Como a Europa pode ajudar Kiev

Crise ucraniana colocou em teste questões fundamentais para União Europeia, como identidade, fronteiras e poder

SYLVIE , KAUFFMAN , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2013 | 02h02

A União Europeia (UE) não dará à Ucrânia uma solução pronta para seus problemas, mas a Europa poderá ensiná-la a descobrir sozinha como resolver as questões.

Os acontecimentos na Ucrânia constituem um teste para a UE sobre quão fundamentais são as questões de identidade, fronteiras e poder da Europa. Além disso, a crise ressalta o fato de que o bloco não tem uma estratégia unificada em relação à Rússia.

Chocados pela decisão do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, sob pressão russa, de não assinar um acordo de comércio e associação com a UE, os europeus perceberam que estavam enganados quanto à sinceridade do líder. Eles superestimaram as consequências da proposta de uma "parceria com o Leste" (cujo objetivo era uma maior aproximação das ex-repúblicas soviéticas, mas sem oferecer o ingresso pleno à união), e subestimaram a determinação do presidente Vladimir Putin de manter a Ucrânia na esfera de influência da Rússia.

Esse episódio também tem a ver com o poder e a identidade da Rússia. Putin não desistirá tão facilmente da Ucrânia. O que a Europa poderá fazer? Não poderá comprar a Ucrânia, tampouco promover abertamente uma mudança de regime. Mas a Europa tem outros recursos.

Por exemplo, sua diversidade, embora frequentemente considerada um problema. Em 2004, o ano da Revolução Laranja de Kiev, a UE absorveu 10 membros, incluindo seis países outrora pertencentes ao Pacto de Varsóvia. Hoje, alguns dos seus mais novos integrantes - Suécia, Polônia e Lituânia - são atores importantes desse drama, cuja contribuição é extremamente valiosa para Bruxelas.

Além disso, do lado da Europa está a prosperidade. Em 1990, a Polônia tinha aproximadamente o mesmo Produto Interno Bruto (PIB) per capita de sua vizinha Ucrânia. Hoje, é três vezes maior.

A União Europeia é, acima de tudo, uma força em termos de democracia. Apesar dos seus problemas econômicos recentes, ela continua exercendo um formidável poder de atração para os países que estão de fora.

A Ucrânia não se tornará tão cedo o 29.º membro da União Europeia. Mas na Praça da Independência, a revolta mostra que deverá haver uma clara perspectiva de adesão ao bloco quando forem cumpridas as condições adequadas, mesmo que isso ocorra daqui a 30 anos.

Como os cidadãos de Kiev, a UE está preparada para uma longa jornada. Para isto, ela teria de ajudar a sociedade civil da Ucrânia a amadurecer com alguma abertura: por exemplo, fornecer aos ucranianos vistos e bolsas de estudo, e também prática no diálogo político, na solidariedade social e num governo limpo - coisas que os governantes da Rússia compreendem bem pouco.

Quando Yanukovich foi mendigar ajuda a Moscou, Putin ofereceu-lhe a solução dos seus problemas, na forma de empréstimos e de fornecimento de gás natural a preços baixos, no valor de US$ 15 bilhões, que o presidente ucraniano levou para casa satisfeito. A UE não oferecerá esse tipo de ajuda, mas poderá ensinar a Ucrânia a descobrir a solução por conta própria. Devemos isto a todos os manifestantes que aspiram ao ingresso na UE no frio da Praça da Independência. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-EDITORA-CHEFE DO 'LE MONDE'

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