Mohammed Salem/REUTERS
Mohammed Salem/REUTERS

Como funciona o 'metrô' do Hamas, rede de túneis alvo de Israel

Investidas contra passagens subterrâneas estão sempre entre as alegações de forças de Israel para justificar ataques em Gaza

Adam Taylor, The Washington Post

15 de maio de 2021 | 20h00

WASHINGTON - Uma série de ataques na Faixa de Gaza lançados por Israel tiveram como alvo uma vasta rede de túneis subterrâneos usados ​​por militantes palestinos, disseram autoridades israelenses na sexta-feira, 14. De acordo com os militares israelenses, 160 aeronaves atingiram mais de 150 alvos subterrâneos no norte de Gaza, especificamente em Beit Lahiya, com o objetivo de atingir uma extensa rede apelidada de “metrô” e usada pelo Hamas, que controla o enclave desde 2006.

Os ataques ocorreram logo após o anúncio das Forças de Defesa de Israel de que as tropas terrestres israelenses haviam entrado em Gaza  - a declaração foi desmentida depois.

Alguns meios de comunicação israelenses especularam que o anúncio de uma invasão terrestre era um estratégia para atrair as forças militares do Hamas para os túneis. Na sexta-feira, 14, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu pareceu sugerir essa possibilidade. “Atacamos alvos no subsolo”, disse Netanyahu. “O Hamas achou que poderia se esconder lá, mas não pode. Comandantes do Hamas acham que podem escapar de nossas garras. Não podem.”

Justificativas israelenses de túneis cavados por militantes palestinos costumam figurar em conflitos em Gaza. Ao contrário dos foguetes palestinos, que deixam evidências claras de sua existência após serem disparados, pode ser difícil para observadores verificarem detalhes dos sistemas subterrâneos e seu uso secreto.

Os líderes do Hamas dizem que os túneis são uma “inovação” e insistem que as passagens são defensivas e sugerindo que mesmo que as forças israelenses as destruam, há muitas outras.

Militares israelenses já levaram jornalistas em passeios por túneis ocupados por suas tropas, mostrando que são estruturas surpreendentemente sofisticadas com paredes de concreto, eletricidade e carrinhos -- alguns repórteres também  já foram conduzidos pelos túneis pelo Hamas.

Pelo menos 30 túneis foram destruídos durante o conflito de 2014. Na época, autoridades israelenses disseram que o Hamas hava construído mais de 1,3 mil passagens desde 2007 a um custo de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,3 bilhões), desviando fundos que poderiam ter sido gastos em infraestrutura em Gaza.

Netanyahu afirmou que os túneis podem ser usados ​​para sequestrar não apenas soldados, mas civis israelenses.  Especialistas sugerem que parte do objetivo dos túneis é instigar esse medo. 

Gerard De Groot, professor de história da Universidade de St. Andrews que escreve sobre guerra e política, descreveu os túneis como sendo capazes de “evocar um horror peculiar - como se o próprio diabo estivesse emergindo do inferno para espalhar tormento na Terra”.

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Oficiais do Hamas se gabaram da escala de sua rede de túneis, com o vice-líder Ismail Haniyeh, afirmando em 2016 que o grupo tinha o dobro de túneis que as forças comunistas usaram contra as tropas americanas na Guerra do Vietnã.

Isso pode ser um exagero, mas aqueles que estudaram o sistema sugerem que ele é  realmente complexo.

Em um artigo recente, Rami Abu Zubaydah, do Instituto Egípcio de Estudos, disse que entrevistas com militantes revelaram uma variedade de túneis usados ​​por razões estratégicas, incluindo os usados ​​para combate, aqueles onde a liderança pode se reunir e outros onde foguetes e armas são armazenados .

Existem também túneis menores usados ​​para transporte rápido, escreveu Ahmad.

Israel desenvolveu uma variedade de métodos para combater os túneis, incluindo a construção de uma ambiciosa parede subterrânea que foi finalmente concluída em março, após anos de trabalho. As autoridades se recusaram a dizer publicamente a profundidade do muro.

Em uma conferência do Comitê de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC), em Washington em 2018, um oficial  disse que Israel tinha novas técnicas sofisticadas para encontrar os túneis, mas se recusou a dar detalhes.

Israel possui várias armas capazes de atingir o subsolo, muitas desenvolvidas para atacar bunkers iranianos.

Se os falsos relatórios de uma invasão terrestre foram um truque ou não, as autoridades israelenses disseram que a última rodada de ataques a Gaza foi projetada para atingir o alto escalão do Hamas, incluindo os responsáveis ​​pela construção e manutenção de túneis.

“Vemos seus temores, depois que cerca de 100 de seus amigos foram mortos nos últimos dias”, disse o porta-voz militar Hidai Zilberman à rádio Kan na manhã de sexta-feira, 14.

“Nós os alcançamos em todos os lugares, todo o seu povo, e continuaremos fazendo isso”, disse Netanyahu, ao final de uma reunião com chefes de segurança em Tel Aviv.

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