Como evitar uma nova Guerra Fria

Incompatibilidades entreRússia e Ocidente não podem serconsideradas no atual conflito

SAMUEL CHARAP &, JEREMY SHAPIRO, BROOKINGS INSTITUTION, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

Neste ano, as tragédias e atrocidades observadas na crise da Ucrânia dominaram as manchetes dos jornais e as opiniões sobre as relações do Ocidente com a Rússia. Sem dúvida, os Estados Unidos, seus aliados e parceiros europeus têm de reagir à anexação da Crimeia pelos russos, à desestabilização da região oriental da Ucrânia, à derrubada de um avião de linha pelos separatistas e à ameaça à ordem global que todas essas ações representam. No entanto, a necessidade da resposta não significa que qualquer uma bastará.

Até agora, ela tem se concentrado mais em uma punição à Rússia e seus líderes por suas transgressões morais do que na solução dos persistentes problemas que afetam as relações entre ocidentais e russos que levaram ao impasse. Uma resposta séria deve ter como base uma estratégia mais abrangente que reflita os interesses numa relação que é crucial para a estabilidade regional e a ordem global, como também entender porque a situação se degradou de modo tão terrível.

Tentando compreender o que deu errado, a imprensa e estrategistas políticos ocidentais costumam se concentrar no presidente russo, Vladimir Putin e na sua influência maligna nas relações entre Rússia e Ocidente. Esse gênero de teoria da história dos "heróis" tem uma dupla vantagem, a simplicidade da explicação e a clareza da resposta.

Se um homem destrói uma relação, ao nos livrarmos dele avançamos grande parte do caminho no sentido de refazê-la. Assim, a imposição de sanções nos últimos meses por parte da União Europeia e dos Estados Unidos contra figuras do círculo mais próximo de Putin, aparentemente, teve como objetivo corroer sua autoridade e preparar o caminho para um golpe de Estado.

No entanto, escolher como principal alvo alguém que está no topo do poder é uma estratégia perigosa que com frequência conduz a políticas equivocadas do lado ocidental - como no caso de Saddam Hussein, no Iraque, Muamar Kadafi, na Líbia, ou Bashar Assad, na Síria.

Em relação à Rússia, Putin é claramente um líder importante e carismático, que exerce um forte controle no campo político. No entanto, as decisões por ele adotadas recentemente, por mais que os líderes ocidentais considerem repugnantes, não são tão importantes dentro da Rússia: seu índice de aprovação em julho era de 85% e a oposição - dentro e fora do governo - tem sido sistematicamente neutralizada. Além disso, as opiniões que o presidente russo têm expressado são mais a consequência do que a causa dos problemas envolvendo as relações russo-ocidentais. Mesmo se Putin desaparecesse amanhã, nenhum dos problemas fundamentais seriam solucionados.

Na verdade, sem ele, os problemas deverão piorar, uma vez que seus sucessores poderão estar ainda mais sintonizados com os rompantes nacionalistas e antiocidentais tão manifestos na cultura política da Rússia.

Uma estratégia mais ampla para solucionar os problemas que persistem nessa relação deve ir além de Putin, com um reexame de todo o trajeto das relações entre Rússia e Ocidente no período após a Guerra Fria. A crise da Ucrânia desencadeou um debate sobre a ampliação de instituições da Otan e da União Europeia (UE), depois de 1991, e o futuro desse processo.

De um lado, há os que atribuem a crise a essa ampliação: para esse grupo, foi a intrusão ocidental que precipitou as ações da Rússia, portanto, uma maneira de avançar será oferecer à Rússia garantias de que essa ampliação terá fim.

Do outro lado estão aqueles para quem a ampliação consolidou ganhos democráticos na Europa pós-comunista e protegeu Estados vulneráveis contra a agressão russa. Na opinião desse grupo, uma resposta adequada à crise seria autorizar rapidamente a adesão de Ucrânia, Geórgia e qualquer outro vizinho da Rússia interessado às instituições ocidentais.

Ambos os grupos não percebem uma questão fundamental: se a Rússia poderá um dia ser um parceiro normal do Ocidente. Se a conclusão for que os últimos 20 anos provaram que o país é congenitamente hostil ao Ocidente e a seus valores e jamais aceitará uma autêntica parceria, então, o conflito é inevitável.

Desse modo, medidas agressivas para conter ou confrontar a Rússia no âmbito da atual crise são necessárias e sem nenhum inconveniente importante. Pelo contrário, se em vez de examinarmos (como fazemos) a história do período após a Guerra Fria com uma visão trágica - uma série de equívocos quanto à compatibilidade da ampliação contínua das instituições com uma relação de cooperação no campo da segurança entre Rússia e Ocidente -, então precisamos encontrar um equilíbrio entre a imposição de sanções à Rússia por suas recentes transgressões das normas internacionais e manter a porta aberta para melhores relações no futuro.

Dessa vez é diferente. Essa disputa repercute um debate histórico importante: se a Guerra Fria começou ou não em razão de contradições fundamentais entre o Ocidente e a União Soviética ou em virtude de uma série de mal-entendidos e desacertos de ambos os lados da Cortina de Ferro.

No entanto, mesmo os historiadores que privilegiam o primeiro argumento não negam que contradições existiram. Na verdade, a União Soviética foi uma potência ideológica, expansionista, com ambições globais e profundamente hostil aos interesses ocidentais. A Rússia pós-soviética desperta antipatia e transgrediu inúmeras normas internacionais importantes no passado, mas não é a União Soviética.

Em outras palavras, apesar da similaridade superficial entre o debate observado hoje sobre a Rússia e o debate histórico sobre as origens da Guerra Fria, um exame mais profundo revela uma diferença: as incompatibilidades fundamentais não podem ser levadas em conta no atual conflito.

O fato de, em 2014, observarmos um confronto direto entre Rússia e Ocidente foi inesperado para os líderes políticos de ambos os lados. Em junho de 2013, Putin e o presidente Barack Obama divulgaram uma declaração conjunta com vistas a um maior engajamento bilateral, que estabelecia o seguinte: "EUA e Rússia reafirmam sua disposição de aprofundar a cooperação bilateral com base nos princípios da consideração mútua, da igualdade e de um genuíno respeito pelos interesses de cada um.

Guiados por esse enfoque, chegamos a um entendimento sobre uma agenda positiva orientando as relações entre nossos países. Esse programa de ação de longo alcance exigirá um maior engajamento em todos os níveis". Nove meses depois, Obama adotaria sanções sem precedentes contra a Rússia.

Embora o atual conflito possa não ter sido inevitável, nos meses e anos anteriores à invasão da Crimeia, em fevereiro de 2014, a arquitetura institucional euro-atlântica tornou-se cada vez mais uma fonte de atrito entre Rússia e o Ocidente.

Não significa que a ampliação das instituições foi a causa da invasão russa, como afirmou o cientista político da Universidade de Chicago, John Mearsheimer, e outros analistas. Entretanto, só compreenderemos o processo decisório russo em relação à Crimeia e à Ucrânia se o situarmos no contexto mais amplo da ordem pós-Guerra Fria e as suas falhas. Da mesma maneira, para compreendermos as decisões adotadas pelo Ocidente no caso da Ucrânia, precisamos levar em conta as realizações extremamente importantes dessa ordem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

SHAPIRO É PESQUISADOR VISITANTE

DE POLÍTICA EXTERNA NO BROOKIGS

INSTITUTION. CHARAP É PESQUISADOR DE RÚSSIA E EURÁSIA NO INSTITUTO

INTERNACIONAL PARA ESTUDOS

ESTRATÉGICOS

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