REUTERS/Edgard Garrido
REUTERS/Edgard Garrido

Como funciona uma deportação na prática

Para os imigrantes que estão em situação ilegal nos EUA, o caminho entre ser preso e deportado é longo e tortuoso

Fernanda Santos / The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2017 | 15h36

Durante sua agitada primeira semana na Casa Branca, o presidente americano Donald Trump cumpriu sua promessa de campanha e deu início a uma reforma completa na imigração. Bastou uma canetada para redefinir o sentido de “estrangeiro ilegal”, ampliando os critérios usados para decidir quem é prioridade para deportação.

Não são apenas os “homens maus” de quem ele falava durante a campanha. Qualquer imigrante sem documentos que tenha sido condenado por algum crime ou as autoridades acreditem ser responsável “por atos passíveis de condenação criminal” - ou seja, qualquer pessoa suspeita de ter cometido um crime, mas que ainda não foi formalmente acusado - agora está no topo da lista de alvos do governo.

Para imigrantes que estejam ilegais no país, o caminho entre a detenção e a deportação muitas vezes é longo e tortuoso. O acusado pode apelar da ordem de deportação emitida por um juiz, seja para o Conselho de Apelações de Imigração ou, em casos muito raros, até para a Suprema Corte.

Os diretores de campo da Autoridade de Imigração e Alfândega dos EUA, ou ICE, podem conceder uma suspensão de remoção, que é uma outra forma de postergar a repatriação. Nas palavras de uma funcionário público federal do setor de imigração, “podemos iniciar o processo de remoção de uma pessoa amanhã e levará meses, ou mesmo anos até chegar ao fim do processo”.

Mas o que acontece quando processo chega ao fim?

Retorno ao país de origem

O primeiro passo é garantir que o país para onde os imigrantes ilegais serão deportados quer recebê-los de volta. Autoridades da imigração devem obter um documento de viagem emitido pelo país de destino - uma garantia de que ele receberá o cidadão que for retirado dos EUA. Na maioria dos casos, não há problemas nesse sentido.

Autoridades consulares do México, de onde vêm a maioria dos deportados, respondem rapidamente ao processo, afirmam as autoridades americanas. Uma pequena parcela das pessoas com ordem de deportação não são aceitas de volta em seus países de origem. De acordo com uma decisão de 2001 da Suprema Corte, elas não podem continuar detidas.

Transporte

Assim como existem muitos resultados possíveis para um caso de imigração, também há diferentes formas de deportar os imigrantes que estão ilegalmente no país. Tudo depende de onde estão.

Os mexicanos geralmente são levados para cidades como Phoenix, San Diego, e Brownsville, no Texas. De lá, são levados por terra em vans e ônibus ou, em alguns casos, simplesmente atravessam uma ponte à pé.

Os cidadãos de outros países são enviados para as cidades onde estão localizados um dos 24 escritórios de campo operados pelas equipes de remoção da agência de migração. Entre elas estão Seattle, Las Vegas e Boise, em Idaho, no oeste americano; Omaha, em Nebraska; St. Paul, em Minnesota; e Kansas City, no Missouri, no centro do país; e Miami e Harrisburg, na Pensilvânia, no leste. A partir dessas cidades, os imigrantes ilegais são enviados de avião para seus destinos finais.

Jornada

A ICE conta com um setor de transporte e utiliza uma combinação de voos comerciais e fretados para transportar os imigrantes detidos em cidades americanas e dos EUA em países estrangeiros. A agência realiza voos fretados regulares para países com um número grande e constante de deportados, como El Salvador e Honduras. A agência também os envia em voos fretados para a Europa, Ásia e África, embora com menor frequência. Recentemente, um desses voos levou deportados para a Somália, de acordo com uma porta-voz da ICE.

Os deportados são presos pelos punhos e tornozelos em aviões fretados e em voos comerciais, caso estejam acompanhados. A decisão é tomada com base no histórico de cada um, se cometeram crimes violentos ou se são considerados perigosos. Durante o voo, as algemas só são tiradas quando os deportados comem ou usam o banheiro.

Veja abaixo: Tijuana, onde o sonho americano se choca com o muro

Custo de repatriação

As viagens são inteiramente custeadas pelos contribuintes americanos. A ICE paga em média US$ 8.419 por hora de voo fretado, independentemente do número de pessoas que viajam.

Uma das críticas feitas por uma auditoria realizada pelo Escritório do Inspetor Geral do Departamento de Segurança Nacional em 2015 dizia respeito ao número e à frequência de assentos vazios nesses voos. Outra crítica eram as rotas tortuosas traçadas por pelo menos parte dos detentos. Em 2013, um deportado viajou de Seattle a El Paso, depois a Phoenix, depois a Seattle e de volta a Phoenix antes de chegar à Guatemala.

Depois da chegada

Os imigrantes geralmente chegam a seus destinos levando nada além da roupa do corpo. Chegam sem cadarços nos sapatos e sem cinto, por medo de que esses objetos sejam utilizados em tentativas de suicídio.

A responsabilidade do governo dos EUA não é levar essas pessoas até seus destinos finais. Os deportados são deixados em algum ponto - um aeroporto, uma ponte sobre o Rio Grande, no Texas, ou um determinado portão na fronteira - e, em seguida, são obrigados a encontrar uma forma de se reunir com parentes ou tentar se reconectar com parentes que deixaram para trás.

Em 2011, Maria Rodriguez, de 40 anos, entrou em um pequeno escritório do governo mexicano em Nogales, logo após a fronteira. Ela não tinha dinheiro e não sabia para onde ir quando foi deixada em Nogales após a deportação.

“Pedi o celular emprestado para uma pessoa que eu não conhecia para que eu pudesse ligar para meu marido”, relembrou ela em uma entrevista recente. Seu marido, que na época estava vivendo legalmente nos EUA e agora é cidadão americano, atravessou a fronteira para levar roupas e dinheiro, antes de voltar para casa com os quatro filhos do casal, em Phoenix.

Maria voltou aos EUA depois de pedir asilo político, em função da violência causada pelos cartéis em seu Estado natal, Guerrero, no México. Entretanto, até o momento, ela não está legalizada.

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.