Como desafiar a doutrina Putin?

Especialista acredita que uma das formas de dissuadir a Rússia é mostrar que a Otan pode reagir rapidamente em caso de uma ameaça

DAVID, FRANCIS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h01

Aumentam as evidências de que a Rússia intensifica sua incursão em território ucraniano com o envio de tropas e de uma coluna de caminhões para o leste da Ucrânia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) apressou-se no dia 25 a condenar as ações, mas reprovações anteriores em nada contribuíram para deter Vladimir Putin.

A aliança dispõe de outras opções além de palavras ásperas para conter o desafio da Rússia a um vizinho europeu de grande importância. A Ucrânia não pertence à Otan, portanto a aliança não é obrigada a enviar tropas ou suporte aéreo. A Otan poderá fornecer armas, mas caberia aos ucranianos vencer o confronto. Mesmo que os aliados da Otan não forneçam armas à Ucrânia, ela poderá ter de pagar indiretamente, mais adiante, as armas de que precisa.

Sua situação econômica é crítica, na medida em que o conflito se arrasta muito além das "horas" previstas em maio por Petro Poroshenko para derrotar os separatistas.

A doutrina Putin - a convicção de que a Rússia tem o direito de agir para proteger os russófilos, independentemente de quem eles sejam - põe em risco nações da Otan, como Estônia, Letônia e Polônia. Cada um desses países tem cidadãos que falam russo; o Kremlin sugeriu que entraria nas suas fronteiras se Moscou considerasse que as populações estavam sendo ameaçadas.

Segundo Kurt Volker, embaixador americano na Otan de 2008 a 2009, a aliança agora se encontra numa situação extremamente complexa: tenta mostrar força suficiente para alertar a Rússia a afastar-se dos membros da Otan que faziam parte do antigo Bloco Oriental, sem parecer abertamente hostil de maneira a provocar as ambições territoriais da Rússia. A última coisa que a Otan quer é uma segunda Guerra Fria. "Quanto mais elevarmos as exigências para proteger os aliados, pior será para países como Moldávia, Georgia e Ucrânia", disse. "Você está dizendo aos russos que se, não for um membro da Otan, se tornará um alvo fácil. É um sinal perigoso."

Desde o início da crise ucraniana, a Otan deu demonstrações de força nos países do antigo bloco soviético. A aliança prevê a realização de grandes manobras militares na Polônia em outubro. Em maio, ela triplicou o número de patrulhas aéreas sobre países do Báltico e empreendeu novas manobras navais na região. Por outro lado, o presidente Barack Obama visitará a Estônia antes da cúpula da Otan no País de Gales na próxima semana, numa forte indicação de solidariedade a um país que Putin considerou publicamente como candidato à intervenção russa.

Volker acha que a aliança poderia fazer muito mais. "A Otan poderia reconstituir uma força móvel do comando aliado na Europa, uma força de resposta da Otan", disse. "A ideia é ter unidades que resistam não apenas no papel - que sejam identificadas como um todo e se exercitem juntas. Elas poderiam exercitar-se como uma força multinacional na Europa Oriental. Seria uma forte demonstração de solidariedade multinacional."

O Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou na terça-feira que foram presos dez paraquedistas russos na região de Donetsk. As agências de notícias russas informaram que, segundo oficiais russos, os militares estavam no local por acidente. A incursão "acidental" segue-se a outra mais evidente na segunda-feira, quando uma coluna de tanques procedente da Rússia penetrou no sudeste da Ucrânia.

Tudo isso ocorre logo depois de Poroshenko ter dissolvido o governo da Ucrânia na tentativa de afastar simpatizantes russos. O menosprezo total da Rússia pela opinião internacional, associada à instabilidade política de Kiev, inspira pouca confiança a Poroshenko quanto à possibilidade de Putin chegar a um acordo para pôr fim à crise. Na noite de terça-feira, a única manifestação de boa vontade entre os dois foi um aperto de mão.

Segundo John Herbst, embaixador americano na Ucrânia de 2003 a 2006, não havia muita esperança num acordo antes mesmo da recente violação da soberania ucraniana pela Rússia.

"Não haverá nenhum progresso amanhã a não ser que Poroshenko esteja disposto a entregar mais um pedaço de seu país a Putin", afirmou. "É evidente que a única solução aceita por Putin será a que lhe der maior possibilidade de opinar, se não por meio do veto, sobre o que acontece na Ucrânia oriental. Sem isso, Putin continuará sua guerra irregular e seu desafio. Não temos provas de que ele esteja disposto a parar sua agressão à Ucrânia."

A situação econômica da Ucrânia também oferece mais força a Putin. A moeda da Ucrânia perdeu 60% do seu valor desde o início do ano, a produção industrial e os gastos foram afetados pela incerteza provocada pelo conflito separatista. O país está consumindo rapidamente um empréstimo de US$ 17 bilhões do Fundo Monetário Internacional. Se o conflito se arrastar até setembro, o governo ucraniano terá também de guardar reservas suficientes para comprar gás da Rússia para o inverno - sem falar que a negociação de um preço para esse gás dará a Moscou mais influência para pressionar a Ucrânia a fazer concessões no leste.

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, disse que o fundamental para dissuadir a Rússia a utilizar esta ferramenta é mostrar que a Otan pode reagir rapidamente a uma ameaça. "A Otan não destacará um grande número de soldados na Europa Oriental a título permanente, a não ser que haja uma ameaça específica", disse. "A questão é, de que maneira será possível reunir no local capacidade adequada para uma resposta rápida? Por isso, a Otan tem muito trabalho a fazer."

A incógnita na ação coordenada da aliança é a Alemanha. Desde o início, a chanceler alemã, Angela Merkel, mostrou-se hesitante em punir a Rússia. Mas depois de um avião da Malaysia Airlines ser derrubado no leste da Ucrânia ela conseguiu com suas pressões a aplicação de sanções mais rigorosas.

Segundo Joerg Wolf, editor responsável do grupo de especialistas Atlantic-community.org, com sede em Berlim, o governo alemão considera novas punições uma escalada desnecessária. "Acredita-se que uma resposta enérgica seria contraproducente e, se a Otan decidisse adotar o modelo da Guerra Fria e estabelecer grandes bases militares permanentes na Polônia e nos países bálticos, a Rússia a consideraria uma provocação e uma desculpa para agravar mais a situação", acrescentou Wolf. "Em consequência da 1.ª Guerra e de séculos de conflitos em nosso continente, os europeus estão mais preocupados do que os americanos com os efeitos indesejados, os círculos viciosos e as espirais que levam à guerra."

Volker, ex-embaixador na Otan, disse que compreende a hesitação. Mas manter a integridade das fronteiras dos países europeus que não integram a Otan também é de interesse fundamental da aliança. Os membros europeus da Otan não querem que a Rússia se apodere de territórios ao longo da fronteira oriental da aliança sem qualquer consequência. "Temos interesse em manter a estabilidade na Europa protegendo suas fronteiras, e não apenas dos membros da Otan, mas também proteger a integridade territorial de nossos parceiros", afirmou, acrescentando que Ucrânia e Georgia são oficialmente parceiras da aliança. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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