Saul Loeb/AFP
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Como a campanha de Trump absorveu o Partido Republicano

Ao controlar dados de eleitores e criar um canal poderoso de pequenas doações, grupo tornou cada vez mais difícil a montagem de campanhas digitais e modernas sem o apoio do presidente

Danny Hakim e Glenn Thrush, The New York Times

17 de março de 2020 | 05h00

WASHINGTON — O coordenador de campanha do presidente Donald Trump e um círculo fechado de aliados assumiram o controle do sistema de arrecadação de fundos e coleta de dados de eleitores do Partido Republicano usando uma rede de empresas privadas cujas operações e propriedade são mantidas em segredo e não estão sujeitas a escrutínio federal.

Trabalhando sob o comando de Jared Kushner, genro do presidente, com a cooperação de indicados por Trump no Comitê Nacional Republicano, esses agentes consolidaram seu poder e acumularam recursos de uma maneira que não era possível antes. Desde 2017, as empresas associadas do grupo arrecadaram US$ 75 milhões para a campanha de Trump, para o Comitê Nacional Republicano e outros clientes republicanos. 

Ao controlar os dados de eleitores que integram o arquivo do partido e criar um canal poderoso de pequenas doações, a campanha de Trump e membros do partido tornaram cada vez mais difícil para os republicanos montarem campanhas digitais e modernas, sem o apoio do presidente.

O processo não se desencadeou sem atritos, acusações de formação de um império e de lucrar com o esquema foram feitas contra o coordenador de campanha Brad Parscale e seus aliados. A empresa de Parscale, a Parscale Strategy, faturou quase US$ 35 milhões para a campanha de Trump, para o Comitê Nacional Republicano e entidades relacionadas desde 2017, e a maior parte desse dinheiro, disse ele, foi passado para empresas digitais e de propaganda.

Além disto, as medidas para consolidar os dados dos eleitores foram tomadas a custo de um veículo de dados concorrente desenvolvido pelos irmãos Koch, ativistas conservadores, provocando resentimientos por parte dos aliados de Koch, especialmente no Senado. E uma feroz campanha de pressão para centralizar a arrecadação de fundos na nova plataforma, uma empresa sem fins lucrativos que Trump rotulou de WinRed, provocou dissensões.

Por tudo isto, a WinRed, criada no ano passado, se tornou um contrapeso para a ActBlue, empresa de arrecadação de fundos de pequenos doadores dos democratas. Com ela, os doadores podem contribuir online, bastando um pequeno clique, e os candidatos arrecadam o dinheiro por meio de apelos feitos em conjunto com o presidente. Nos seus primeiros seis meses, tirando proveito da indignação da base republicana com o impeachment, a WindRed arrecadou US$ 100 milhões.

O chairman da WinRed, Henry Barbour, é presidente de outro pilar importante da máquina republicana: o Data Trust, que armazena dados demográficos, pessoais e comerciais de eleitores, coletados dos arquivos mantidos pelo partido no plano estadual ou obtidos de corretores que operam com dados (ou da própria WinRed, que é também uma fonte vital de informações de doadores).

A Data Trust, empresa privada controlada por um conselho de membros do alto escalão republicano, forneceu grande parte da matéria prima que sustentou a supremacia do partido no âmbito da comunicação digital e envio de mensagens em 2016.

O grupo liderado por Parscale – incluindo Katie Walsh Shields e seu marido, Mike Shields, ambos chefes de gabinete do Comitê Nacional Republicano, e o ex-diretor digital do partido Gerrit Lansing, também esteve no comando da criação de inúmeros outros instrumentos políticos.

Parscale não quis comentar detalhes a respeito, mas ele e seus sócios afirmaram que as empresas privadas criadas deram a eles uma maior flexibilidade operacional diante das limitações das leis sobre financiamento de campanha. Os milhões vindos de empresas privadas veladas deixaram até o presidente muito preocupado de que Parscale e sua equipe estivessem arrecadando recursos excessivos para a campanha, de acordo com membros da Casa Branca.

