REUTERS/Kacper Pempel
REUTERS/Kacper Pempel

Como a ascensão da ultradireita polonesa aflige a União Europeia

Partido Justiça e Liberdade ganha apoio com discurso extremista e projetos sociais

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 05h00

Na semana passada, 60 mil pessoas tomaram as ruas de Varsóvia em uma marcha convocada por grupos nacionalistas e de extrema direita para marcar o 99.º aniversário de independência da Polônia. Os gritos de “Polônia Branca”, “Sangue Puro” e “Queremos Deus” preocuparam o Parlamentou Europeu, que aprovou na quarta-feira, dia 15, a criação de uma comissão para avaliar possível ruptura do Estado de Direito no país. 

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Desde 2015, a Polônia é governada pelo Partido Lei e Justiça (PiS, na sigla em polonês), de Jaroslaw Kaczynski. A legenda assumiu no auge da crise dos refugiados na União Europeia e, uma vez no poder, rejeitou as cotas defendidas pela Alemanha para abrigar imigrantes do Oriente Médio e do Norte da África. 

Fortalecido pelo apelo popular da retórica anti-imigração frente à população polonesa, uma das mais homogêneas da UE, com a grande maioria composta por brancos e católicos, o PiS implementou uma série de reformas que causaram preocupação em Bruxelas, como a nomeação de partidários da legenda à Suprema Corte e a vinculação das nomeações ao Parlamento, a transformação da TV pública em órgão de propaganda do governo e a demissão de membros das Forças Armadas críticos ao partido. 

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“A inspiração do PiS é o populismo de direita e os métodos implementados no governo lembram muito a Hungria, de Viktor Orban, e a Turquia, de Recep Erdogan”, disse ao Estado Konstanty Gebert, analista do European Council on Foreign Affairs. “O discurso é populista e autoritário e ataca as elites e o Estado, falando em nome do ‘homem comum contra as elites corruptas.’”

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A agenda anti-imigração e nacionalista do PiS foi bem recebida pelos poloneses mais jovens. No total, 71% da população defende que imigrantes muçulmanos tenham a entrada proibida no país, segundo uma pesquisa divulgada no começo do ano pela Chantham House. Um outro levantamento, do Pew Research, feito em 2016, mostra que a Polônia está entre os cinco países europeus nos quais a população é majoritariamente contra o acolhimento de refugiados. 

Outro fator que explica o sucesso do PiS, no entanto, é o aumento dos gastos com programas sociais, possibilitado pelo bom momento da economia polonesa. No ano passado, o governo aprovou um projeto que prevê um pagamento do equivalente a US$ 140 para famílias com ao menos um filho e de 280 US$ para quem tem até três – uma espécie de Bolsa Família local.

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Num país onde o salário médio mensal equivale a US$ 500, programas de renda são um significativo aumento no poder de consumo das famílias. “O sucesso econômico da UE foi muito bom para o país. A Polônia foi um dos poucos países no qual não houve recessão após a crise de 2009”, acrescentou Gerbert. “Mas isso aumentou demais as expectativas com o governo anterior. E o PiS conseguiu usar isso a seu favor.”

Diante desse cenário, a popularidade do PiS tem subido. Se as eleições fossem hoje, a legenda teria entre 41% e 46% dos votos, o que lhe permitiria uma maioria folgada no Parlamento. A Plataforma Cívica, de centro, teria 16%. Ao longo da semana, o partido tentou se distanciar das acusações de extremismo e antissemitismo – a Polônia foi um dos países que mais sofreu com o Holocausto. Kaczysnki reconheceu que houve “incidentes lamentáveis” no protesto de sábado. O presidente polonês, Andrzej Duda, que não pertence ao PiS, considerou inadmissível a vinculação ao nazismo feita por deputados no Parlamento Europeu e garantiu não haver espaço para a xenofobia na Polônia. 

Apesar disso, o PiS continua sendo alvo de críticas por uma posição supostamente permissiva com a ação de grupos de extrema direita. Das 45 pessoas presas após a manifestação, segundo o Washington Post, nenhuma era da Juventude Polonesa – facção nacionalista ligada ao PiS. Todos eram militantes antifascistas. 

“Os slogans cantados nessa marcha eram racistas e antidemocráticos e o PiS está envergonhado pela marcha de sábado. Os manifestantes consideravam isso apropriado”, explica Gerbert. “Uma grande parte da opinião pública polonesa não vê problema em gritar que a Europa deve ser branca.”

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