Jonah Markowitz/The New York Times
Jonah Markowitz/The New York Times

Como classe social afeta demissões relacionadas à covid-19 pelo mundo

Superexposição de trabalhadores de baixa renda ao trabalho presencial e de contato com outras pessoas criou duplo risco para os menos ricos: ameaças maiores de danos físicos e econômicos.

Jonathan Rothwell, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 20h00

NOVA YORK - Nos Estados Unidos e em muitos outros países, adultos de baixa renda e com menor escolaridade foram afetados economicamente pela pandemia do novo coronavírus.

Mas a relação entre classe e covid-19 não é inevitável: ela não existe em algumas das sociedades mais igualitárias da Europa e da Ásia, de acordo com uma nova pesquisa global da Gallup, realizada entre julho de 2020 e março de 2021.

Globalmente, 41% dos trabalhadores na faixa dos 20% mais pobres na distribuição de renda de seu país disseram que perderam seus empregos ou negócios como resultado da pandemia, em comparação com 23% dos trabalhadores na faixa dos 20% mais ricos. Esse abismo na perda de empregos é semelhante entre os que têm diploma universitário (16% que perderam o emprego ou fecharam empresa) e os que não têm (35%).

A diferença na vulnerabilidade econômica está fortemente relacionado ao nível predominante de desigualdade de renda que se intensifica na pandemia. Nos países economicamente mais igualitários (conforme medido pelo coeficiente de Gini para renda familiar), os trabalhadores com rendas mais baixas e menos escolaridade foram protegidos do desemprego em massa, em parte por meio de políticas nacionais que buscavam evitar a perda de empregos.

O que sabemos sobre classe x covid-19

Os especialistas em saúde pública há muito entenderam que o status socioeconômico está intimamente relacionado às condições de saúde e à suscetibilidade a doenças contagiosas. Evidências de uma série de países - incluindo EUA, Inglaterra e França - mostram que a covid-19 causou um maior número de mortes em comunidades de baixa renda e entre negros e algumas minorias étnicas.

Esses abismos parecem ser em grande parte resultado de exposições geradas por meio do trabalho, e não pela não conformidade com as diretrizes de segurança. Os negros nos EUA têm mais probabilidade do que os brancos de realizar distanciamento social e usar máscara, mas no início da pandemia eles tinham cerca de 30% mais probabilidade de trabalhar em empregos que exigiam proximidade física, de acordo com pesquisa que será publicada em breve nos Anais da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais.

A divisão com base na renda é ainda mais acentuada: os trabalhadores no terço inferior da distribuição de renda tinham quatro vezes mais probabilidade de estar em um emprego que exigia proximidade física do que aqueles nos 10% da parte superior. Exceto no caso de médicos e algumas outras profissões, trabalhadores altamente escolarizados raramente precisam estar em contato direto com outras pessoas.

Duplo risco

A superexposição de trabalhadores de baixa renda ao trabalho presencial e de contato com outras pessoas criou duplo risco para os menos ricos: ameaças maiores de danos físicos e econômicos. Nos EUA, por exemplo, a taxa de desemprego para trabalhadores em empregos de preparação de alimentos e serviços relacionados aumentou de 5,5% em 2019, para 19,6%, a 2020, quando as pessoas pararam de comer fora.

Em todo o mundo, lockdowns e distanciamento social devastaram empregos de baixa renda que exigiam menos escolaridade. Em 103 dos 117 países apresentados na pesquisa da Gallup, os trabalhadores de locais onde a distribuição de renda familiar era menos igualitária experimentaram taxas de perda de emprego significativamente mais altas do que aqueles em nações mais igualitárias. Pessoas com diploma universitário se saíram significativamente melhor do que aquelas com menos de 16 anos de educação em 97 dos 118 países e territórios.

Trabalhadores sem diploma universitário em países de baixa renda tiveram o pior desempenho, apesar de tenderem a viver em áreas com uma taxa de mortalidade por covid-19 muito mais baixa durante o período de coleta da pesquisa do que em países de alta renda da Europa e da América do Norte. Mais de dois em cada três trabalhadores sem diploma universitário perderam seus empregos ou negócios como resultado da covid-19 nas Filipinas e no Quênia, embora as taxas de mortalidade per capita fossem 7% e 2% da taxa nos EUA.

Mais da metade das pessoas sem diploma universitário perderam seus empregos no Zimbábue, Tailândia, Peru e Índia. As taxas de perda de emprego ou negócios foram de pelo menos 10 pontos percentuais inferiores para trabalhadores com ensino superior nesses países.

Embora os danos econômicos tenham sido geralmente piores em países de baixa renda, os EUA chamam a atenção entre as democracias de alta renda por enfrentar grandes perdas de empregos e um grande abismo entre trabalhadores com e sem diploma universitário. Entre os 31 países-membros da OCDE na pesquisa, os EUA tiveram a terceira maior diferença na perda de empregos entre aqueles com e sem diploma universitário (8 pontos percentuais), ficando atrás de Chile e Israel.

Mantendo empregos

Países mais igualitários tendem a ter populações mais confiantes, mostram pesquisas, criando condições que parecem levar à cooperação e à ação coletiva efetiva.

É possível que autoridades eleitas em países mais igualitários sejam mais propensas a criar políticas para proteger os trabalhadores de demissões - como foi o caso da Dinamarca, Holanda e Nova Zelândia, que estão entre aqueles com menores medidas de desigualdade global, assim como Irlanda, Austrália e Grã-Bretanha, embora estes apresentem um pouco mais de desigualdade.

Essas políticas direcionaram apoio financeiro a empresas afetadas pela pandemia para evitar demissões. Outros países mais igualitários - como França, Alemanha e Suíça - aproveitaram e expandiram os programas existentes de subsídio ao empregador, concebidos para manter os empregados vinculados aos empregadores.

Nenhuma dessas políticas foi adotada no Chile ou em Israel, enquanto o governo dos EUA criou um programa de auxílio financeiro para ajudar empresas e profissionais autônomos durante a pandemia. O programa compartilhava características com as políticas bem-sucedidas da Europa, mas chegou tarde demais para evitar demissões em massa, como descobriram os economistas do Federal Reserve, com muitas complicações administrativas e de elegibilidade.

Ainda assim, mesmo com essas limitações, as demissões nos EUA teriam sido drasticamente piores sem ele, de acordo com análises de economistas do Departamento do Tesouro dos EUA. O governo federal americano expandiu amplamente os gastos de outras maneiras para diminuir os danos aos demitidos, como seguro-desemprego subsidiado e pagamentos diretos a famílias de baixa e média renda.

Mas há um bom motivo pelo qual é melhor não ser demitido em primeiro lugar: as evidências de recessões anteriores mostram que milhões de trabalhadores demitidos nunca retornarão ao emprego anterior.

Além disso, dados recentes da pesquisa sobre o mercado de trabalho realizada pela Gallup mostram que as pessoas que foram demitidas por causa da pandemia e recontratadas tiveram uma grande queda na satisfação com o trabalho e continuaram a ter dificuldades para pagar as despesas mensais. Globalmente e nos Estados Unidos, a pesquisa mundial mostra que aqueles demitidos por conta da pandemia eram significativamente mais propensos a relatar um declínio em seu padrão de vida em relação ao ano anterior. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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