A família Trump paira sobre toda a operação, a começar com Kushner. Embora suas funções na Casa Branca cubram todas as áreas, da imigração ao Oriente Médio, sua atribuição mais consistente tem sido como chairman informal da campanha de Trump, supervisionando o braço mais vital da nova empresa da família: a política.

Uma disputa por dados

Depois da fracassada campanha presidencial de Mitt Romney em 2012, o Partido Republicano divulgou um relatório interno de 100 páginas em que Reince Priebus, na época chairman do Comitê Nacional Republicano, fez a seguinte avaliação: “Nossa mensagem foi frágil. Nosso trabalho junto às bases locais e estaduais foi insuficiente. Não nos mostramos inclusivos. Estamos atrasados tanto em termos de dados como no campo digital”.

A equipe de Trump acatou o apelo por mudanças tecnológicas. Anteriormente, os partidos gastavam enormes somas em propaganda na TV, mas agora o Comitê Nacional Republicano decidiu se recriar em torno da Data Trust, empresa que ajudou a criar. A ideia era convincente: se os comitês e campanhas do partido, estaduais e nacional, fornecessem elementos armazenados em um único local, isto criaria um entendimento mais profundo dos eleitores. Se esse local estivesse fora do partido, os limites legais de arrecadação de campanha não seriam aplicados.

A oposição a essa transição partiu dos irmãos Koch e seu veículo de dados, o i360, que criava perfis de milhões de eleitores e era usado por inúmeras campanhas. Eles não foram os únicos a duvidarem do novo enfoque, preocupados de que o comitê estava levando as operações para sua empresa mascote.

A equipe do comitê no Senado ficou preocupada com um contrato de consultoria oferecido à Shields by Data Trust, devido à influência de Katie Walsh-Shields, embora ela tenha deixado por um breve período o Comitê Nacional Republicano em 2017. A Data Trust também precisava comprar novos arquivos de dados de eleitores estaduais e pagar seus funcionários e  proprietários de dados como a empresa de Shields. O partido injetou US$ 15 milhões na companhia.

Criando uma máquina de dinheiro

Pouco antes de os republicanos perderem o controle da Câmara, em 2018, Kushner reuniu um quadro de agentes no hotel da família Trump em Washington para debater a crescente ameaça ao presidente.

Os republicanos observam com alarme quando a ActBlue ajudou Beto O’Rourke, um obscuro congressista do Texas, a arrecadar mais de US$ 50 milhões para sua disputa com o senador Ted Cruz. Mega doadores alertaram Kuschner que em 20020 eles não compensariam o déficit do partido com os pequenos doadores.

Os republicanos tinham instrumentos de arrecadação de fundos, mas se os candidatos se unissem em torno de uma única empresa similar à ActBlue, eles levantariam recursos em conjunto e compartilhariam dados de contribuintes com mais facilidade. Mas muitos contestaram a ideia. Para Kushner e Parscale, que na época era o coordenador da campanha de 2020, somente uma empresa encarregada dos negócios era aceitável. Uma empresa chamada Revy, que já vinha processamento pagamentos para a campanha.

A Revy havia sido cofundada por Lansing. Em 2017, o Político reportou que, depois de assumir o cargo de diretor digital do Comitê Nacional Republicano, Lansing procurou incentivar as campanhas republicanas a usarem a Revy, ganhando uma soma de US$ 909.000 da companhia. Alguns veteranos do partido viram nisto um negócio promovido por ele em benefício próprio.

No verão de 2019, a WinRed foi criada em cima da plataforma da Revy, mas somente depois de negociações em que, no final, os representantes da campanha no Senado e os do Comitê Nacional Republicano estabeleceram restrições que impediam Lansing de vender a WinRed no futuro e intensificaram o controle de empresas que ele viesse a contratar.

