Como derrotar Obama

Ao contrário do que indica o senso comum, a política externa americana - marcada pela ingenuidade e fraqueza nas relações internacionais - não é o ponto forte do candidato democrata

É EX-VICE-CHEFE DE GABINETE DE GEORGE W. BUSH, É EX-ASSESSOR DE GEORGE W.BUSH, KARL ROVE &, ED GILLESPIE, FOREIGN POLICY, É EX-VICE-CHEFE DE GABINETE DE GEORGE W. BUSH, É EX-ASSESSOR DE GEORGE W.BUSH, KARL ROVE &, ED GILLESPIE, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2012 | 03h04

Numa eleição americana em que o foco é a economia deplorável e a alta taxa de desemprego, o que se acredita hoje, de modo geral, é que a política externa seria um dos poucos pontos fortes de Barack Obama. Mas o presidente também está surpreendentemente vulnerável nesse campo. E o candidato do Partido Republicano nas eleições poderá atacá-lo exatamente no ponto em que Obama considera, erroneamente, ser sua maior força, traduzindo as críticas da ala de centro-direita à atual política externa em temas de campanha e ação. E aqui está como derrotá-lo.

Em primeiro lugar, o candidato republicano deve adotar um tom nacionalista e confiante. Enfatizar o excepcionalismo americano, expressar o orgulho no país como uma força para o bem do mundo e preconizar uma nação que seja novamente respeitada (e, em algumas áreas, temida) como potência global dominante. Obama age como se os Estados Unidos fossem um gigante de pés de barro, um erro que os eleitores já se deram conta. Afinal, esse é o presidente que disse: "Eu acredito no excepcionalismo americano, como também suspeito que os britânicos acreditam no excepcionalismo britânico e os gregos no excepcionalismo grego".

Os eleitores também acham que ele está satisfeito em administrar o declínio dos EUA para uma condição em que a nação será apenas mais um país entre muitos. Como ele afirmou, a sua "é uma liderança que reconhece nossos limites".

O candidato republicano na disputa pela presidência deve usar as próprias palavras e ações de Obama para mostrar como ele é ingênuo e fraco nos assuntos externos. As promessas não cumpridas, as oportunidades perdidas, as mudanças desordenadas sugerem que ele vive num mundo irreal e está completamente perdido. Por exemplo, antes de ser eleito, Obama prometeu se reunir com os líderes de Cuba, Irã, Coreia do Norte, Síria e Venezuela "sem precondições". Nada ocorreu, exceto um violento golpe para a imagem dos Estados Unidos como aliado fidedigno. Durante a campanha de 2008, ele também afirmou que o Irã era um país "minúsculo" que "não representava uma séria ameaça". Quão insensato isso parece agora?

Por outro lado, o candidato republicano não deve vacilar e deixar claras as áreas em que Obama manteve a política do seu predecessor republicano praticamente intacta. Ele ficará muito embaraçado se o candidato republicano parabenizá-lo por ter adotado a mesma estratégia de reforço de tropas no Afeganistão adotada por George W. Bush, reforçado o uso de drones, revertido o curso no tratamento dos terroristas presos e renovado o Ato Patriótico depois de tê-lo condenado como "uma lei perigosa e inoperante".

Essas congratulações darão ao candidato republicano mais força para criticar os muitos fiascos de Obama - não apenas a sua proposta de uma aproximação com os tiranos no Irã, Coreia do Norte e Venezuela, mas também o desastroso "restabelecimento de relações" com a Rússia, e a péssima administração das relações com o Paquistão, cronogramas elaborados politicamente no caso da retirada de tropas do Iraque e Afeganistão, e o desprezo para com aliados tradicionais importantes, como Otan, Canadá e México, e potências emergentes, como a Índia.

Obama reconhece que é visto como um presidente "frio e distante" e o candidato republicano deve martelar neste ponto. O presidente tem poucos amigos reais no exterior (exceto, naturalmente, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, como disse a Fareed Zakaria da revista Time). O candidato republicano precisa criticar Obama pelo fato de ele não entender que o engajamento pessoal do presidente dos EUA é essencial para uma liderança global eficaz. A falta de contatos mais regulares com o premiê iraquiano, Nouri al-Maliki, e o presidente afegão, Hamid Karzai, que destruiu as relações com antigos aliados dos EUA, é simplesmente o exemplo mais discordante e inexplicável da abordagem de não intervenção do presidente.

