seu lado regimes islamistas integristas que se sentiam atraídos por Moscou. Mais tarde, era preciso segurar o preço do petróleo, indispensável ao funcionamento da máquina norte-americana. E finalmente, os petrodólares sauditas, valiosíssimos no mercado dos Bônus do Tesouro, permitiam financiar os déficits dos Estados Unidos. Hoje, os americanos começam a compreender que se aliaram com o diabo: Donald Rumsfeld se pergunta se a Arábia Saudita não é na verdade o "núcleo do mal", ou seja, o pior dos "Estados bandidos" que Bush jurou chamar à razão. De fato, não é absurdo ver os americanos ligarem-se politica e financeiramente com um dos Estados que sustentam o terrorismo em todo o planeta e que odeiam Israel, o aliado íntimo de Washington? É verdade que nada disso é novidade: em um passado recente, foram os Estados Unidos que treinaram e financiaram os Talebans, e portanto Bin Laden. Na Europa, foi Washington que armou as milícias albanesas maoístas. Mas, apesar de tudo, algumas pessoas pensavam que os Estados Unidos estavam cansados de só fazer asneiras. Mas, parece que não! É preciso dizer que uma revisão dos sistemas diplomáticos de Washington seria verdadeiramente "dramática", primeiramente no aspecto financeiro. Há algumas semanas começou a circular um boato de que os sauditas, furiosos com a recente desconfiança dos Estados Unidos, teriam retirado de 100 a 200 bilhões de dólares dos EUA. Esse boato, lançado precipitadamente pelo "Financial Times", foi desmentido. Mas, há também a questão do petróleo. O que aconteceria se Riad se afastasse de Washington? Ninguém ousa sequer pensar nisso. A menos que... a menos que a eventual operação contra o Iraque se explique da seguinte maneira: colocar em Bagdá um governo pró-americano, no lugar da besta imunda Sadam Hussein, permitiria a Washington acabar com a dependência de petróleo em relação a Riad. Enquanto isso, em Marbela, miríades de esposas de príncipes árabes fazem "shopping", compram bolsas Versace, bebem nos terraços bebidas sem álcool, fazem compras nas butiques de luxo de ? 12.000, em média, por pessoa.

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