Lorenzo Tugnoli/WP
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Como 20 anos de conflito remodelaram a capital do Afeganistão

Aglomerado de escritórios e condomínios tem se transformado em uma fortaleza do século 21, cercada por muros à prova de explosivos, postos de controle e câmeras de segurança

Philip Kennicott e Susannah George, The Washingtopn Post, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 20h00

CABUL - No centro de Cabul, uma cidade de bazares tradicionais e shopping centers despedaçados, carroças puxadas por cavalos e ruas em ruínas, está uma zona fortemente protegida que é um mistério para a maioria dos afegãos.

O que antes era um aglomerado de escritórios e condomínios importantes tem se transformado em uma fortaleza do século 21, cercada por muros à prova de explosivos, postos de controle e câmeras de segurança, criando o que para muitos é um vazio urbano impenetrável conhecido como Zona Verde.

As fortificações se expandiram rapidamente após o início da guerra em 2001. A Zona Verde tornou-se um obstáculo para a vida urbana cotidiana, causando um pesadelo diário de trânsito que se espalha por toda esta extensa cidade de mais de 4 milhões de habitantes. Em Cabul, isso é sentido como uma presença estranha, uma fonte de profundo ressentimento - e um legado indelével de duas décadas de intervenção militar dos Estados Unidos.

Se o Afeganistão tivesse tido estabilidade política e civil no século passado, o centro e o sul de Cabul estariam no itinerário de todos os turistas, com seus bairros de vilas elegantes e ruas arborizadas, uma grande avenida com serviço de trem em vias de ferro estreitas e a parte histórica ao longo do rio Cabul, com casas decoradas com telas de madeira elaboradamente entalhadas.

Em vez disso, os afegãos comuns veem muralhas de proteção contra explosões em formato de T que transformam as ruas da cidade em vales de concreto.

O fotojornalista vencedor do Prêmio Pulitzer Lorenzo Tugnoli fotografou as ruas e bairros próximos à Zona Verde nos últimos meses. Suas fotos traçam uma rota ao redor do território isolado - que abriga embaixadas, autoridades e organizações internacionais - e ao sul, até o palácio onde os últimos reis do Afeganistão esperavam que um parlamento presidisse um país moderno de tendência ocidental.

A praça Massoud tem esse nome em homenagem a Ahmad Shah Massoud, um poderoso líder mujahideen que lutou contra a ocupação soviética e, mais tarde, contra o Taleban. Seu assassinato em 9 de setembro de 2001 foi um presságio dos ataques da Al-Qaeda dois dias depois em Nova York e Washington, um prelúdio agourento para quase 20 anos de ansiedade, guerra, ocupação e insegurança.

Uma coluna em homenagem a Massoud está erguida perto da embaixada dos EUA em uma rotatória que serve como uma conexão vital entre a rua que leva ao aeroporto e o centro da cidade.

Ao sul da praça Massoud, a antiga estrada está bloqueada. Depois que o sol nasce, o tráfego agita-se neste ponto central da vida na cidade.

Hoje, a vida urbana é improvisada à sombra das paredes antiexplosivos. Ao longo do perímetro do bairro Wazir Akbar Khan, construções de concreto tomam conta das calçadas, tornando a vida dos pedestres caótica.

Fora da Zona Verde, os comerciantes abrem seus negócios onde quer que encontrem espaço.

O espaço público se torna estranho e desorientador, disse Ajmal Maiwandi, chefe do escritório do Afeganistão da agência Aga Khan Trust for Culture.

“Estar na cidade é uma coisa estressante, porque não há um trajeto claro, nenhum caminho claro, através dela”, afirmou.

As muralhas em formato de T - barreiras de concreto armado à prova de explosões que lembram a letra "T" invertida - são a principal ferramenta arquitetônica dos especialistas em segurança, os urbanistas existentes no centro de Cabul. Como as turbulentas cidades-Estado da Itália renascentista, Cabul evoluiu como uma cidade de pequenos distritos e subdistritos, um denso arquipélago de condomínios residenciais bem protegidos. As muralhas em formato de T atualizaram o padrão urbano do Afeganistão medieval para um bairro de forasteiros do século 21.

Em maio de 2017, um enorme caminhão-bomba explodiu perto deste local, do lado de fora da embaixada da Alemanha. Mais de 90 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Os afegãos responderam com protestos contra a incapacidade do governo de proteger a cidade, enquanto o governo afegão respondeu expandindo a Zona Verde que defende estrangeiros. As muralhas em formato de T se multiplicaram rapidamente.

O comércio ainda se concentra em torno da praça Malik Asghar. De um lado das barreiras de segurança, há um mundo frenético de vendedores ambulantes, um shopping popular e um posto de controle que dá acesso ao Ministério das Relações Exteriores e ao palácio executivo.

Do outro lado está um mundo de parques, palácios e jardins.

"Você adoraria caminhar pela cidade antes dessas muralhas", disse Nik Mohammad Sangar, 64 anos, que passou quase toda sua vida em Cabul. "Você podia andar pelo palácio sem ser parado por postos de controle."

"Sinto muita falta da antiga Cabul", disse ele.

Ahmad, um motorista de táxi de 29 anos que, por questões de segurança, falou com a condição de que apenas seu primeiro nome fosse mencionado, disse que as fortificações em constante expansão tornaram seu trabalho mais difícil.

"Temos que gastar uma hora e meia para percorrer uma distância de uma hora", disse ele. "Os engarrafamentos significam que nos prejudicamos financeiramente."

