James Martin Center for Nonproliferation Studies/Middlebury Institute of International Studies at Monterey via The New York Times
James Martin Center for Nonproliferation Studies/Middlebury Institute of International Studies at Monterey via The New York Times

Como a peste bubônica ajudou a Rússia a combater o coronavírus

Planos de quarentena prontos e pessoal treinado para lidar com a peste tornaram-se um dos pilares da resposta regional ao novo vírus

Andrew E. Kramer / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 14h55

MOSCOU - Em um remoto prado alpino no Quirguistão, há alguns anos, um adolescente matou e esfolou uma marmota. Cinco dias depois, seus pais levaram o garoto suado e delirante para um hospital da vila, onde ele morreu de peste bubônica.

Como um fantasma do passado medieval, a praga ainda aparece ocasionalmente em regiões remotas da antiga União Soviética, onde sobrevive hoje em roedores selvagens.

Ao longo dos séculos, com a melhoria da higiene pública, a praga deixou de ser vista como uma ameaça. Hoje, por ser uma infecção bacteriana, é tratável com antibióticos, se diagnosticada a tempo.

Mas a praga ainda era uma ameaça letal na década de 20 e também um constrangimento para a União Soviética, que criou uma agência estatal especializada para rastreá-la e contê-la.

Os sucessores dessa agência ainda existem na Rússia e em meia dúzia de outros países que foram repúblicas soviéticas e, com seus planos de quarentena prontos e pessoal treinado, tornaram-se um dos pilares da resposta regional ao coronavírus.

É muito cedo para dizer se os antigos centros antipragas soviéticos, como eram chamados os locais, fizeram alguma diferença no surto de coronavírus, que até agora infectou mais de 21 mil russos, matando 170.

Na melhor das hipóteses, o legado do sistema soviético ajudou a retardar a disseminação, e é apenas um ponto dos dados para avaliar por que o coronavírus se propagou mais lentamente na Rússia, Ucrânia e outros ex-países soviéticos na comparação com a Europa Ocidental e Estados Unidos. Sorte, fechamento de fronteiras ou oficiais que encobrem o número real de mortes também podem explicar os números baixos.

De qualquer forma, as infecções estão aumentando agora, e esses países parecem seguir o caminho do resto do mundo em direção a hospitais e necrotérios. Mas os funcionários dos centros antipragas dizem que seu trabalho inicial ajudou, tornando-se um elemento importante para o prolongado problema de praga na região.

"É claro que ajudou" desde o início, disse Ravshan Maimulov, diretor de um serviço regional antipraga no Quirguistão, que examinou a vítima adolescente da peste quando morreu em 2013. Ele usou o mesmo plano de quarentena que havia instituído após a morte do garoto para lidar com a chegada do coronavírus a partir de março.

Quando o garoto de 15 anos chegou ao hospital da vila, "o corpo ainda estava úmido de suor e eu senti um inchaço nas axilas e no queixo", disse Maimulov. Mas o estado do garoto estava avançado demais para conseguir ser tratado e ele morreu em poucas horas.

Maimulov, de 57 anos, foi treinado em um instituto russo contra pragas chamado Microbe. Após a morte do garoto, ele tinha autoridade para iniciar imediatamente planos de bloqueio, mesmo que naquele momento eles tivessem apenas um diagnóstico parcial.

Ele transmitiu a notícia a um governador regional em código - eles precisariam implementar a "Fórmula 100" - para evitar que o vazamento da informação levasse à saída dos habitantes da vila, Ichke-Zhergez, que tentariam fugir antes do confinamento ser decretado. "Precisávamos impedir que todos fugissem", disse ele.

Na manhã seguinte, os postos de controle da polícia estavam instalados e a vila estava com as saídas bloqueadas.

 

Por sua recomendação, as autoridades da região vizinha de Issyk-Kul usaram a mesma abordagem em março ao usar bloqueios por conta do coronavírus. "Trabalhamos sob o plano operacional da praga", disse Maimulov em entrevista por telefone.

A região de cerca de meio milhão de pessoas registrou três casos de coronavírus, disse ele. O Quirguistão registrou cinco mortes.

A Rússia mantém 13 centros antipragas, do Extremo Oriente às montanhas do Cáucaso, 5 institutos de pesquisa de pragas e vários postos no campo. Em março, as autoridades transferiram novos equipamentos de laboratório para o centro antipraga em Moscou para expandir sua capacidade de testar o coronavírus.

O Instituto Microbe, originalmente dedicado inteiramente à peste bubônica, mas posteriormente expandido para combater outras infecções como cólera, febre amarela, antraz e tularemia, modela a disseminação do coronavírus.

Desde janeiro, diretores de centros antipragas da União Econômica da Eurásia (UEE), a aliança comercial liderada por Moscou entre Armênia, Bielorrússia, Casaquistão, Quirguistão e Rússia, realizaram teleconferências sobre o coronavírus. E um instituto de peste em Odessa, na Ucrânia, está entre as agências que respondem pelo coronavírus no país, disseram autoridades.

"O fato de a Rússia e os outros ex-estados soviéticos serem exatamente ex-estados soviéticos significa um legado comum", na área da saúde, disse Dmitri Trenin, diretor do Carnegie Moscow Center. Um legado de foco em epidemias ajudou, disse ele. Os serviços de saúde soviéticos tiveram sucesso casual no tratamento de indivíduos, mas "poderiam responder como militares a epidemias", observou ele.

Outros analistas dos antigos serviços médicos soviéticos dizem que, a longo prazo, o legado soviético não fará uma diferença tão grande. A capacidade de combater epidemias havia se degradado, enquanto pouco era feito para melhorar a capacidade de tratar pacientes, de acordo com Yevgeni S. Gontmakher, professor da Escola Superior de Economia e uma autoridade no serviço de saúde russo. "Os médicos que tratavam a peste eram a elite de cem anos atrás, não a de hoje", disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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