Louai Beshara/AFP
Louai Beshara/AFP

Como dois jovens com deficiências se ajudam para sobreviver à guerra síria

Ahmed é surdo e mudo, Badr está paralítico; ambos afirmam que não podem viver um sem o outro

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 03h00

DAMASCO - Um é surdo e mudo, o outro está paralítico, mas juntos Ahmed e Badr formaram uma dupla bem equipada para superar suas respectivas dificuldades na Síria, país devastado pela guerra.

Em um beco de Damasco, Ahmad empurra Badr na cadeira de rodas, em um passeio que os dois homens costumam fazer quase todos os dias. Ambos afirmam que não podem viver um sem o outro. 

"Meus ouvidos são os dele e suas pernas são as minhas", explica à Agência France Press Badr, de 28 anos.

Em 2012, a medula espinhal de Badr al-Hajjami foi atingida por estilhaços, paralisando sua perna e deixando-o em uma cadeira de rodas. 

Cinco anos depois, seu encontro com Ahmad Moussa o tirou de sua solidão. O novo companheiro, de 24 anos, perdeu a audição e a fala quando tinha apenas dois anos de idade. Agora, os dois amigos são inseparáveis.

Badr se tornou o interlocutor preferido de Ahmad depois de aprender a linguagem de sinais durante três anos. Ele traduz as conversas, em um café, ou no táxi, e informa seu amigo sobre os últimos acontecimentos ao seu redor.

Os dois jovens são conhecidos e apreciados pelos moradores e comerciantes da velha Damasco.

"Passamos a maior parte do tempo juntos, comendo e brincando", afirma Badr, sorridente.

Os dois amigos fazem parte das 3,7 milhões de pessoas com deficiência na Síria, o que representa 27% da população do país. O número de pessoas com deficiência aumentou consideravelmente desde o início do conflito em 2011, que deixou mais de 380 mil vítimas.  

Segundo a ONU, 62% das pessoas com deficiência estão desempregadas.

"Cada deficiência é um mundo diferente, nunca se misturam", afirma Ahmad, que fala em linguagem de sinais, traduzido por Badr.

"Quando fazemos em equipe, a situação melhora", acrescenta.

Badr e Ahmad recebem apoio de um programa das Nações Unidas para a inclusão de pessoas com deficiência. Além de um subsídio financeiro temporário, o programa oferece treinamento profissional e câmeras fotográficas para que possam trabalhar como fotógrafos independentes.

Para Badr, é um apoio valioso, considerando as condições de vida atuais na Síria, onde mais da metade da população vive abaixo do limite da pobreza extrema.

"A guerra aumentou as dificuldades das pessoas com deficiência", que não são uma prioridade para o Estado, ou para a sociedade, lamenta.

Em seu celular, mostra uma foto em preto e branco de outra dupla de deficientes de um século atrás, segundo ele. O homem menor da foto, apresentado sob o nome de Samir, estava com as pernas paralisadas, enquanto o outro, Mohamad, era cego, afirma Badr.

"Ahmed e eu encarnamos outra forma de integração e complementariedade", conclui. /AFP

 

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