Como Chávez mudou meu país

Análise: Juan Nagel / Foreign Policy

O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h10

Hugo Chávez morreu como viveu: envolto em mistério, provocando caos e comoção e deixando uma marca indelével. Sua morte provoca um vazio nos corações de seus muitos seguidores, mas também deixa seus oponentes aturdidos. Chávez tornou-se parte tão essencial de nossas vidas, da minha vida, que sua morte foi um golpe.

Comecei a escrever sobre Chávez em 2004. Naturalmente estava profundamente preocupado com o que ocorreria na Venezuela. Surgiu, então, a oportunidade de escrever para o Caracas Chronicles, um blog respeitado da oposição.

Claro que houve coisas boas. Chávez tirou muita gente da pobreza, graças em parte ao boom do petróleo que ainda continua. E o mais importante, o que certamente não faz parte deste boom - ele fez com que milhões de pessoas se sentissem valorizadas. Habilitou as pessoas levando-as a entender que conseguiriam fazer qualquer coisa - aprender a ler, conseguir assistência médica, conquistar um diploma do ensino secundário. Não importa se os efeitos reais da sua política são questionáveis, o fato é que seus partidários sentiam que estavam progredindo, o que é algo real e poderoso.

Muitas pessoas ao lerem este artigo poderão pensar "isso tudo parece uma maravilha, então porque sua oposição a Chávez?"

Bem, tem muito a ver com estilo. E era com estilo que Chávez mais se preocupava. Ele ajudou os pobres e os fez se sentir mais capacitados, mas às expensas de todos. Os pobres, afirmava, são pobres porque alguém se apoderou do seu dinheiro.

"Ser rico é ruim" tornou-se seu leitmotiv e significava algo que acabamos entendendo: qualquer pessoa da classe média ou alta, com pele clara e alguma formação é seu inimigo e não pertence a este país; E assim, nasceu uma obsessão. Cada discurso bombástico em que ele degradava todos, desde líderes estrangeiros até opositores, tornou-se motivo de preocupação. Cada repúdio de pessoas que discordavam dele era chocante, e foi o que nos mobilizou. Pessoas foram presas por razões políticas. Chávez comandou a vida da Venezuela como poucos antes dele. Mas, então, ele adoeceu. Todo o poder e o dinheiro no país não conseguiram derrotar o único inimigo que não pode ser silenciado. Agora que ele parte, o vazio que deixa é enorme.

Chávez pode ter vencido todas as eleições do mundo e esfregado isso em nosso rosto, mas sobrevivemos a ele. Que descanse em paz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.