Bruno Kelly / Reuters
Bruno Kelly / Reuters

Como a decadência de uma siderúrgica da Venezuela ajuda o Brasil a conseguir oxigênio contra a covid

Em meio ao grave surto em Manaus, Maduro atribuiu as remessas de oxigênio à solidariedade da classe trabalhadora de seu país. Omitiu, no entanto, porque o insumo está fartamente disponível

Maria Ramírez, Reuters

11 de fevereiro de 2021 | 10h00

CIDADE DE GUAYANA - Quando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou na semana passada uma segunda remessa de oxigênio para ajudar o Brasil a tratar pacientes com covid-19, ele atribuiu à "classe trabalhadora" da siderúrgica estatal Sidor o gesto de solidariedade.

Maduro se aproveitou dos envios para o Amazonas, cujos hospitais no mês passado ficaram sem oxigênio devido a um grave surto, para fazer um contraste entre o que ele chama de benefícios do modelo socialista da Venezuela e o direitismo radical do presidente Jair Bolsonaro.

Mas o presidente venezuelano não mencionou o motivo pelo qual a Sidor tinha oxigênio de sobra: a produção de aço, que usa o oxigênio como insumo, quase parou por completo na usina, após anos de declínios constantes desde a nacionalização da empresa pelo ex-presidente Hugo Chávez, antecessor do atual presidente.

“Se as siderúrgicas estivessem em plena produção, não haveria capacidade de enviar oxigênio”, disse José Luis Alcocer, trabalhador com 34 anos de serviço na Siderúrgica del Orinoco (Sidor).

Fornos de oxigênio são usados para fundir ferro e ligas em aço. Hoje em dia, no entanto, as instalações de aço da Sidor operam apenas intermitentemente.

A planta produziu 17 mil toneladas de aço líquido em 2020, menos de 1% de sua capacidade de 5,1 milhões de toneladas, de acordo com documentos da empresa vistos pela Reuters.

“Está tudo parado”, disse um trabalhador da fábrica, que pediu para não se identificar por medo de retaliação. “A única área operacional, que é a usina de pelotização, usa nitrogênio e não oxigênio.”

As disputas trabalhistas e a deterioração das instalações da usina por falta de investimento levaram à queda da produção desde que o governo a nacionalizou em 2008 do conglomerado siderúrgico Ternium, controlado pelo Grupo Techint, da Argentina.

A Sidor retomou as atividades de uma das plantas produtoras de oxigênio em abril de 2020, depois de ter ficado parada por mais de 15 meses. A siderúrgica passou então a fornecer oxigênio para hospitais nas proximidades da usina, perto de Ciudad Guayana, no Sul da Venezuela, às margens do rio Orinoco.

Como resultado, os dois principais hospitais da cidade têm suprimento de oxigênio suficiente no momento, disse Hugo Lezama, secretário de uma associação médica local. O sistema de saúde da Venezuela se deteriorou substancialmente nos últimos anos em meio a uma crise econômica, deixando os hospitais mal equipados para lidar com a covid-19.

Embora em Ciudad Guayana existam tanques de oxigênio em alguns hospitais, o mesmo não ocorre em outros centros de atendimento.

Por vezes, ocorrem interrupções no fornecimento de oxigênio no hospital Ruiz Páez, a cerca de 100 quilômetros a oeste de Ciudad Bolívar, afirmou Camilo Torres, vice-presidente de uma associação de enfermeiras de uma cidade próxima a Ciudad Guayana.

“Há pacientes que aguardam para serem operados, ou para entrarem na sala de cirurgia. Partos e outras intervenções de emergência são adiadas”, acrescentou Torres.

O Ministério da Informação não respondeu a um pedido de comentários.

A Venezuela, com uma população de cerca de 25 milhões de pessoas, relatou oficialmente cerca de 131.096 casos da covid-19 e cerca de 1.247 mortes, embora muitos políticos e médicos questionem os números. O Brasil, com uma população de cerca de 211 milhões, registra 9,5 milhões de casos e 231.534 mortes, o segundo maior nível atrás dos Estados Unidos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.