Como evitar o próximo 11 de Setembro

Muito mais deve ser feito, na segurança aérea e no ciberespaço, para garantir que estejamos a salvo do terrorismo global

Ronald K. Noble - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2011 | 00h00

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

Conforme nos aproximamos do 10.º aniversário do assassinato de milhares de cidadãos de mais de 90 países, continuo a me perguntar se estamos finalmente a salvo da ameaça global do terror. Desde aqueles chocantes atentados do 11/9, a morte de Osama bin Laden, a eliminação dos campos de treinamento de terroristas no Afeganistão e a pressão internacional coordenada contra a Al-Qaeda redefiniram a natureza da ameaça que nos confronta.

 

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Vimos atentados terroristas serem frustrados por uma combinação de reforço na segurança e vigilância, policiamento vigoroso por parte das forças de segurança e do Judiciário, medidas ágeis adotadas por um público atento e até a mais pura sorte: o "complô de Natal de Detroit", o "homem do sapato-bomba" e a tentativa de ataque na Times Square.

Mas vimos também uma deplorável carnificina em Bali, Londres, Madri, Moscou, e Mumbai, chegando ao Afeganistão, Iraque e Paquistão. Tragicamente, a lista está longe de relacionar todos os alvos recentes.

Em minhas visitas oficiais a 150 países, testemunhei o deslocamento do foco único dos governos e das forças policiais na Al-Qaeda e nos terroristas estrangeiros após o 11/9, para a preocupação atual com os criminosos estrangeiros em geral e, mais especificamente, os crimes cibernéticos e a segurança na internet.

Assim sendo, a pergunta que devemos fazer ao olhar para o futuro é: como poderemos proteger nossos países dos elementos remanescentes da Al-Qaeda e outras graves ameaças criminosas que emergem no horizonte? Tornou-se claro que níveis sem precedentes de mobilidade física e virtual estão ao mesmo tempo redefinindo e ameaçando nosso aparato de segurança.

Com um número cada vez maior de passageiros aéreos - os passageiros de voos internacionais chegaram a 1 bilhão em 2010, enquanto o número de passageiros de voos domésticos e internacionais deve chegar a 3 bilhões em 2014 - considero a análise sistemática dos passaportes daqueles que cruzam nossas fronteiras como uma das prioridades.

Os cidadãos agora submetidos a rigorosos procedimentos de segurança nos aeroportos de todo o mundo se mostrariam incrédulos se soubessem que hoje, dez anos após o 11/9, as autoridades ainda permitem que metade dos passageiros dos voos internacionais entre no país sem checar se estão portando passaportes roubados ou perdidos.

Ainda assim, todas as provas indicam que os terroristas exploram ao máximo as viagens aéreas, muitas vezes tentando ocultar sua identidade e seu passado ao usar pseudônimos e documentos falsos. Esse fracasso global no devido acompanhamento dos passageiros continuar a ser uma clara lacuna no aparato de segurança, que se torna ainda mais deplorável quando já estão prontamente disponíveis a tecnologia e a informação necessária para tal fim. Atualmente, menos de um quarto dos países confere sistematicamente os passaportes dos passageiros cruzando-os com o banco de dados da Interpol, que contém os detalhes de 30 milhões de documentos roubados ou perdidos. Este fracasso coloca vidas em risco.

Mas impedir que indivíduos perigosos cruzem as fronteiras nos aeroportos representa apenas metade do desafio. Numa época em que a migração global atingiu patamares recordes - estima-se em 214 milhões o número de pessoas que migraram em 2010 - vejo uma grande necessidade de proporcionar aos migrantes documentos de identificação biométrica eletrônica que possam ser rapidamente cruzados com o banco de dados da Interpol por qualquer país, a qualquer momento e em qualquer lugar. Uma verificação antes da emissão de um visto de trabalho ou residência facilitaria a eficiência na circulação dos migrantes, ao mesmo tempo reforçando a segurança dos países.

A mobilidade virtual também traz seus próprios desafios para a segurança. Em 2000, menos de 400 milhões de indivíduos estavam conectados à internet; estima-se que 2,5 bilhões de pessoas terão acesso à internet em 2015.

O uso extensivo da internet e contas de e-mail gratuitas e acessíveis permitiram que Khalid Sheik Mohamed, principal arquiteto do 11/9, se comunicasse de maneira rápida com os envolvidos na conspiração. Uma década mais tarde, vemos o mesmo poder definindo como seu alvo uma nova geração de vítimas a serem radicalizadas e transformadas em "lobos solitários" do terrorismo. Na Alemanha, o julgamento de um jovem que responsabilizou a propaganda jihadista online pelo assassinato duplo que cometeu é apenas um exemplo.

Acredito que a internet tenha substituído o Afeganistão enquanto campo de treinamento dos terroristas, e isso deveria ser uma grande preocupação para todos nós. O ciberespaço pode ser ao mesmo tempo um meio e um alvo para o terrorismo e o crime, sabotando a infraestrutura fundamental de governos e empresas. Mas, até o momento, não houve nenhuma tentativa expressiva no sentido de preparar os países para lidar com esta ameaça global no futuro.

É por isso que os 188 países membros da Interpol aprovaram a criação de um complexo global em Cingapura para preparar o mundo para melhor combater o crime cibernético e reforçar a segurança na rede. Assim, enquanto honramos a memória dos que morreram dez anos atrás, é hora de perguntarmos se fizemos tudo aquilo que podíamos para evitar outro 11/9 ou outro ataque sério.

Muito foi feito para um mundo mais seguro, mas pouco foi feito para garantir que estejamos a salvo do terrorismo global e da ameaça do crime. Se agirmos hoje, daqui a dez anos, talvez não estejamos apenas tentando recuperar a iniciativa após o mais recente ataque; quem sabe nós o tenhamos evitado. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É SECRETÁRIO-GERAL DA INTERPOL

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