‘Como a Suíça, britânicos terão de costurar acordos com a UE’

‘Como a Suíça, britânicos terão de costurar acordos com a UE’

A Europa nunca mais será a mesma e líderes serão agora obrigados a dar uma nova resposta à população se não quiserem ver o fortalecimento da extrema direita e de movimentos nacionalistas. Quem faz a avaliação é a ex-presidente e ex-chefe da diplomacia suíça, Micheline Calmy-Rey. 

Entrevista com

Micheline Calmy-Rey, ex-presidente da Suíça e ex-chefe da diplomacia

Jamil Chade , CORRESPONDENTE / GENEBRA

25 Junho 2016 | 16h43

O Estado participou de uma conversa com a suíça, que deixou claro que não esperava pela saída do Reino Unido da União Europeia. Para ela, o voto precisa ser interpretado como uma “revolta do povo contra as elites”. 

Ao concluir o divórcio com a União Europeia, o Reino Unido vai se encontrar em uma situação muito parecida à que existe hoje entre a Suíça e o bloco europeu. Berna não faz parte da UE, mas costurou dezenas de acordos para ter acesso ao mercado europeu. Londres, segundo a ex-presidente suíça, terá de adotar a mesma “posição pragmática”. 

Foi sob seu mandato que a Suíça se aproximou da União Europeia e durante seu mandato ela desenvolveu a noção de “neutralidade ativa”, abandonando parte do comportamento de Berna de não se envolver nos temas mundiais. Pró-UE, Calmy-Rey insiste que o bloco europeu precisa mudar.

 

Agora, ela admite que o Reino Unido terá de negociar acordos com Bruxelas que podem ser muito parecidos aos que existem entre o governo suíço e a União Europeia. A seguir, os principais trechos da conversa:

Como a sra. avalia o impacto da Europa nas últimas décadas?

Devemos muito à Europa. Ela permitiu, por exemplo, que ditaduras como Grécia, Portugal e Espanha fossem desfeitas. Ela acalmou a rivalidade que existe entre França e Alemanha. Por isso, insisto que temos de reconhecer que devemos muito ao projeto europeu.

Então, como explicar a opção de uma população por deixar o bloco?

A votação foi sobre a globalização, a livre circulação de pessoas e de capital. Foi assim que as pessoas encararam o referendo. Na globalização, há quem ganhe. Mas existem perdedores. Gente que perde suas casas, seus empregos, sua forma de transporte e até sua identidade. Essa globalização, para uma parcela da população, coloca em questão quem você é, mas também sua renda. Ao longo dos anos, quem sempre ganhou foram as multinacionais. Mas quem sofre são as pequenas empresas, os artesãos. Por isso, sempre pedi que fossem adotadas medidas de proteção. São os mesmos argumentos que Donald Trump está usando para ganhar espaço, acusando mexicanos e a globalização. 

A sra. se surpreendeu com a decisão?

Ninguém estava preparado para o Brexit. Eu fui dormir tranquila na noite da quinta-feira, com as pessoas ao meu lado dizendo que venceria o campo que apoiava a continuação do Reino Unido na União Europeia. O que precisamos entender é que existe uma revolta do povo contra as elites. Um voto contra a perda de empregos e contra a austeridade. É assim que temos de entender o que ocorreu. 

Qual é o impacto dessa decisão em termos globais? Qual será a posição da UE no mundo?

Ninguém pode prever isso. Hoje não temos respostas. Vamos ter de esperar e ver o que ocorrerá com as negociações entre o Reino Unido e Bruxelas e como a União Europeia vai reagir diante disso. O que é certo é que a UE não vai ser mais a mesma. Ela será algo diferente do que foi até hoje. 

A sra. acredita que partidos de extrema direita possam sair fortalecidos diante do voto?

Não acredito. Mas tudo vai depender da reação da União Europeia. Se ela se ocupar e cuidar das pessoas e entender a mensagem que lhe foi passada, esses grupos não serão fortalecidos. Mas não podemos dizer isso hoje e teremos de esperar para ver a reação da União Europeia.

A opção dos britânicos fortalece a posição da Suíça fora do bloco?

A Suíça optou por acordos setoriais com a União Europeia porque a população afirmou que não queria fazer parte do bloco europeu. Somos um povo pragmático e, por isso, tentamos ter um acesso ao grande mercado europeu e tivemos de fechar acordos. O Reino Unido estará na mesma situação e terá de encontrar soluções pragmáticas para ter acesso a esse grande mercado.

A Suíça pode ser um modelo a ser seguido pelos ingleses sobre como se relacionar com Bruxelas?

Cada país é diferente. Não existe um modelo único para todos. 

A sra. acredita que a UE vai tratar Londres de forma dura nessas negociações?

Não acredito. Existem muitos interesses para que se encontre uma solução p

ragmática. Ninguém em Bruxelas tem interesse em ver o Reino Unido cair nos braços de asiáticos ou dos americanos. 
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