Como avaliar um presidente

Líder americano precisa ser capaz de administrar uma montanha-russa de boas e de más notícias em um espaço muito curto de tempo

JOHN DICKERSON*, SLATE, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2012 | 03h04

Obama toma grandes decisões como George W. Bush um dia tomou. Reúne os principais conselheiros em volta da mesa, ouve suas sugestões e depois se retira para tomar a decisão final solitário. Foi assim que Bush ordenou a invasão do Iraque e Obama ordenou a morte de Osama bin Laden.

"The Loneliest Job" (o mais solitário dos empregos) é o nome da foto icônica de John F. Kennedy sozinho, olhando pela janela sul do Salão Oval. A imagem captou a presidência com tanta perfeição que Bill Clinton a pendurou em seu escritório privado. Ela representa uma verdade essencial: esse emprego se apoia no corpo e na mente de um único homem.

Em minutos, é preciso mudar: de um sorriso ao lado de campeões do voleibol universitário para uma decisão sobre arriscar a vida de um americano no front. Pouco importa o que estiver sentindo intimamente, ele terá de parecer confiante e otimista - quer a plateia seja o público votante ou seu próprio staff. Ele guarda segredos enormes - e geralmente não pode falar deles. (Obama não contou à sua mulher sobre o planejamento para o ataque contra Bin Laden). Um presidente tem de viver num mundo de constante incerteza, onde uma inércia ou uma ação precipitada podem levar à catástrofe e à ruína política.

O temperamento de um presidente é sua qualidade mais importante e a mais difícil de medir nos candidatos que almejam o posto. Está no cerne de todos os outros atributos principais. Um presidente não pode ignorar seus críticos a menos que seja autossuficiente. Não pode tomar decisões duradouras a menos que tenha valores fortes nos quais embasá-las. O jogo político requer paciência e a disposição de ignorar as próprias emoções. Não pode se adaptar a menos que tenha a maturidade emocional para aceitar as consequências.

Um presidente precisa manter aquele equilíbrio mental delicado em um dos ambientes mais distorcidos, artificiais e limitadores do mundo.

"São intervalos abençoados aqueles em que me esqueço de uma maneira ou de outra que sou o presidente dos Estados Unidos", escreveu Woodrow Wilson. Bill Clinton chamou a Casa Branca de a instalação mais agradável do sistema penitenciário federal. Seu tempo não é seu. Você tem criados, mordomos, assessores e guarda-costas observando cada dedo que você levanta, mas as coisas que realmente deseja - ação rápida no Congresso, anuência de um líder estrangeiro, um sorvete numa noite de verão - estão absolutamente fora do seu alcance.

Sob esse tipo de pressão, o presidente não conta tampouco com as ferramentas normais de relaxamento. Não pode dar uma caminhada por Georgetown. Não pode tomar um porre ou passar o domingo de moletom assistindo futebol americano no porão de um amigo. Se o presidente sai de férias no momento errado ou da maneira errada, enfrenta um inferno. Jogar golfe, só com moderação. Se você um dia gostou de manter um diário, seus advogados lhe dirão para parar. Diários pode ser requisitados judicialmente. Se o pegam se queixando em algum dia ruim, isso o definirá mais que uma centena de dias bons. "Ser presidente é como ser um jumento numa tempestade de granizo", disse Lyndon Johnson.

"Não há nada a fazer exceto ficar ali e aguentar o tranco." Não surpreende que Nixon ficasse falando com as pinturas nos corredores. Surpreende que mais presidentes não tenham sido vistos em suas roupas de dormir resmungando com seus botões. Talvez seja por isso que Ann Romney ponderou recentemente sobre seu marido ser presidente: "Acho que minha maior preocupação obviamente seria com seu bem-estar mental". Nada testa mais o temperamento de um presidente que os assuntos externos. Embora a atual campanha presidencial só recentemente tenha tocado nesse tópico, a falta do foco aponta para outra falha de nosso sistema eleitoral. Se arranjássemos nossa campanha em torno do que um presidente pode realmente controlar, não gastaríamos a maior parte do tempo falando da economia, na qual o presidente é um ator secundário.

Não é assim nos assuntos externos. Um presidente tem a última palavra nas decisões referentes a ataques militares, operações secretas ou em como tratar prisioneiros políticos. George W. Bush autorizou o uso de técnicas intensificadas de interrogatório prisioneiros. Barack Obama aprova pessoalmente cada ataque de avião não tripulado de um alvo terrorista importante. Quando o presidente atua como o principal diplomata do país, age quase inteiramente só.

