@nimsdai Project Possible/AFP
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Como a popularidade do Monte Everest aumentou sua letalidade

Emissão de número recorde de autorizações, muitas vezes para alpinistas sem experiência, e aumento dos 'caçadores de emoções' que tentam conquistar o ponto mais alto do mundo são alguns dos fatores que explicam mortes neste ano

Ankit Adhikari e Joanna Slater / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2019 | 14h12

KATMANDU - Chatur Tamang estava a caminho do ponto mais alto do mundo quando ficou preso em um "engarrafamento". À sua frente, na subida final ao Monte Everest, ele viu mais de 100 pessoas no estreito caminho que leva ao cume - uma região tão alta que é conhecido como a "zona da morte", onde o corpo humano sofre impacto rapidamente.

Algumas das pessoas que desciam do topo pediam desesperadamente àqueles que subiam para abrirem caminho para que eles passassem, já que estavam ficado sem oxigênio. "Isso me causou arrepios", disse Tamang, de 45 anos, um guia de montanhismo que mora na Rússia. Ele teme que se nenhuma ação for tomada, as filas no próximo ano possam ser ainda piores, e causar mais mortes.

Pelo menos 11 pessoas morreram tentando chegar ao cume da montanha mais alta do mundo este ano, a maior quantidade de vítimas desde 2015. Um fator que contribuiu para o número de vítimas deste ano pode ter sido a grande quantidade de pessoas tentando fazer o mesmo trajeto no pequeno intervalo de bom tempo disponível, causando atrasos que ampliaram o tempo gastos pelos escaladores em altitudes mortais.

Agora, as autoridades do Nepal estudam se farão mudanças na forma como funciona o acesso ao Everest. Especialistas dizem que o governo deveria ampliar o período de escalada no mês de maio ou implementar alguns pré-requisitos para os montanhistas, já que muitos não tem a experiência necessária e contratam empresas que oferecem expedições pelo menor preço em detrimento da segurança.

Nirmal Purja, um reconhecido montanhista que tenta conquistar 14 montanhas em todo o mundo em apenas 7 meses, estava no caminho de descida do Everest quando resolveu parar e fotografar a cena atrás dele. Estava mais frio do que o comum e a região estava lotada de pessoas.

"Já tinha visto tráfego (de pessoas em montanhas), mas nunca nada tão louco", disse Purja, que já chegou ao topo do Everest quatro vezes. Ele está entre os que acreditam que a solução é prolongar a temporada de escalada tradicional no Everest para que os alpinistas possam ser melhor distribuídos.

Neste ano, o governo nepalês emitiu 381 permissões de escalada, uma quantidade recorde. Mas pelo menos o dobro desta quantidade de pessoas se aventurou pela montanha, já que é padrão que cada alpinista contrate ao menos um guia para acompanhá-lo no trajeto até o topo do Everest.

Em razão da "multidão" de escaladores, alguns gastaram mais tempo do que o normal no caminho de subida da montanha. Um deles foi Nihal Bhagwan, de 27 anos, um indiano que morreu de desidratação, exaustão e mal da montanha, afirmou Keshav Paudel da Peak Promotions, a empresa responsável pela expedição de Bhagwan.

Bhagwan passou dois dias em dois pontos intermediários da escalada, embora ele devesse ter gasto apenas um em cada local, disse. Já fraco quando chegou ao cume, Bhagwan ficou totalmente esgotado enquanto descia, explicou Paudel, que atribuiu sua morte tanto ao tráfego quanto à exaustão extrema.

Entre os mortos neste ano estão outros dois indianos, dois britânicos, dois irlandeses e dois americanos, incluindo Christopher Kulish, um advogado de 62 anos que morreu na segunda-feira. Outras duas pessoas também morreram ao tentar a rota tibetana, segundo a agência de notícias Reuters.

Algumas pessoas envolvidas no ramo do montanhismo disseram que o que aconteceu no Everest na semana passada não foi anormal e serviu para lembrar que essa atividade envolve riscos que podem levar a morte.

"Se você está partindo para uma expedição ao Everest, não é menos perigoso que ir para uma guerra", disse Mingma Sherpa, da Seven Summit Treks. "(Escalar o Everest) é como alcançar a mais alta peregrinação. É como esperar pela sua vez fora de um templo", continuou, afirmando que às vezes atrasos são inevitáveis.

Outros viram o tráfego de aventureiros como uma indicação de como o Everest se tornou uma commodity, atraindo caçadores de emoções inexperientes e poluindo a montanha com lixo. "Escalar o pico mais alto do mundo se tornou uma experiência para (colecionadores de) troféus", escreveu o jornalista Peter Beaumont no The Guardian.

Apesar dos números, as autoridades nepalesas relutam em reduzir o número de alpinistas, que são uma fonte importante de receita para o país - cada expedição custa entre US$45 mil (R$ 181 mil) e US$ 130 mil (R$ 523 mil), sendo que apenas a taxa do governo custa US$ 11 mil (R$ 44 mil), segundo levantamento publicado pelo montanhista Alan Arnette em seu blog.

"O governo não pode simplesmente dizer não aos turistas que vêm pedir permissões", disse Acharya, diretor do Departamento de Turismo responsável pelo montanhismo. "Pessoalmente, sinto que (o problema) não é tanto o número de permissões mas sim o tipo de escaladores para os quais estamos emitindo as licenças." 

Depois que as expedições deste ano forem concluídas, Acharya disse que as autoridades analisarão os dados e determinarão como melhorar a questão. 

"A montanha é para todo ser humano", disse Purja, o alpinista que tenta chegar ao cume dos 14 picos mais altos do mundo. "(Mas ela tem que ser gerenciada corretamente."

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