Ahn Young-joon/AP
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Como era a vida do desertor que preferiu voltar para o Norte após fugir para a Coreia do Sul

Kim tinha poucos amigos e sua motivação para voltar para casa permanece um mistério

Choe Sang-Hun, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2022 | 05h00

SEUL, Coreia do Sul — Em novembro de 2020, um ex-ginasta norte-coreano escalou cercas de arame farpado de 3 metros de altura sem ser detectado para chegar à Coreia do Sul. Quando Seul descobriu tardiamente a infração, iniciou uma extensa caçada humana. O homem só foi encontrado no dia seguinte, quase 1 quilômetro ao sul da fronteira mais fortificada do mundo. Foi um dos momentos mais embaraçosos para o Exército sul-coreano em anos.

No dia do ano novo, afirmam autoridades, o mesmo homem humilhou os militares novamente, fazendo a viagem inversa, escalando as mesmas cercas e atravessando a Zona Desmilitarizada de volta ao Norte.

Seu feito extraordinário não apenas ressaltou as falhas da segurança sul-coreana na zona-tampão de 4 quilômetros, conhecida como ZDM, mas levantou uma desconcertante dúvida sobre por que alguém arriscaria a vida atravessando-a duas vezes. A ZDM é delimitada por cercas de arame farpado, crivada por campos minados e vigiada por sentinelas armados. Poucos norte-coreanos que desertam para o Sul o fazem atravessando diretamente essa faixa de território (a maioria deixa o Norte cruzando antes a fronteira para a China), e é ainda mais raro que um desertor retorne para o Norte por esse caminho.

“Pedimos perdão por causar preocupações às pessoas”, afirmou a legisladores o general Won In-choul, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Coreia do Sul, na quarta-feira. “Faremos todo o possível para que incidentes similares não voltem a ocorrer.”

Na mesma audiência, o ministro da Defesa sul-coreano, Suh Wook, confirmou que seu país acreditava que o violador da fronteira foi o mesmo ex-ginasta que desertou para o Sul em 2020. Seul não divulgou seu nome, mas outros desertores norte-coreanos o identificaram como Kim Woo Joo, de 29 anos.

Eles afirmaram que Kim tinha poucos amigos e que sua motivação para voltar para casa ainda era um mistério nesta quinta-feira. Alguns legisladores especularam a respeito da possibilidade de ele ser um espião, mas o governo do presidente Moon Jae-in afirmou não ter encontrado nenhuma evidência disso.

Uma série de lapsos permitiu que Kim atravessasse a ZDM, afirmou o tenente-general Jeon Dong-jin, que comandou a investigação do Exército sobre a violação de segurança.

Kim foi flagrado por uma câmera de segurança por volta das 13h do sábado, enquanto caminhava na direção do limite sul da ZDM, na província oriental de Gangwon, que tem acesso proibido a civis. Um aviso foi emitido por alto-falantes, mas os militares não tomaram nenhuma outra atitude para impedir o homem depois que ele pareceu mudar de rumo para um vilarejo próximo.

Seis horas depois, ele escalava a primeira cerca alta do limite sul da ZDM. Três câmeras capturaram a cena, mas o soldado de plantão que monitorava em tempo real imagens de nove câmeras numa mesma tela de computador não percebeu nada. Sensores instalados na cerca dispararam um alarme, mas uma equipe de segurança avaliou que não havia nada de errado. 

Horas depois, na calada da noite, dispositivos militares de observação térmica detectaram o homem dentro da ZDM, caminhando na direção da Coreia do Norte.

Dos aproximadamente 34 mil norte-coreanos que desertaram para o Sul, 30 reapareceram misteriosamente no Norte na década passada. Acredita-se que alguns foram chantageados para retornar. Outros fugiram de acusações criminais na Coreia do Sul. Cogita-se ainda que outros podem ter retornado porque, depois de crescer na sociedade altamente regimentada e totalitária da Coreia do Norte, não foram capazes de se ajustar à vida hipercompetititva do Sul, onde desertores norte-coreanos com frequência são tratados como cidadãos de segunda classe. O pouco que se conhece a respeito da vida de Kim no Sul sugere que ele poderia se enquadrar nessa categoria.

Desertores que conhecem Kim afirmaram que, da mesma maneira que outros norte-coreanos que fogem para o Sul, ele adotou um novo nome depois de migrar: Kim Woo-jeong. Aparentemente ele enfrentou dificuldades para viver em ambas as Coreias, de acordo com autoridades e legisladores que receberam informações levantadas por militares e agentes de inteligência.

