Gordon Welters/NYT
Gordon Welters/NYT

A esquerda moderada se inspira em Angela Merkel para voltar ao poder na Alemanha

Olaf Scholz se tornou favorito ao governo da maior democracia europeia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 15h00

BERLIM — Quando Olaf Scholz pediu aos seus companheiros social-democratas que o nominassem candidato a chanceler, alguns políticos de seu campo questionaram publicamente se o partido deveria se incomodar em encampar algum candidato.

O partido mais antigo da Alemanha não estava atrás somente dos conservadores da chanceler Angela Merkel, mas havia caído para o terceiro lugar, atrás também dos verdes, registrando humilhantes 14% nas pesquisas. Até junho, a mídia alemã definia a disputa pela sucessão de Merkel como uma corrida entre dois oponentes, os conservadores da chanceler e o ascendente Partido Verde.

Mas com a aproximação das eleições nacionais de 26 de setembro, Scholz e seu antes moribundo partido se tornaram inesperadamente os favoritos para liderar o governo da maior democracia europeia.

“É realmente emocionante ver a quantidade de cidadãos que confiam em mim para ser o próximo chanceler”, declarou recentemente um radiante Scholz a centenas de apoiadores durante um evento de campanha em Berlim, diante de uma tela gigante que proclamava: “Scholz vai dar conta”.

Dez meses depois de Joe Biden conquistar a presidência dos EUA para os democratas, existe uma chance real de a Alemanha ser liderada por um chanceler de centro-esquerda pela primeira vez em 16 anos. Desde o segundo mandato do ex-presidente Bill Clinton a Casa Branca e a chancelaria alemã não ficavam nas mãos de centro-esquerdistas ao mesmo tempo.

“O ambiente está simplesmente impressionante agora — quase não conseguimos acreditar”, afirmou Annika Klose, candidata social-democrata ao Parlamento que assistia à fala de Scholz. “Desde que entrei no partido, em 2011, os resultados das eleições foram cada vez piores.”

Não que os alemães tenham subitamente se voltado para a esquerda. Scholz, que foi ministro das Finanças de Merkel e vice-chanceler nos últimos quatro anos, é de muitas maneiras mais associado à coalizão liderada pelos conservadores do que com seu próprio partido. Dois anos atrás, ele perdeu a disputa pela liderança do partido para uma dupla esquerdista, que o atacou por seu centrismo moderado.

Mas Scholz conseguiu converter o que foi por muito tempo a maior responsabilidade de seu partido — cogovernar como sócio minoritário dos conservadores de Merkel — em seu principal trunfo: em uma disputa eleitoral sem candidato a reeleição, ele se projetou como candidato a reeleição — ou como o que há de mais próximo a Merkel.

“Os alemães são um povo pouco afeito a mudanças, e a saída de Angela Merkel já é basicamente mudança suficiente para eles”, afirmou Christiane Hoffmann, uma proeminente analista política e jornalista. “Eles são mais propensos a confiar em um candidato que promete a transição mais suave possível.”

Com 25% das intenções de voto nas pesquisas mais recentes, os social-democratas de Scholz ultrapassaram os verdes, que registram agora 17%, e os conservadores, que mal superam 20%. Mas analistas políticos apontam que essa vantagem dificilmente constituiria uma vitória convincente.

“Desde 1949, ninguém se tornou chanceler concentrando tão pouca confiança”, afirmou Manfred Güllner, diretor do instituto de pesquisas Forsa, referindo-se ao ano de fundação da República Federal da Alemanha, após a Segunda Guerra.

“Os eleitores alemães estão inquietos”, acrescentou Güllner. “Depois de 16 anos de chancelaria de Merkel, que proveu um certo senso de estabilidade, estamos em um ponto em que jamais estivemos.”

Durante a campanha, Scholz referiu-se com admiração à atual chanceler. Um astuto anúncio de TV de seu partido exibe a imagem dele diante de uma projeção de Merkel.

Scholz foi fotografado tocando as próprias mãos da mesma maneira que o “losango de Merkel” — emoldurando um diamante com os dedos — e usou a forma feminina em alemão da palavra chanceler em um pôster de campanha, para convencer os alemães que continuará o trabalho de Merkel mesmo sendo homem.

O simbolismo não é nada sutil, mas está funcionando — tão bem, na verdade, que a própria chanceler se sentiu compelida a reagir, mais recentemente durante o que pode ter sido seu último discurso no Bundestag.

Güllner, o especialista em pesquisas, afirmou que pelo menos parte do recente aumento de apoio aos social-democratas vem de eleitores de Merkel insatisfeitos com o candidato de seu partido, Armin Laschet, um governador conservador que se atrapalhou repetidamente durante a campanha.

“Não há um entusiasmo verdadeiro por Scholz na Alemanha”, afirmou Hoffmann. “Seu sucesso se deve principalmente à fraqueza dos demais candidatos.”

