Saul Loeb/AFP
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Como a relação de Trump com ‘líderes fortes’ influenciou sua política externa

Desde que chegou à Casa Branca, presidente americano cultivou relação de fascínio ambígua com autoritários

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 04h00

Desde sua chegada à presidência, Donald Trump cultivou uma relação de fascínio ambígua com vários líderes autoritários, simbolizada pelo aperto de mãos com Kim Jong-un, o tapa nas costas de Rodrigo Duterte e outros gestos amigáveis com Vladimir Putin, ou Recep Tayyip Erdogan.

O gesto mais inesperado ocorreu em junho de 2019, quando um sorridente Donald Trump trocou algumas palavras com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, durante uma reunião histórica na área "desmilitarizada" na fronteira das duas Coreias.

Os insultos dos primeiros meses na Casa Branca ao líder de Pyongyang foram gradualmente substituídos por palavras educadas e por uma cumplicidade assumida.

Kim Jong-un não é o único líder "forte" que Donald Trump bajula, preferindo criticar seus aliados tradicionais, como o canadense Justin Trudeau, o francês Emmanuel Macron, ou a alemã Angela Merkel.

"A diplomacia americana se meteu em problemas com Trump, uma figura que divide e que sente certo fascínio pelos regimes autoritários. A imagem internacional dos Estados Unidos se degradou consideravelmente entre seus aliados", afirma Patrick Chevallereau, membro emérito do think tank britânico Royal United Services Institute (RUSI).

Ao mesmo tempo, Trump apresenta Recep Tayyip Erdogan como "um amigo", elogia frequentemente a inteligência e a liderança de Vladimir Putin e fez elogios inclusive a Xi Jinping, apesar da dura batalha comercial entre Estados Unidos e China.

"Trump desde sempre esteve fascinado pelo exercício do poder. Ele inveja a forma como esses líderes fortes governam. A fraqueza o apavora", explica à Agência France Press Peter Trumbore, professor de Ciência Política da Universidade de Oakland, no Michigan.

"Ele observa líderes como Erdogan e Viktor Orbán usarem instituições democráticas para transformar seus Estados em regimes autoritários 'suaves'. É o que deseja poder fazer também", acrescenta.

"O poder da força"

Esse fascínio não é recente. Em uma entrevista à revista Playboy, em 1990, Donald Trump criticou que Mikhail Gorbachov não era "suficientemente firme".

Ele apenas ocultou sua admiração pelo "poder da força" do governo chinês durante a repressão mortal dos estudantes em Tiananmen um ano antes.

Se essa admiração pela autoridade está enraizada em seu temperamento, também tem certa lógica em nível político. 

"É uma diplomacia de aparências. Ele busca um avanço diplomático, ou, na verdade, busca mostrar ao seu eleitorado que é um presidente forte por fora?", questiona Maud Quessard, especialista em Estados Unidos no Instituto de Pesquisa Estratégica da Academia Militar de Paris.

"Trump não é um líder pró-multilateralismo, isso é certo. Mas não sei bem se ele realmente tem uma ideologia. Sua própria personalidade está no centro de qualquer assunto. Ele está no centro de tudo e, com essa posição de homem forte, somos necessariamente menos favoráveis à consulta", acrescenta Patrick Chevallereau.

Em nível diplomático, porém, os resultados dessa estratégia desde sua chegada à Casa Branca foram inconclusivos. "Os abraços e beijos com Kim Jong-un não tiveram um impacto real. A China está mais forte e mais influente do que há quatro anos", disse o ex-diplomata americano Brooks Spector.

E não será o coronavírus, do qual ele se recuperou, que suavizará o temperamento de Donald Trump: "Me sinto todo-poderoso", afirmou o presidente americano, assim que retomou sua campanha eleitoral na Flórida nesta segunda-feira, 19. /AFP

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