Como a Ucrânia deve tratar Yulia Tymoshenko

Ex-primeira-ministra pode não ser a escolha mais acertada para a presidência, mas sua ambiguidade e relações com a Rússia podem ser úteis ao país

Marc Champion*, Bloomberg /O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 02h02

Yulia Tymoshenko, a mais famosa prisioneira política da Ucrânia, apareceu como uma figura frágil e diminuta na saída da prisão, no fim de semana passado, para falar à multidão na Praça da Independência, em Kiev, numa cadeira de rodas. No entanto, não se engane: ela é dona de muita fibra.

O que fazer com ela será uma das inúmeras e complexas questões que a Ucrânia terá de resolver, supondo que o país não mergulhe antes na guerra civil. Ao ser libertada, Yulia afirmou aos repórteres ucranianos que pretende se candidatar às eleições presidenciais no dia 25 de maio. Posteriormente, entretanto, seus assessores informaram que ela não se decidiu.

É fácil perceber porque ela deve estar refazendo seus cálculos: o mundo mudou enquanto ela estava na prisão. O que ocorreu na Ucrânia nos últimos meses não foi a Revolução Laranja, graças à qual ela chegou ao poder, em 2004, mas algo que provocou mais indignação, mais dúvidas.

Yulia é carismática e provoca divisões. Seu passado de bilionária e "Princesa do Gás", nos anos 90, fez dela defensora de uma revolução contra a corrupção. Ela foi uma prisioneira política do antigo regime. No entanto, por ter sido duas vezes primeira-ministra, também é considerada parte do antigo regime. É odiada por alguns por estar muito próxima da Rússia e, por outros, por provocar Moscou. Enquanto outros líderes da oposição estavam ao lado dos manifestantes, ainda que sem pertencer ao movimento, ela permaneceu ausente, doente, atrás das grades.

No entanto, no momento em que a preocupação é de que figuras populistas de direita possam nascer das ruas para tomar as rédeas, provocando um conflito civil, talvez a Ucrânia precise de sua direção.

Enquanto frequentava a universidade, nos anos 80, Tymoshenko trabalhava empilhando pneus de trator da altura dela. Em 1989, quando o império soviético entrou em colapso e criou uma sociedade essencialmente desprovida de dinheiro, ela começou a trocar produtos pelo petróleo de uma refinaria.

Gás. Quando foi excluída do negócio pelo novo governo, Yulia decidiu tentar a sorte no setor de gás natural. A Ucrânia, na época, devia à Gazprom US$ 2,5 bilhões e a companhia russa estava emperrada, suprindo um país que não podia ou não queria pagar.

Ela vestiu uma minissaia, calçou botas de cano alto e foi falar com o então presidente da Gazprom em Moscou, Rem Vyakhirev. Saiu de lá com um acordo de compra de 20 bilhões de metros cúbicos de gás ao ano, cerca de 25% do consumo total da Ucrânia.

O fato de os US$ 80 por mil metros cúbicos que ela teria de pagar à Gazprom constituírem o mesmo preço de venda obrigatório às companhias ucranianas não a abalou. Como a economia do seu país era baseada no escambo, poderia ganhar dinheiro revendendo os produtos com os quais era paga. Ganhou muito dinheiro. E ganhou ainda mais quando o governador da região onde ela nasceu, Dnipropetrovsk, Pavlo Lazarenko, tornou-se primeiro-ministro e ela passou a vender gás para todo o país.

Quando falei com ela sobre isso, há alguns anos, Yulia não respondeu à pergunta se sua companhia pagara alguma propina a Lazarenko. Documentos apresentados durante o julgamento (e condenação) de Lazarenko na Califórnia por lavagem de dinheiro e fraude eletrônica sugeriram que a companhia de Yulia pagou US$ 100 milhões em comissões. Ela disse, entretanto, que abandonara essas táticas e agora procurava mudar o sistema, enquanto outros não fizeram isto.

Ambições. Seus rivais afirmam que ela entrou na política com o único objetivo de controlar o gás, pela possibilidade de lucrar com a posição da Ucrânia como país de trânsito. No entanto, acho que as ambições políticas de Yulia iam muito além do dinheiro. Sua casa, nos arredores de Kiev, era bonita, mas modesta em comparação com a residência de Viktor Yanukovich. Não havia zoológico, nem coleção de carros clássicos na garagem.

Ela admite que, quando ocupava o cargo de primeira-ministra e brigou com o ex-presidente Viktor Yushchenko, sua primeira tentativa fracassou em razão de sua excessiva agressividade. "Eu era a única guerreira em campo", disse.

Não acho que Yulia seja a escolha mais acertada para o cargo de presidente da Ucrânia. Ninguém, seja do lado pró-russo, seja do lado pró-europeu, conseguirá vê-la representando um novo começo. Vitali Klitschko, o ex-campeão mundial de pesos pesados, seria um candidato mais plausível. Ele é rico, persistente e está limpo.

Yulia Tymoshenko, no entanto, permanece uma força que valerá a pena aproveitar. Sua ambiguidade, como pró-União Europeia que fala russo e tem apelo na Ucrânia Ocidental, seu perfil no exterior e suas relações com Moscou poderão ser úteis.

*Marc Champion é editorialista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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