Ao contrário de seus rivais, Scholz não deu nenhum passo em falso na campanha. Ele assume poucos riscos e é equilibrado ao ponto de os alemães o apelidarem de “Scholz-o-mat” — ou “máquina Scholz”.

Apegar-se à mensagem de estabilidade também dificultou para seus oponentes atacá-lo por deslizes passados, apesar de alguns deles terem tentado. Como prefeito de Hamburgo, ele se reuniu a portas fechadas com um banqueiro que buscava um adiamento no pagamento de 1 milhão de euros em impostos, um episódio que se tornou parte de uma investigação pública, e foi durante o período que atuou como ministro das Finanças que a fraudulenta firma de fintech alemã Wirecard implodiu.

Mas isso mal veio à tona durante a campanha. E a popularidade de Scholz só fez aumentar.

Scholz era socialista nos anos 1970 e gradualmente amadureceu para uma posição centrista pós-ideológica. Primeiramente defendendo trabalhadores como advogado laboral, depois defendendo dolorosas reformas no mercado de trabalho e agora cogovernando ao lado de uma chanceler conservadora, sua jornada acompanha de muitas maneiras a de seu partido.

Em seus 158 anos de história, os social-democratas têm exercido uma força política formidável, lutando por direitos de trabalhadores, combatendo o fascismo e ajudando a moldar o Estado de bem-estar social no pós-guerra. Mas após três mandatos como sócio minoritário de Merkel, o eleitorado do partido tinha diminuído pela metade.

Gerhard Schröder, o último social-democrata a se eleger chanceler, conquistou 39% dos votos em 2002. Em 2005, quando os social-democratas entraram na primeira coalizão com Merkel, eles ainda detinham 34% do eleitorado; em 2017, essa fatia tinha diminuído para 20%.

Mas mesmo com seu partido afundado no seu ponto mais baixo desde o pós-guerra, Scholz se tornou um dos políticos mais populares da Alemanha.

Ajudou o fato de, enquanto ministro das Finanças, ele ter comandado os gastos do governo durante a pandemia. Após anos de apego religioso às elogiadas regras de orçamento equilibrado, ele prometeu uma “explosão” de investimento para ajudar as empresas a sobreviver à pandemia, destinando inicialmente 353 bilhões de euros, ou cerca de US$ 417 bilhões, a fundos de recuperação e assistência.

“Scholz tem carisma zero, mas irradia estabilidade — e abriu a torneira durante a crise econômica”, afirmou Andrea Römmele, diretora da Escola Hertie de Governança, de Berlim.

Se os números das atuais pesquisas se mantiverem, os social-democratas terminarão a disputa eleitoral em primeiro lugar, mas precisarão de outros dois partidos para formar a coalizão de governo. Um deles quase certamente seria o Verde. Quanto ao outro, Scholz praticamente já descartou o Partido de Esquerda, de extrema esquerda, e lhe restaria escolher entre os conservadores ou — mais provavelmente — os democratas liberais, favoráveis ao livre mercado.

Scholz deu algumas pistas a respeito de como seu governo seria diferente, mas as mudanças são relativamente modestas e poderão ser ainda mais diluídas por seus colegas de coalizão, preveem analistas.

Ele tentou cortejar seu núcleo partidário de eleitores da classe trabalhadora usando o lema “Respeito" como um dos principais slogans. Em seu discurso de campanha, ele enfatiza que pessoas ganhando o mesmo que ele não deveriam obter isenções fiscais. Em vez disso, ele quer diminuir os impostos das classes média e baixa e elevar modestamente a tributação de quem ganha mais de 100 mil euros ao ano.

Ele promete aumentar o salário mínimo para 12 euros a hora (em vez dos atuais 9,60 euros), construir 400 mil habitações por ano (em vez das aproximadamente 300 mil em 2020) e aprovar uma série de medidas em defesa do meio ambiente, apesar de não pretender livrar o país do carvão antes de 2038.

“Não esperaríamos que mudanças na tributação e no investimento se tornassem um grande estímulo fiscal adicional”, escreveu Holger Schmieding, economista chefe do Berenberg Bank, em uma recente análise a respeito do que a chancelaria de Scholz poderia significar para os mercados financeiros. Em uma coalizão com os verdes e os liberais, previu ele, “o pragmático Scholz provavelmente controlaria as inclinações esquerdistas” de sua própria base partidária.

Somente os conservadores, desesperadamente sob pressão, têm argumentado o oposto.

Mesmo Merkel, que afirmou querer ficar de fora da disputa, recentemente se sentiu compelida a se distanciar das desavergonhadas tentativas de Scholz de se mostrar como um clone dela.

Há “uma enorme diferença para o futuro da Alemanha entre ele e eu”, afirmou Merkel. /Tradução de Augusto Calil

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