Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Como a Lituânia criou um aplicativo para combater fake news russas

Software procura o provedor de notícias falsas, comumente espalhadas por matrizes da Rússia

The Economist, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 12h00

“Paciente zero” é um termo médico que começou como um mal-entendido. Uma das primeiras vítimas norte-americanas de AIDS foi mantida anônima em alguns documentos como “Paciente 0”. O indivíduo em questão, Gaëtan Dugas, um comissário de bordo canadense, era na época considerado o ponto de origem da epidemia de AIDS na América do Norte.

A leitura incorreta de 0 (para “Fora da Califórnia”, Outside California) como 0 (ou seja, zero), embora acidental no início, parecia propícia. De fato, Dugas não era o único ponto de origem da doença. Mas o termo foi aceito e se espalhou. De fato, ele se espalhou além da medicina para abranger outro tipo de epidemia – a da desinformação.

Demaskuok, que significa “desmascarar” em lituano, é um software que procura os pacientes zero de notícias falsas. Foi desenvolvido pela Delfi, um grupo de mídia com sede na capital da Lituânia, Vilnius, em conjunto com o Google, a grande empresa americana de tecnologia da informação.

Funciona peneirando a verborragia on-line em lituano, russo e inglês, pontuando itens pela probabilidade de serem desinformação. Então, rastreando o histórico on-line de relatórios suspeitos, tenta identificar o ponto de origem de uma campanha de desinformação - seu paciente zero.

Jogando ping-pong com o Kremlin

O Demaskuok.lt identifica seus suspeitos de várias maneiras. Uma é ao procurar por palavras que lembrem os temas que os propagandistas geralmente exploram. Isso inclui pobreza, estupro, degradação ambiental, deficiências militares, jogos de guerra, conflitos sociais, vírus e outros problemas de saúde, deslizes políticos, má governança e, ironicamente, a descoberta de enganos.

E como a desinformação eficaz agita as emoções, o software também mede a capacidade de um texto fazer isso. Itens com termos como “déficit em conta corrente” têm menos probabilidade de serem falsos do que aqueles que mencionam crianças, imigrantes, sexo, etnias, animais, heróis nacionais e injustiça. Fofocas e escândalos são dicas adicionais.

A verborragia sobre esportes e o clima têm menos probabilidade de provocar indignação, portanto o software classifica os itens sobre esses assuntos como menos suspeitos.

Outra pista é que a desinformação é criada para ser compartilhada. Portanto, o Demaskuok mede a “capacidade de viralizar” - o número de vezes que os leitores compartilham ou escrevem sobre um item.

A reputação dos sites que hospedam um item ou fornecem um link para ele fornece informações adicionais. O software ainda considera o timing da postagem de uma história. As notícias falsas são desproporcionalmente postadas nas noites de sexta-feira, quando muitas pessoas, incluindo os céticos, saíram para beber.

Os agentes da desinformação também podem ser descuidados. O Demaskuok, portanto, lembra os nomes das pessoas citadas em notícias falsas, pois elas às vezes surgem novamente.

Também realiza pesquisas de imagens para encontrar outros lugares em que uma foto foi publicada. Acontece que alguns apareceram pela primeira vez antes dos eventos que supostamente documentam. Outros também aparecem em sites com reputação de desinformação, como o RT e o Sputnik – ambos são agências de notícias apoiadas pelo governo da Rússia.

Esse tipo de desinformação patrocinada pela Rússia é uma espécie de fonte de irritação em todos os lugares, mas é particularmente comum na Estônia, Letônia e Lituânia - os três países que, em 1990, foram os primeiros a declarar independência da União Soviética, catalisando a desintegração dessa união.

Os estados bálticos, como costumam ser conhecidos coletivamente, exacerbaram o insulto ao ingressar na Otan e na União Europeia. A Rússia, o mestre controlador da antiga União Soviética, não perdoou nem esqueceu. Uma consequência é que os estados bálticos são alvos em particular de falsidades destinadas a confundir e desestabilizar.

O Demaskuok faz parte da reação. Foi aperfeiçoado desde que os jornalistas da Delfi começaram a usá-lo há um ano. Agora pode sinalizar não apenas invenções totais, mas também truques mais astutos que operam por exagero ou omissão.

Viktoras Dauksas, que dirige o Debunk.eu, uma iniciativa em Vilnius, criada em junho para desenvolver ainda mais a tecnologia, diz que agora às vezes consegue identificar “espelhos quebrados”. Este é o termo usado para desinformação, no qual os fatos são tecnicamente precisos, mas apresentados seletivamente para enganar. A desinformação russa, diz ele, tornou-se cada vez mais traiçoeira, com elementos verdadeiros habilmente “distorcidos para prejudicar a democracia”.

O Demaskuok é muito bom. Cerca da metade dos itens que sinaliza provam, sob cuidadosa análise humana, desinformação. Esse exame, portanto, é uma parte importante do processo.

Parte disso vem dos usuários do Demaskuok. Além da Delfi, incluem o Ministério das Relações Exteriores da Lituânia e uma série de veículos de notícias, grupos de altos estudos, universidades e outras organizações. Depois de estudar um item que o software considera desinformação, as pessoas nessas organizações dizem ao sistema se ele estava dentro ou fora da marca. Isso melhora o desempenho futuro.

O Demaskuok também tem o apoio de mais de 4.000 voluntários conhecidos como “elfos”. Cerca de 50 deles percorrem o feed de desinformação suspeita do Demaskuok, selecionando itens a serem verificados. Estes são enviados aos outros elfos para verificação de fatos. Os relatórios sobre as descobertas são redigidos pelos usuários do software e enviados por e-mail para redações e outras organizações, incluindo o Ministério da Defesa da Lituânia, que “desmascaram” tais posts por escrito ou em vídeo para o público.

Todo o sistema geralmente se move tão rápido que um elfo em Vilnius que usa o pseudônimo de “Vanagas” brinca que é como jogar “ping-pong no Kremlin”. Essa velocidade faz toda a diferença, diz Vaidas Saldziunas, um dos jornalistas da Delfi. Espere demais e pode não importar mais se você “eliminar o paciente zero, o vírus original”, diz ele. Se a narrativa falsa resultante sobreviver por tempo suficiente, ela poderá ganhar vida própria.

As autoridades dizem que o abundante descrédito cultivou um saudável ceticismo na maioria dos bálticos. Mas Eitvydas Bajarunas, do Ministério das Relações Exteriores da Lituânia, se preocupa com os efeitos da desinformação nos países mais a oeste, onde menos pessoas temem uma agressão russa.

Ele aponta para um relatório, em 25 de setembro, que afirmava falsamente que 22 soldados alemães haviam profanado um cemitério judeu em Kaunas, uma cidade 100 km a oeste de Vilnius. Caso se negligencie o corte dessa podridão pela raiz, diz ele, o apoio político na Alemanha para manter as tropas na Lituânia poderá vacilar.

Além disso, alguns temem mesmo que até o sucesso do Demaskuok possa estar nas mãos da Rússia. Rob Procter, professor de informática social na Universidade de Warwick, na Grã-Bretanha, apresenta um raciocínio preocupante.

O objetivo do Kremlin, ele sugere, não é tanto convencer os ocidentais que certas falsidades são verdade. Em vez disso, quer que seus adversários duvidem que qualquer coisa possa ser considerada verdadeira. Se esse for o objetivo, o software que aumenta o número de reportagens desmascaradas pode, paradoxalmente, ter o efeito oposto ao pretendido. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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