A nova companhia foi uma joint-venture entre a Revy e a Data Trust, com 60% dos lucros indo para a Revy. Parscale, Kate Walsh-Shields e Shields não têm participações, de acordo com registros financeiros examinados pelo The New York Times.

Com ou sem uma participação na WinRed, assessores importantes se posicionaram no centro de uma formidável máquina política. A empresa de consultoria de Katie Waslsh-Shields recebe uma antecipação mensal de US$ 25.000 do Comitê e 1% a 5% do valor que arrecadar para a convenção do partido em 2020. A empresa de  Shields, a Convergence Media, representa clientes, entre eles o Comitê Nacional Republicano.

Mas Parscale tem sido com frequência foco de queixas de Trump, de que os envolvidos estão ganhando muito dinheiro com o seu nome e marca. Desde sua indicação como coordenador de campanha, Parcale comprou uma casa em Fort Lauderdale, Flórida, por US$ 2,4 milhões, dois apartamentos, dos quais é proprietário com sua família, juntos valendo US$ 2 milhões, e uma Ferrari.

Depois que um assessor rival deixou uma cópia sublinhada de uma reportagem do Daily Mail detalhando seus gastos na presidência, Trump convocou Parscale, segundo um funcionário da Casa Branca, para uma reprimenda.

Outros do seu círculo também fizeram compras. Lansing comprou uma casa em Washington por US$ 1,7 milhão, no ano passado, ao passo que Walsh-Shields e Shields compraram uma casa de praia na divisa da Flórida por US$ 2 milhões.


Temos o controle


Startups proliferaram em torno da campanha de Trump. Uma empresa chamada Excelsios Strategies dirigida por funcionários da empresa de Shields, a Convergence, foi contratada para arrendar a joia da coroa de Trump: sua lista de cerca de 20 doadores milionários. Shields disse que apenas a campanha lucrou com esse acerto.  E a Opn Sesame, startup de mensagens para o eleitor, administrada por Gary Coby, um protegido de Parscale, recebe US$ 200.000 a US$ 300.000 mensais através do Comitê Nacional Republicano, de acordo com registros de campanha.

Para abrandar as preocupações de Trump, dezenas de milhões de dólares de propaganda que outrora eram canalizados através da Parscale Strategy foram redirecionados para uma nova empresa, American Made Media, dirigida por um assistente de Parscale. 

Não há registros públicos detalhando a estrutura financeira da companhia. Parscale e outros assessores afirmam que não lucram com ela. Ele não forneceu dados da sua rede de empresas e disse que segue as diretivas de Trump, transmitidas pela presidente do partido Ronna McDaniel, que ganha entre US$ 700.000 e US$ 800.000 pelo seu trabalho de campanha. Mesmo para pessoas mais próximas, as atividades de campanha parecem veladas.

No fim do ano passado, o gabinete do vice-presidente Mike Pence marcou a primeira visita dele à sede da empresa. Mas no dia combinado, Parscale cancelou o evento, mesmo no caso de fazer parte do cronograma oficial de Pence. Essa visita não foi remarcada.

No momento, essas preocupações são tênues, uma vez que a campanha de Trump, o Comitê Nacional Republicano e outros comitês afiliados levantaram US$ 155 milhões nos três últimos meses de 2019, um aumento de 23% em relação ao trimestre anterior, estimulado pelo processo de impeachment.

Muitos parlamentares republicanos sucumbiram à campanha de pressão da WinRed. Um recente convertido foi o senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, que aprendeu a força de estar ligado à máquina de dinheiro de Trump, quando a WinRed inesperadamente enviou um pedido de arrecadação de fundos conjunta que resultou em somas equivalentes a “centenas de milhares de dólares num só dia”, disse Tim Cameron, assessor de Tillis e ex-diretor da área digital do comitê republicano do Senado.

Sem a vitória de Trump, “não existiria nada na escala da WinRed”, afirmou. “De repente há uma eleição e temos o controle dela”.

Tradução de Terezinha Martino

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