Como qualquer outro desertor, Kim foi interrogado pelo governo do Sul quando chegou. Ele afirmou que fugia de um padrasto abusivo. Na época, Kim pesava pouco mais de 50 quilos — e tem pouco mais de 1,50 metro de altura.

Ele fez novos amigos, afirmaram as autoridades. Encontrou trabalho em serviços de faxina cujos funcionários trabalham principalmente à noite, limpando prédios de escritórios. Aparentemente, Kim nunca se sociabilizava com os vizinhos. Desde o domingo, quando as primeiras notícias de seu retorno para o Norte emergiram, ninguém no Sul admitiu em público conhecê-lo pessoalmente.

Kang Mi-jin, uma norte-coreana que vive em Seul, afirmou que as primeiras experiências de um desertor no Sul podem ser determinantes. “Os primeiros empregos que eles encontram por aqui são importantes, assim como a maneira como eles são tratados”, afirmou ela. “É  nesse momento que eles descobrem se seus sonhos são realizáveis ou não.”

Os primeiros amigos normalmente são outros desertores do Norte, que eles conhecem durante o programa de treino para reassentamento de 12 semanas do governo. Antes da pandemia, quando até 3 mil desertores chegavam ao Sul anualmente, essas salas de aula ficavam lotadas. Mas com a fronteira entre China e Coreia do Norte fechada, somente 229 norte-coreanos chegaram ao Sul em 2020, o ano em que Kim desertou.

Aproximadamente um quarto dos desertores norte-coreanos — seis vezes a média nacional — recebe subsídios do governo para atender necessidades básicas, por estar na faixa de renda mais baixa da população. Os desertores empregados ganham salários que equivalem a cerca de 70% da média salarial nacional, de acordo com uma pesquisa que entrevistou 407 desertores realizada no ano passado pelo Centro de Dados para Direitos Humanos de Norte-Coreanos, com base em Seul.

Aproximadamente 35% desses desertores relataram que experimentam depressão e sensações de desespero, e 18,5% afirmaram que consideram retornar para o Norte, principalmente porque sentem saudades de suas famílias e cidades-natais, de acordo com a pesquisa.

Uma razão que faz muitos desertores infelizes insistirem em viver no Sul é que eles conseguem guardar dinheiro e mandar para suas famílias no Norte, por meio de atravessadores chineses que costumam cobrar taxas de 30% sobre o valor de cada envio. Mas trabalhos temporários, como os que muitos desertores conseguem, estiveram entre os primeiros a ser cortados pelos empregadores quando a pandemia avançou.

Kim vivia sozinho em um minúsculo apartamento no norte de Seul, pelo qual pagava US$ 117 de aluguel, e recebia US$ 418 por mês de ajuda do governo. De acordo com a agência de notícias sul-coreana Yonhap, Kim raramente cozinhava, economizava no consumo de gás, água e eletricidade — e tinha contas vencidas de aluguel e seguro médico.

“Ajudamos refugiados norte-coreanos a se reassentarem quando chegam aqui, mas temos sido mesquinhos em ajudá-los a encontrar empregos e tornar sua vida por aqui sustentável", afirmou na semana passada Park Soo-hyun, o secretário de comunicação social de Moon.

Para alguns desertores, a transição para o Sul é similar à experiência de um detento que é solto após cumprir muitos anos de pena e não consegue se reajustar ao mundo exterior, afirmou Lee Min-bok, que desertou da Coreia do Norte há muito tempo.

“Eles estranham a súbita liberdade no Sul e a consideram uma dificuldade maior do que a vida na Coreia do Norte, que é essencialmente uma prisão”, afirmou Lee. “O ostracismo que eles sentem no Sul não é muito diferente da discriminação que ex-presidiários sofrem quando saem da cadeia.”

O choque cultural é especialmente duro para os poucos norte-coreanos que atravessam a ZDM para chegar ao Sul. Muitos desertores passam anos vivendo na China, que é muito mais aberta ao mundo do que a Coreia do Norte, e quando chegam ao Sul já têm uma ideia do que esperar.

Até esta quinta-feira, a Coreia do Norte não havia comentado o retorno de Kim. O país usou com frequência desertores retornados como propaganda, publicando vídeos e artigos nos quais eles descrevem a vida infernal que levaram no Sul capitalista. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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