Dúvidas. Para entender como um candidato trataria de questões de segurança nacional, deveríamos fazer algumas perguntas duras. Quais são as lições da guerra no Iraque? O Egito é um aliado? Em que momento um ataque militar ao Irã seria justificado? Essas questões de segurança nacional são importantes em si, mas também porque nos mantêm com foco no temperamento - a firmeza interna requerida pelo cargo. Um presidente, em grande parte, está só quando toma essas decisões. Será que ele tem o estofo para lidar com o peso dessas exigências? Será que se importa com direitos humanos? Liberdades civis? Em outras questões, ele pode ser contestado pelo Congresso e o público. Mas, no palco internacional, ele decide no que os Estados Unidos acreditam.

Por essa razão, Mitt Romney tem o direito de questionar as observações sussurradas pelo presidente Obama ao ex-presidente russo Dmitri Medvedev. "Sobre todas essas questões, mas particularmente a defesa antimísseis, isso pode ser resolvido, mas é importante que ele me dê espaço", disse Obama. "Essa será minha última eleição. Depois da eleição, terei mais flexibilidade." Ele seguramente terá e, se vai fechar acordos em nome dos americanos, eles deveriam saber disso.

Evidentemente, há muitas decisões em política externa sobre as quais os cidadãos dos EUA não deveriam saber. Para um presidente, a política externa é também um teste de sua capacidade de dividir as coisas - outro elemento-chave do temperamento.

Na noite anterior à operação que matou Bin Laden, o presidente Obama fez um pronunciamento durante o jantar da Associação de Correspondentes na Casa Branca. Contou piadas e pareceu estar se divertindo, um homem à vontade num mundo ameno. Mas ele estava à beira do momento possivelmente mais definidor de sua presidência. Não foi apenas nessa noite que Obama teve de agir assim.

Ele vinha fazendo isso havia semanas. Durante o processo da tomada de decisão para o ataque ao complexo de Bin Laden, o presidente estivera às voltas com uma paralisação do governo, um discurso importante sobre orçamento, o início de sua campanha presidencial, as loucuras sobre seu certificado de nascimento e o bombardeio da Líbia. Quem examinar sua agenda em um desses dias, verá que ele realizou um encontro de segurança nacional sobre a questão Bin Laden entre uma viagem a uma escola de ensino médio e uma visita do primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Loekke Rasmussen.

Obama foi regulamente acusado de ser mole demais com o Irã. Mas o que agora sabemos do livro Confront and Conceal, de David Sanger é que, desde o início do seu governo, Obama esteve intimamente envolvido em operações secretas contra a república islâmica. "Nunca, talvez, desde que Lyndon Johnson sentou-se na mesma sala, há mais de quatro décadas, escolhendo alvos de bombardeio no Vietnã do Norte, um presidente dos Estados Unidos esteve tão intimamente envolvido na escalada passo a passo de um ataque a uma infraestrutura de nação estrangeira", escreveu Sanger.

Lembre-se daquela cena do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa em que Woody Allen desmascara um fanfarrão atrás dele na fila do cinema? Um presidente poderia fazer isso quase todo dia com as informações secretas de que dispõe. Um presidente precisa ser capaz de manejar uma montanha-russa de boas e más notícias em tal sucessão que ele não pode chegar nem alto demais nem baixo demais. A angústia privada que Lyndon Johnson sentiu de perder o Vietnã acabou com sua presidência. Os diários do chefe de gabinete de Richard Nixon, H. R. Haldeman, mostra como as obsessões de Nixon o levaram a beber e os acessos de insônia o privaram de suas faculdades de raciocínio. "Eu estava preocupado com a sua condição", escreveu Haldeman durante os protestos sobre o Vietnã em maio de 1970.

"A decisão, o discurso, as consequências, as mortes, tumultos, imprensa, etc.; a coletiva à imprensa, o confronto estudantil, todos cobraram seu preço, e ele dormiu muito pouco durante um longo período e seu julgamento." Para aliviar a pressão, todos os presidentes tentam criar mecanismos para lidar com ela. Como o presidente Obama contou a Michael Lewis de Vanity Fair, ele teve de reconhecer que há um Barack Obama público que não tem a menor semelhança consigo. Ele precisa se dissociar de si mesmo. "Uma das coisas que você percebe com muita rapidez neste cargo é que há um personagem que as pessoas veem, chamado Barack Obama. Esse não é você." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É JORNALISTA

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