Pedro Pardo / AFP
Pedro Pardo / AFP

Como a caravana de migrantes se tornou uma estratégia eleitoral para Trump

Presidente dos Estados Unidos aproveitou o crescimento inesperado da caravana para tentar energizar as bases republicanas e impedir uma derrota nas eleições de meio de mandato nos EUA

Azam Ahmed, Katie Rogers e Jeff Ernst, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2018 | 05h00

O folheto mostrando um migrante solitário esboçado contra um fundo vermelho vivo começou a circular na mídia social de Honduras neste mês.Era um convite para as pessoas se juntarem a uma caravana, uma iniciativa de ativistas de esquerda e políticos que no passado ajudaram migrantes a viajar rumo norte. Mas também lançava uma faísca política ao responsabilizar o governo de direita pelo êxodo: “A violência e a pobreza estão nos expulsando”.

O que os organizadores não esperavam é que provocariam uma tempestade política internacional. Longe de Honduras, a Casa Branca estava ocupada com o assassinato de Jamal Khashoggi, um jornalista cuja morte dentro de um consulado saudita manchou a imagem da Arábia Saudita, aliada vital do governo Trump. Mas, com as eleições de meio de mandato se aproximando, o presidente Donald Trump estava ansioso para mudar o roteiro.

A caravana proporcionou a ele uma nova e politicamente vantajosa história para contar. Alimentar as ansiedades dos americanos sobre imigração foi um fator decisivo na campanha de Trump de 2016. Assim, os principais assessores do presidente, entre eles a secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, e o chefe de gabinete, JohnKelly, começaram a informar Trump sobre o avanço da caravana na semana retrasada, segundo altos funcionários da Casa Branca.

Em poucos dias, o presidente passou a usar o Twitter para atacar os migrantes, responsabilizando ainda os democratas pela caravana e ameaçando cortar a ajuda a governos da América Central. “Somos uma grande nação soberana. Temos fronteiras fortes e jamais aceitaremos que pessoas entrem ilegalmente em nosso país”, dizia um tuíte.

O que começou como uma disputa interna em Honduras – uma tentativa de enfraquecer o presidente reeleito, Juan Orlando Hernández, e chamar a atenção para a causa dos migrantes – rapidamente se transformou em confusão internacional, embaraço para Honduras, consternação regional e oportunismo político nos Estados Unidos.

Planejada inicialmente para ser uma caravana modesta de algumas centenas de pessoas, ela cresceu rapidamente para 7 mil, alimentada pelo desespero, pela cobertura das mídias locais e por um redemoinho de políticos regionais e americanos se juntando para transformá-la no maior movimento de migrantes para o norte, através do México, da história recente.

Nem mesmo os que ajudaram a incentivar o maciço deslocamento imaginavam que ele pudesse se expandir tanto, e tão depressa. “Nunca esperei que ficasse tão grande”, disse Bartolo Fuentes, defensor de migrantes e ex-parlamentar que ajudou a promover a caravana, iniciada 13 de outubro. “Talvez pudesse até reunir umas mil pessoas, mas tantas assim?”, espanta-se ele.

Para políticos esquerdistas como Fuentes e Luis Redondo, um congressista, a caravana é um meio perfeito de encorajar migrantes a viajar com segurança num grande grupo – e ao mesmo tempo de atacar o governo.

Após a polêmica eleição presidencial hondurenha de novembro, que a Organização dos Estados Americanos considerou problemática a ponto de pedir nova votação, as pessoas ocuparam as ruas em sangrentos protestos contra uma suposta apuração fraudulenta.

Apesar da controvérsia, o governo Trump apoiou oficialmente Hernández, aliado leal que colaborou com os americanos em seu primeiro mandato ao deter o fluxo de drogas e de migrantes através da fronteira. Com isso, Hernández tomou posse, mas continuou sendo acusado de corrupção e de concentrar poderes.

Determinados a denunciar o governo e apoiar os migrantes, membros da oposição hondurenha começaram a promover a caravana como exemplo do que acontece quando um governo falha com seu povo. Em Tegucigalpa, a capital, um destacado oposicionista foi à Embaixada do México e ameaçou despachar várias caravanas enquanto a situação em Honduras continuar a mesma, segundo dois altos funcionários mexicanos.

“Desta vez a mobilização vai ser tão grande que, quando virem tanta gente andando, vão as pessoas vão se perguntar: ‘De onde eles estão vindo, e quem é o responsável por tantas pessoas deixarem Honduras?’”, disse Redondo num post no Facebook no dia 5, no qual compartilhou o pôster da caravana. “Isso é consequência da corrupção, da falta de segurança, da impunidade; os responsáveis são os corruptos e corruptores que estão no governo.”

No placar, os opositores ao governo estão ganhando. Trump exigiu que Hernández detivesse a caravana, embora àquela altura os migrantes já estivessem na Guatemala e não ficasse claro o que Hernández poderia fazer. De novo, Trump ameaçou cortar a ajuda ao país se os migrantes não dessem meia-volta.

“Os Estados Unidos advertiram energicamente o presidente de Honduras de que, se a grande caravana que se dirige aos EUA não for detida e mandada de volta para Honduras, não haverá mais dinheiro ou ajuda americanas para Honduras, e isso tem efeito imediato”, tuitou Trump na segunda-feira.

Isso pareceu levar assustar o governo hondurenho. No que foi visto como uma tentativa de se esquivar de responsabilidades, o embaixador hondurenho nos Estados Unidos, Marlon Tábora Muñoz, mandou ao deputado Matt Gaetz, republicano da Flórida, um vídeo no qual jovens distribuíam dinheiro a migrantes em fila. Segundo Gaetz, Muñoz disse também que George Soros, ONGs americanas ou um cartel de drogas poderiam estar ajudando financeiramente a caravana.

As acusações foram mais tarde desmentidas e o vídeo não foi nem mesmo feito em Honduras, mas na Guatemala. Migrantes da caravana disseram a The New York Times que pessoas tentando ajudar deram pequenas quantias e que não foram pagos para engrossar a caravana.

Newt Gingrich, ex-deputado e conselheiro ocasional de Trump, estava entre os republicanos que acompanham o noticiário sobre a caravana, mesmo com a mídia global voltada para o caso Khashoggi.

Republicanos esperam que a crescente cobertura do movimento leve certos grupos de eleitores, como mulheres suburbanas brancas, a se afastar de candidatos democratas, principalmente se Trump conseguir ampliar o medo de gangues e drogas. Gingrich perguntou: “Se os primeiros 7 mil a 15 mil entrarem aqui, que mensagem isso traz?” E acrescentou: “Trump sabe que, na atual estrutura política americana, a campanha será polarizada”.

Fuentes e outros pretendiam causar embaraço a seu governo mostrando a caravana como prova de políticas domésticas equivocadas. Entretanto, acidentalmente eles ultrapassaram a meta, precipitando uma crise regional.

A cobertura da caravana e de seus efeitos colaterais políticos – em Honduras e nos Estados Unidos – tem sido intensa. Após acompanhar os migrantes até a Guatemala, Fuentes foi detido e mandado de volta para Honduras, onde se afastou dos holofotes com medo de retaliações do governo.

Fuentes disse que seu objetivo principal era ver Hernández fora do governo, mas ajudou a incrementar a caravana porque a rota do norte é perigosa. “Se você viaja num grupo pequeno, está caminhando para o desastre”, afirmou, acrescentando que a maioria dos migrantes se juntou à marcha por conta própria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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