The Washington Post by Oksana Yushko
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Como a pandemia na Rússia mergulhou famílias de classe média e baixa na crise

Segundo instituições de caridade, o perfil das pessoas que lhes solicitam ajuda mudou e muitos não conseguem nem comprar comida

Robyn Dixon, The Washington Post*, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 04h00

MOSCOU - Ela ainda tem sonhos: criar uma médica, um engenheiro, um general e um atleta. Mas, quando a pandemia do coronavírus assolou a Rússia, levando empresas e famílias à falência, Yekaterina Gorbunova, seu marido, Alexander, e seus quatro filhos perderam quase tudo.

Nos momentos mais sombrios, ela chorou. Nos momentos mais esperançosos, escreveu ao presidente Vladimir Putin e ao gabinete do prefeito de Moscou pedindo ajuda para conseguir um apartamento. Mas nenhuma ajuda chegou a tempo.

“Nos sentimos absolutamente abandonados. É como se você estivesse num barco afundando e ninguém viesse socorrer”, disse ela, depois que o marido perdeu o emprego e a família foi despejada do apartamento. “Ninguém presta atenção às pessoas necessitadas”, disse ela. “Ninguém quer fazer o bem, ninguém se importa”.

A pandemia vem afundando as economias nesta que é a pior crise mundial desde a Grande Depressão. A Rússia foi particularmente afetada por um golpe duplo: o coronavírus e o colapso dos preços do petróleo. O país depende dos impostos do setor de petróleo e gás para cobrir 40% de seu orçamento.

Perfil diferente

Desde março, instituições de caridade e organizações sem fins lucrativos russas vêm observando uma mudança inédita no tipo de pessoas que atendem: famílias que nunca haviam enfrentado a ruína financeira, mas que agora estão desesperadas. Algumas dessas famílias não conseguem comprar nem comida. Várias ficaram desabrigadas.

Segundo a agência federal de estatísticas, a Rosstat, estima-se que 4,5 milhões de pessoas estavam desempregadas no final de maio. Prevê-se que a economia do país vai encolher 5,5% este ano.

Milhares de pequenas empresas faliram durante a crise econômica causada pela pandemia e pelo colapso dos preços do petróleo. O governo russo demorou a reagir, e medidas tardias e erráticas deixaram milhões de pessoas à 1deriva.

“Você está por sua conta”, disse Ivan Molchanov, soldador que passou vinte noites nas ruas depois que seu empregador suspendeu as operações e parou de pagar seu salário de 75 mil rublos (cerca de US$ 1.070) e de manter sua acomodação num albergue barato para trabalhadores. “Dormi em banheiros públicos”, disse ele. “Dormi no saguão de entrada dos prédios. Você segue as pessoas que moram lá, vê quando elas digitam a senha e guarda na memória”.

A Dom Druzei (Casa dos Amigos), uma organização de ajuda humanitária que normalmente oferece assistência médica apenas a pessoas sem-teto, instalou seis albergues em Moscou desde 22 de abril e iniciou a distribuição geral de cestas de alimentos.

“A quantidade de pessoas que pedem ajuda dobrou ou triplicou da noite para o dia”, disse Dmitry Aleshkovsky, fundador da Nuzhna Pomosh, uma fundação que arrecada dinheiro e apoia instituições de caridade e organizações não-governamentais em toda a Rússia. “Milhões, literalmente milhões de pessoas perderam o emprego num piscar de olhos”.

“Conheço um cara que ganhava 200 mil rublos por mês”, disse ele, uma quantia equivalente a US$ 2.857Za!. “De um segundo para o outro, caiu para zero. Não tinha dinheiro para pagar o aluguel e ficou desabrigado, de um segundo para o outro”.

Lana Zhurkina, fundadora da Dom Druzei, ficou impressionada com o caso de uma jovem esteticista de Moscou que tinha uma criança de 1 ano e meio e um salário “mais alto que a média”. Ela tinha a hipoteca de um apartamento em reforma e alugava um outro apartamento durante as obras. Mas, então, a pandemia fechou temporariamente o salão.

“Ela veio até nós pedindo ajuda para a comida, porque tinha chegado uma hora em que simplesmente não tinha comida em casa”, disse Zhurkina. “Demos comida e ela chorou, porque não conseguia entender como tinha acabado naquela situação”.

“Existem muitas histórias desse tipo”, disse Olga Lim, fundadora da fundação Chuzykh Detei Ne Byvayet para órfãos e famílias em crise de Khabarovsk, no extremo leste. Ela contou a história de uma jovem chef, mãe de duas crianças pequenas, cujo café fechou temporariamente.

