Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Como ajudar as crianças a se maravilharem, e por que devemos fazer isso

'Awe', que pode ser traduzido ao português como maravilhamento, é o que sentimos quando encontramos algo grande, surpreendente ou fora do nosso comum. E traz benéficos para o bem-estar físico, mental e emocional

Deborah Farmer Kris, Washington Post

25 de dezembro de 2021 | 05h00

Quando meu pai me acordou às duas da manhã, fui resmungando até o quintal e me sentei na colcha que ele tinha estendido para mim e meus quatro irmãos. Momentos depois, um raio de luz cortou o céu. E depois outro. E por horas a fio, até o sol iluminar o horizonte, assistimos à dança cósmica da chuva de meteoros das Perseidas.

Meu eu de nove anos de idade teria definido a noite como “uma maravilha”. É uma boa expressão para se escolher porque, em inglês, a palavra “awesome” tem um poderoso correlato emocional, “awe”. Esse estado, que pode ser traduzido para o português como maravilhamento, é o que sentimos quando encontramos algo grande, surpreendente ou fora da nossa referência comum. Algo que evoca uma sensação de mistério e admiração. Mas, considerando seus benefícios documentados, o maravilhamento talvez seja uma de nossas emoções mais negligenciadas e subestimadas.

O psicólogo Dacher Keltner, diretor fundador do Centro de Ciência para o Bem Maior da Universidade da Califórnia, Berkeley, passou anos estudando os efeitos benéficos do maravilhamento em nosso bem-estar físico, mental e emocional. “O maravilhamento nos deixa mais curiosos do que críticos. Nos deixa mais colaborativos. Mais humildes, altruístas e dispostos a compartilhar. Sossega o ego porque você para de pensar o tempo todo em si mesmo.” O maravilhamento também acalma as redes neurais do cérebro e já se provou que reduz inflamação. Em outras palavras, diz ele, não subestime o poder dos arrepios.

Agora que especialistas em saúde pediátrica estão alertando para a saúde mental das crianças, ajudá-las a ficarem um pouco mais maravilhadas, como meu pai fez naquela madrugada fria, pode fazer parte de nossa resposta coletiva para enfrentar o problema. É assim que os especialistas dizem que podemos infundir mais dessa emoção na nossa vida cotidiana.

Pegando leve com a infância

De acordo com uma pesquisa da Challenge Success, instituição ligada à Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, crianças e adolescentes precisam regularmente de PDFs – sigla que vem do inglês Play (tempo para brincar), Downtime (tempo livre) e Family Time (tempo com a família) – para viverem um desenvolvimento saudável. Essa prescrição corrobora as descobertas de Keltner.

“Como você encontra maravilhamento? Você aceita um tempo desestruturado. Você passeia. Você perambula por aí. Você sai sem objetivo”, diz Keltner. “Como você encontra maravilhamento? Você desacelera as coisas. Você abre espaço para o mistério, você se concentra mais nas perguntas que nas respostas. Você abre espaço para que as pessoas se envolvam com as humanidades, a dança, a música e as artes visuais.”

Infelizmente, a atual cultura de criação infantil, altamente estruturada e voltada para a competição, é “um fracasso em termos de maravilhamento”, diz Keltner. Se cada hora estiver repleta de atividades, pressões e obrigações, as crianças terão menos tempo para questionar as coisas, para divagar, para se sintonizar com suas emoções e seus arredores.

Como bônus, o sentimento de maravilha pode até ajudar o desempenho acadêmico. “Uma das minhas descobertas favoritas sugere que o maravilhamento pode estimular a curiosidade sobre o mundo”, diz o psicólogo Craig Anderson. Em um estudo com mais de 400 adolescentes do ensino médio, “quanto mais maravilhamento eles sentiam, maior era sua curiosidade e melhor o seu desempenho escolar”.

Como podemos sentir mais maravilhamento?

Você não precisa levar seus filhos ao Grand Canyon nem ir à Capela Sistina para se maravilhar, diz Keltner. As pessoas geralmente ficam maravilhadas quando passam um tempo na natureza, ouvem ou tocam música, vêm ou criam arte, refletem sobre grandes ideias, participam de rituais significativos ou desfrutam de experiências comunitárias que lhes dão a sensação de que fazem parte de algo maior do que elas.

Identificar sistemas e padrões, como uma harmonia musical ou a formação dos gansos em voo, também pode inspirar maravilhamento. “A mente maravilhada tende a captar esses sistemas de entidades complicadas e inter-relacionadas que trabalham juntas”, diz Keltner. “As pessoas ficam tipo, ‘meu Deus, olha só as cores desses corais. Estou maravilhada’. Elas gostam de olhar para as nuvens, que são sistemas complicados de gotículas de água. Hoje em dia, os Golden State Warriors estão jogando um ótimo basquete. Quando você fala com os torcedores, eles ficam tipo, ‘cara, você viu como eles se movem na quadra?’ Isso é um sistema.”

