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Gilles Lapouge
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Como derrotar o exército de ‘zumbis’ do Estado Islâmico?

Governos e sociedades do Ocidente têm de encarar o fato de que novas ideias sobre a própria natureza da guerra são necessárias

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 22h53

França está em guerra, disse o presidente François Hollande e seu primeiro ministro Manuel Valls repetiu: “Estamos em guerra”. Não é exato. É o Estado Islâmico (EI) que está em guerra. E a França sofre essa guerra.

A pergunta complexa é essa: como um país pode responder a uma força que lhe faz a guerra se ele próprio não está “em estado de guerra”? Todas as acrobacias da França ao longo do dia são explicadas pela assimetria dessa guerra que um dos lados trava enquanto o outro não está oficialmente em estado de guerra.

Esse desequilíbrio beneficia o agressor, assegurando flexibilidade e surpresa. Há um ano, o EI evitava, salvo em casos quase “pessoais” como o do Charlie Hebdo, atacar um “inimigo distante”. O grupo visava ao inimigo próximo, ou seja, xiitas e regimes árabes ímpios. Agora, sai da solidão e semeia a morte no país do inimigo distante.

Um segundo trunfo que o EI tem em mãos é de outra estirpe. Ele atinge a psicologia do ser humano. Durante a guerra de 1914, ou a de 1939, os alemães, ingleses, franceses e americanos se matavam sem fim, mas compartilhavam emoções semelhantes. O soldado inglês tinha medo, como também tinha medo o soldado alemão. A morte de um camarada levava seus amigos a chorar, tanto entre alemães quanto entre americanos.

Nada disso se verifica entre os combatentes do EI. Eles conseguiram criar uma psicologia desconhecida. Um exemplo: geralmente, um homem, mesmo um gângster, um bandido, ao cometer um crime procura não ser descoberto e quando é capturado vai negar seu crime. No caso do EI, é diferente: não só o militante não nega o crime que cometeu, mas o reivindica e insiste em mostrar que esse crime é horrível e atroz: decapitações etc.

Coroando esse edifício psicológico monstruoso, o uso de uma arma nova e absoluta: a morte voluntária como martírio. E os jornais ocidentais continuam a dizer estupidamente que os membros do EI são covardes.

Não, eles não são covardes. Pelo contrário. Possuem uma coragem incrível. Uma coragem repugnante, desumana, sem limite. E contra um soldado que dispõe, entre suas armas, da sua própria morte, ninguém consegue lutar. Ora, está claro que o EI possui um enorme arsenal de camicases, jovens fanáticos, montados como robôs e absolutamente nada os intimida. Um exército de zumbis, regimentos de mortos-vivos, batalhões de suicidas. Nenhum exército clássico consegue vencer esses combatentes que surgem de repente de um outro mundo além da realidade.

Labirinto. Seguramente, a França e o Ocidente têm razão em proclamar que os bárbaros não lhes dão medo. Muito bem. Mas é uma mentira. Ontem, havia uma multidão na Praça da República, em Paris, exatamente para demonstrar que não tinha medo. Mas correu um rumor de que o EI estava atacando novamente. Em um segundo, a praça ficou deserta. 

Todas essas pessoas sem medo fugiram como coelhos, a uma velocidade supersônica. E como seria diferente? A verdade, na guerra como na paz, é um ingrediente essencial. A verdade é que o EI causa medo ao homem, à civilização, à humanidade. Por que mentir? O problema de fato é saber se conseguiremos superar esse medo.

Tudo isso para dizer que, se respondermos à guerra com a guerra, é preciso em primeiro lugar que os dirigentes, os estrategistas e também os soldados compreendam que nesse episódio da história enfrentamos um inimigo totalmente enigmático, que não tem o comportamento, as ideias que, em toda a história, os inimigos mais ferozes adotavam. É esse o desafio quase desumano que representa o EI. 

Essas observações têm a finalidade de esclarecer o debate que certamente terá inicio agora e, ao que parece, foi começado pelo G-20 reunido na Turquia, mas de modo obscuro: teremos de mudar radicalmente toda a estratégia do Ocidente? Será preciso responder à guerra do EI com a guerra ou por meio de modificações da Constituição francesa? Eu me abstenho de responder a essas perguntas. Mas estou certo de que esse debate será iniciado e ele é necessário. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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