“Uma mãe jovem, com dois filhos pequenos. Estava numa situação terrível quando cheguei com pacotes de comida. Tudo o que ela tinha era uma caixa de cereal, nada mais”.

Flexibilização 

Como a Rússia flexibilizou seu período de isolamento, algumas pessoas voltaram ao trabalho, entre elas a esteticista e a chef. Mas muitas pequenas empresas fecharam e acabaram com muitos empregos.

Alexander Gorbunov, de 42 anos, marido de Yekaterina, também de 42 anos, tem quatro filhos de 10 a 16 anos e trabalhava como gerente de uma empresa de caminhões. A firma fechou em março. Agora, ele aluga um carro e é motorista de aplicativo, sai de manhã cedo e volta cerca de duas horas da manhã.

A família morava em dois quartos pequenos de um apartamento compartilhado e estava na lista de espera para moradias populares em Moscou desde 2011. No ano passado, eles alugaram um espaço maior. Em março, mal conseguiam pagar o aluguel.

“Foi muito difícil. Mas não conseguimos arrumar dinheiro para abril e maio”, disse Gorbunova. “Esperávamos que a proprietária nos deixasse ficar. Ela disse: ‘Não estou nem aí para os seus problemas. Se você não consegue pagar, não quero você aqui’”.

Ela acrescentou: “Não conseguíamos pagar porque não tínhamos dinheiro. Entrei em pânico. Fiquei muito confusa, perdida. Quando a crise chegou, o estado não nos ajudou”.

O casal teve de pegar empréstimos no valor de 300 mil rublos (US$ 4.285) junto a dois bancos para cobrir as despesas. A Fundação Mercy da Igreja Ortodoxa Russa pagou o aluguel de abril e maio, o que possibilitou que as crianças concluíssem o ano letivo.

A filha de 16 anos do casal está tendo aulas extras de medicina. O filho de 14 anos está fazendo aulas extras de matemática avançada. A ambição do filho de 12 anos de idade é ser general do exército. E a do de 10 anos é ser um bom atleta. Agora eles estão morando temporariamente na casa de verão da sogra de Gorbunova, nos arredores de Moscou, sem saber para onde irão quando o ano letivo começar, em setembro.

Auxílio 

Putin muitas vezes prometeu ajudar as famílias com filhos, mas muitos se sentem abandonados. Durante a crise, as famílias receberam pagamentos de 10 mil rublos (US $ 142) por mês para cada criança com menos de 16 anos, mas Gorbunova disse que o pagamento não cobre as despesas semanais, mesmo sem o aluguel.

“Todas as famílias com muitos filhos se sentem assim”, disse ela. “O presidente Putin é uma boa pessoa. Mas, como muitas vezes acontece, a fortaleza está ruindo por dentro. Os vermes estão corroendo a fortaleza”.

A quantidade de russos que pediram proteção contra falência no primeiro trimestre aumentou 68% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com as notícias da RBC. Prevê-se que pelo menos 1 milhão de russos venham a declarar falência nos próximos meses. (Nos Estados Unidos, as falências comerciais cresceram 18% em março, em comparação a março de 2019, de acordo com o American Bankruptcy Institute, mas muitas outras falências foram registradas nos meses seguintes).

Mas, mesmo que muitas pequenas empresas e famílias de classe média estejam em dificuldades, a situação é muito pior para as famílias vulneráveis, os sem-teto e as pessoas de baixa renda, muitas das quais trabalham informalmente na “economia cinzenta”, uma categoria excluída da ajuda do governo.

No início da manhã, os sem-teto que dormem nos bancos dos jardins de Moscou se levantam com a chegada dos primeiros passeadores de cães. Eles conhecem a rede: o Burger King, onde podem esperar que os funcionários entreguem alimentos não utilizados; as instituições de caridade da igreja que distribuem alimentos e roupas; as filas de sopa em albergues e estações ferroviárias.

“A situação piorou muito”, disse Nikolai Rubanovskii, de Nochlezhka, que entrega comida a pessoas carentes e oferece ajuda jurídica aos sem-teto. “Nosso projeto em São Petersburgo tem um ônibus que distribui alimentos. Antes da pandemia, a fila tinha entre 60 e 80 pessoas. Agora tem 140”.

No final de abril, a polícia invadiu uma distribuição de sopa num parque perto da estação ferroviária Kursky, em Moscou. A polícia disse à agência de notícias Tass que a fila estava violando as regras que proíbem aglomerações.

No início daquele mês, outros voluntários que distribuíam comida na estação foram detidos. Aleshkovsky acha inútil esperar que o estado russo socorra as pessoas necessitadas. “É um país grande e rico”, disse ele. “Não entendemos por que estamos vivendo tão mal”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

* Natasha Abbakumova, do Washington Post, contribuiu para esta reportagem 

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