Às vezes, uma pequena reformulação pode transformar uma atividade cotidiana em algo mais benéfico, especialmente neste momento difícil da história. “Para a nossa cultura, neste momento de crise climática, estresse e covid, a pergunta mais importante é: ‘Como faço para encontrar maravilhamento ao meu redor? Quem sabe numa simples caminhada?”, diz Keltner. “Saia e descubra alguma maravilha na sua caminhada. Saia de casa, faça uma pausa, reflita, pegue leve.”

De fato, em um estudo de 2020, adultos de mais idade que fizeram “caminhadas de maravilhamento” semanais de 15 minutos durante oito semanas relataram um aumento nas emoções positivas e menos angústia em suas vidas diárias.

Na sua pesquisa sobre o maravilhamento, Anderson fez mais de uma dúzia de viagens de rafting com veteranos de guerra e adolescentes de comunidades carentes, um grupo que “relatou níveis mais elevados de sintomas (transtorno de estresse pós-traumático) do que veteranos americanos”, diz ele. Ele descobriu que experimentar maravilhamento propiciava uma melhora no bem-estar em ambos os grupos, até mesmo uma diminuição nos sintomas de transtorno e nos níveis de estresse. “O maravilhamento que sentimos ao ar livre realmente pode ser uma parte útil de nosso sistema de saúde”, diz Anderson.

Telas e redes sociais produzem ou limitam o maravilhamento?

É uma questão complicada, dizem Keltner e Anderson. Keltner observa que as telas geralmente servem como uma “porta de entrada para o maravilhamento, mas não uma experiência direta dessa emoção”. Elas podem nos ajudar a encontrar artistas, músicos e lugares que, de outra forma, não conseguiríamos descobrir. “Os protestos contra a morte de George Floyd, que foram muito inspiradores, vieram das telas”, disse Keltner. E filmes como Fungos Fantásticos, de Louie Schwartzberg, permitem que os espectadores observem o mundo natural de uma forma que não seria possível sem a tecnologia.

Mas a maioria dos aplicativos que usamos não é projetada para nos deixar maravilhados, diz Anderson. Nem priorizam nosso bem-estar. Em vez disso, “eles são projetados para nos prender na frente do aplicativo”. Além disso, a natureza de competição social das redes sociais corre na direção contrária da saudável “pequenez” que vem com o maravilhamento. Se você quer sentir os benefícios de “perceber coisas como as flores desabrochando ou a luz filtrada pelas folhas das árvores”, diz Anderson, “sua atenção não pode estar concentrada no celular”.

Será que conseguimos melhorar a sociedade?

Agora um dado que talvez seja surpreendente: a fonte mais comum de maravilhamento é a bondade das outras pessoas. “A bondade e a coragem”, diz Keltner. “Nós realmente temos essa capacidade de nos comover com as outras pessoas”. Fred Rogers fez uma famosa descrição de como essa fonte de maravilhamento pode ser uma proteção emocional para as crianças: “Quando eu era menino e via coisas assustadoras no noticiário, minha mãe me dizia: ‘Fique de olho nas pessoas que estão ajudando. Você sempre vai encontrar pessoas que estão ajudando’”.

Vários estudos descobriram que sentir maravilhamento pode fazer com que nos tornemos pessoas amáveis e generosas. Por exemplo, os participantes que olhavam para árvores lindas e imensas – em vez de prestar atenção aos prédios – tinham mais propensão a ajudar um desconhecido que derrubava seus pertences. Como diz Anderson: “Minha esperança é que o maravilhamento seja uma emoção que possamos alavancar para o bem maior de nossas comunidades, de nosso país e das pessoas de todo o mundo”.

Para muitos pais, apertar o pause para criar mais espaço para o maravilhamento exigirá alguns ajustes. Penso em todas as vezes que gritei para meus filhos se apressarem quando eles estavam, digamos, parados no meio da calçada, olhando para uma flor silvestre que tinha crescido por uma fenda. Mas quando você pede aos pais que se lembrem de suas experiências favoritas, eles geralmente falam sobre momentos tranquilos de maravilhamento: passear pelo parque, ver os fogos de artifício, ficar conchegado durante uma tempestade.

Recentemente, talvez tentando imitar meu pai, que amava a natureza, arrastei meus filhos para uma caminhada de outono. Eles também resmungaram, mas, depois de uma hora escalando pedras, chutando folhas e observando garças, um deles se virou para mim e disse: “Da próxima vez que eu não quiser vir, por favor me lembre deste sentimento”. E agora posso fazê-lo, porque esse sentimento tem nome.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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