Em agosto de 2016, terroristas abriram um buraco em uma muralha em torno da Universidade Americana do Afeganistão. Homens armados entraram pela brecha e mataram 13 pessoas, incluindo sete estudantes e um professor. A universidade respondeu erguendo muros antiexplosivos e torres de guarda e permitindo a entrada apenas de alunos e funcionários no campus, de acordo com Scott Brant, vice-presidente de operações e administração da universidade.

"Não queremos nada disso", disse Brant. "Queremos o que você tem geralmente em todo o mundo, onde as pessoas podem entrar e sair quando quiserem, um ambiente agradável e permissivo, mas simplesmente não é viável."

Atrás das paredes de segurança está um campus moderno de edifícios acadêmicos contemporâneos. Mas os estudantes, em sua maioria afegãos, vivem em dois mundos - a bolha de segurança da universidade e o país do lado de fora dela, onde carregar qualquer coisa que os vincule à universidade, ou a presença americana, pode colocá-los em perigo de ataque de terroristas.

“Eles aproveitam ao máximo as medidas de segurança”, disse Victoria Fontan, vice-presidente de assuntos acadêmicos da universidade, "porque eles sabem que essa segurança arquitetônica também é uma ilustração da liberdade que eles têm para pensar e interagir juntos".

O campus principal da Universidade Americana fica de frente para o bulevar Darul Aman, criado na década de 1920 pelo rei Amanullah Khan I. Assim como os britânicos criaram Nova Délhi separada da Cidade Velha uma década antes, Amanullah Khan sonhava com uma nova capital separada do núcleo desordenado e densamente povoado da velha Cabul.

O Palácio Darul Aman foi um dos vários edifícios concluídos antes da guerra civil forçar o rei ao exílio em 1929.

Reduzido a ruínas pela luta entre facções mujahideen rivais na década de 1990, ele assombrou a cidade como uma concha vazia antes que uma restauração de três anos fosse concluída em 2019.

Foi incorporado a outra zona de segurança que inclui o novo edifício do parlamento afegão. Mas o palácio e seus terrenos permanecem quase todos sem uso.

A praça Pashtunistan foi o local de um grande ataque do Taleban em 2010. O tráfego fluía em torno de sua fonte circular. Hoje, a rotatória está entupida de táxis esperando por passageiros e suas paredes à prova de explosões se tornaram outdoors para anúncios de serviço público.

"Estou vendo você! Você que aceita suborno é um ateu", diz um outdoor que forra uma parede que serve de cordão de isolamento para o palácio presidencial, o Ministério da Justiça e o Banco Central.

"Essas paredes não fizeram nenhum bem para a segurança da cidade", disse Farhad, que é um dos muitos vendedores de bebidas na praça Pashtunistan e falou com a condição de que apenas seu primeiro nome fosse mencionado, por temer por sua segurança. "Em vez disso, elas causam transtornos às pessoas comuns."

Os ministérios e prédios de escritórios ao redor da praça Pashtunistan têm sido alvo de ataques ao longo dos anos, incluindo o Cinema Ariana. O Taleban fechou o cinema enquanto estava no poder e, depois de reaberto, ele foi atingido por um homem-bomba em 2010.

O centro da antiga Cabul era um emaranhado de casas e mercados ao longo do rio Cabul. A Cidade Velha fica fora da Zona Verde, mas as medidas de segurança em andamento a transformaram praticamente em lugar proibido para diplomatas e trabalhadores ocidentais que vivem na bolha de segurança.

A Cidade Velha é lar de uma grande população xiita e sua mesquita Abu Fazl foi o local de um ataque terrorista em dezembro de 2011 que matou dezenas de fiéis xiitas.

Desde a chegada dos americanos, a capital cresceu enormemente, com cerca de 2 milhões de novos residentes nos últimos 10 anos, de acordo com a Sasaki, uma empresa internacional de arquitetura e urbanismo contratada pelo governo afegão para criar um novo planejamento urbano para Cabul.

Embora o crescimento populacional tenha sido rápido, a Cidade Velha também é uma lembrança do período relativamente curto da presença americana em Cabul - pouco menos de 20 anos, em uma cidade que existe há séculos.

O planejamento da Sasaki imagina uma grande transformação da Zona Verde, retratada aqui à direita do rio Cabul, e do bulevar Darul Aman, se o crescimento rápido e desregulado da cidade puder ser canalizado e direcionado - e se a estabilidade continuar a existir.

Menos de dois quilômetros da praça Massoud está a praça Abdul Haq. Massoud e Abdul Haq eram comandantes da Aliança do Norte anti-Taleban, que chegou perto de criar uma força unificadora diversa e multiétnica em partes do Afeganistão.

Mas isso foi há mais de 20 anos, e os monumentos aos dois homens serão um lembrete dissonante de um passado distante se o Taleban, que está em negociações de paz com o governo afegão, desempenhar um papel importante na próxima etapa da evolução urbana de Cabul.

A presença soviética na década de 1980 trouxe quase uma década de sofrimento e instabilidade ao Afeganistão, mas também deixou um legado de hospitais, escolas e moradias, incluindo o conjunto residencial conhecido como Macroyan, próximo à Zona Verde.

Os prédios podem parecer sombrios, mas as torres quadradas e produzidas em massa são lugares populares para se viver, em parte porque formam bairros independentes e relativamente protegidos de ataques.

A vizinhança possui um dos poucos conjuntos habitacionais em Cabul com aquecimento central.

A presença formal americana em Cabul pode estar chegando ao fim, e o legado dos EUA permanece escasso. A ocupação soviética não é lembrada com carinho, mas deixou para trás alguns serviços públicos. Os EUA investiram no governo afegão, mas até mesmo a forma de governança poderia mudar drasticamente nas negociações de paz afegãs - deixando apenas os restos de sua arquitetura de segurança em cidades como Cabul. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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