Como a campanha este ano será devotada a promover a mensagem republicana com relação aos problemas do emprego e da economia, o candidato do partido deve expressar sua visão de política externa não mais tarde do que o início do verão. E deixar claro para os eleitores para onde pretende levar o país também é importante para consolidar sua imagem como o líder que merece ocupar o Salão Oval. Apenas projetar a imagem certa não basta.

Áreas vitais. O candidato republicano terá de atacar pelo menos quatro áreas vitais. A mais importante é a luta que definirá este século: o terrorismo islâmico radical. Ele deve argumentar que a vitória deve ser o objetivo nacional dos EUA, e não apenas procurar "deslegitimar o uso do terrorismo e isolar aqueles que realizam atos terroristas", como estabelece a Estratégia de Segurança Nacional aprovada por Obama em maio de 2010. Como na Guerra Fria, a vitória exigirá o envolvimento permanente dos Estados Unidos e a disposição para adotar todos os instrumentos necessários para isso - da diplomacia aos elos econômicos, do uso da inteligência à ação militar.

Em segundo lugar, o candidato republicano deve condenar a precipitada redução de tropas no Afeganistão e os profundos e perigosos cortes no orçamento da Defesa. As duas medidas foram vistas com ceticismo pelos militares: a primeira encoraja os adversários dos EUA e desencoraja seus aliados; a última provoca uma profunda preocupação em veteranos e outros americanos que duvidam do compromisso de Obama com o Exército.

Em terceiro lugar, o candidato republicano deve se concentrar no perigo representado pelos Estados renegados, particularmente Irã e Coreia do Norte. O próximo aniversário de três anos da fraudada eleição presidencial iraniana, em junho de 2009, é um momento oportuno para o candidato reunir-se com exilados iranianos e proferir um discurso de porte, chamando atenção para a fraqueza e ingenuidade de Obama ao lidar com Teerã.

Em parte pela péssima maneira com a qual tem conduzido a questão iraniana, Obama perdeu muito apoio financeiro e político de parte da comunidade judaica americana. Seu enfoque com relação a Israel também tem sido débil e irresponsável. O candidato republicano precisa deixar clara a ameaça à existência de Israel da parte de um Irã possuidor de armas nucleares - não apenas porque isso vai reduzir o apoio que o presidente tem dentro de um bloco eleitoral crucial em Estados-chave numa eleição, como Flórida e Ohio.

Economia. A quarta linha de ataque refere-se à debilitada economia dos EUA e como restaurá-la. Para muitos eleitores, a condução da economia por Obama tem sido inconsistente e até contraproducente. O que torna imperativo que o candidato republicano defenda a promoção do comércio e um maior engajamento econômico internacional. O fracasso de Obama em competir com outros países em mercados que estão se abrindo agressivamente para exportações e empregos, deve ser ligado à sua responsabilidade pelo alto índice de desemprego doméstico e a anêmica recuperação econômica.

Sem dúvida, Obama tentará se antecipar às críticas à sua política externa, repetindo incansavelmente que Osama bin Laden foi morto sob a sua supervisão. No final da campanha, alguns eleitores perguntarão se o presidente pessoalmente deu o tiro de misericórdia. A melhor resposta será elogiar o presidente. Mas ao fazer isso, o rival de Obama deverá elogiar todos os atores envolvidos no drama, especialmente os homens das forças de elite da Marinha, cujo ataque corajoso matou o líder terrorista. E os infatigáveis analistas da CIA cujos palpites convenceram o então diretor Michael Hayden em 2007 a iniciar um trabalho vigoroso que acabou levando ao complexo de Abbottabad. No final, os eleitores saberão que Obama não matou Bin Laden - foram as forças de elite.

Na ausência de uma grande crise internacional, a eleição abrangerá especialmente problemas como emprego, gastos, reforma da saúde e energia. Os eleitores, contudo, querem um presidente com uma liderança no plano global e um comandante-chefe que projete força, não fraqueza.

Uma pesquisa realizada em novembro pela Resurgent Republic mostrou que 50% dos eleitores (como também 54% dos independentes que se identificam como tal) acham que a posição dos EUA no mundo está pior sob Obama, ao passo que 21% acreditam que está melhor. O que representa uma queda drástica em relação a abril de 2010, quando 50% dos eleitores (e 49% dos independentes) achavam que Obama melhorara a imagem dos EUA.

Isso porque Obama não conseguiu se tornar um líder internacional forte e o candidato republicano deve reforçar esta mensagem - na qual muitos americanos já acreditam. A política externa é o ponto frágil deste presidente, não sua força. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.